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Correio Braziliense

'Teremos relação institucional com o governo', diz presidente eleito da OAB

O criminalista Délio Lins e Silva derrotou Jacques Veloso, candidato que recebeu o apoio do governador eleito Ibaneis Rocha


postado em 30/11/2018 07:00

Délio Lins e Silva (centro), presidente eleito da OAB-DF(foto: Wallace Martins/Esp. CB/D.A Press)
Délio Lins e Silva (centro), presidente eleito da OAB-DF (foto: Wallace Martins/Esp. CB/D.A Press)

Em uma votação apertada, o candidato da oposição, Délio Lins e Silva, venceu as eleições da Ordem dos Advogados no Brasil no Distrito Federal (OAB/DF) ontem. Com 9.805 votos, ele derrotou Jacques Veloso — candidato apoiado pelo governador eleito, Ibaneis Rocha, e pelo atual presidente da entidade, Juliano Costa Couto — por 248 votos de diferença. Veloso recebeu 9.557 votos, Renata Amaral, 1.912 e Max Telesca, 1.597. Em 2015, Délio disputou a presidência da entidade, mas ficou em segundo lugar, derrotado por Costa Couto. Ao todo, 32.715 advogados estavam aptos a votar e a abstenção foi de 8.872 eleitores — 972 votaram nulo ou branco.

Délio Lins e Silva tinha o apoio do advogado Francisco Caputo, que presidiu a OAB/DF entre 2010 e 2012, após vencer Ibaneis Rocha na disputa pelo cargo. Naquela gestão, Délio atuou como conselheiro, presidindo as Comissões de Apoio ao Advogado Iniciante e de Honorários da instituição. Com a vitória, Caputo agora será conselheiro federal.

O futuro presidente é graduado em direito pelo UniCeub. É também mestre e doutorando em ciências jurídico-criminais, além de pós-graduado em direito penal econômico pela Faculdade de Direito da Universidade de Coimbra, em Portugal.


Após o resultado, Délio afirmou que fará com que a OAB-DF seja protagonista na sociedade. “Vamos trazer a discussão para dentro para nos posicionarmos. A advocacia e a OAB vão se posicionar de forma independente, apartidária.” O discurso contra a ligação da Ordem com a política partidária foi uma das tônicas da campanha do futuro presidente.

Ele também assegurou que a entidade vai se aproximar da população na próxima gestão, com parcerias com instituições e o governo nos “bons projetos”. “Mas também será independente o suficiente para apontar o dedo quando as coisas estiverem erradas.”
 
Advogados comemoram a vitória do candidato no Centro de Convenções Ulysses Guimarães, onde votam cerca de 26 mil. Ao todo, 32.715 estavam aptos a participar da escolha
Advogados comemoram a vitória do candidato no Centro de Convenções Ulysses Guimarães, onde votam cerca de 26 mil. Ao todo, 32.715 estavam aptos a participar da escolha
 

Embate

A concentração no Centro de Convenções Ulysses Guimarães, onde votam cerca de 26 mil advogados, foi intensa. Houve momentos em que longas filas se formaram para que fosse possível registrar o voto. Nos arredores do local, o trânsito ficou mais lento durante todo o dia. Advogados se aglomeraram na estrutura instalada no exterior do prédio, com tendas de apoio das quatro chapas.

Nas eleições da OAB-DF, a boca de urna é permitida. Por isso, faixas e placas foram colocadas no Centro de Convenções e nas regiões mais próximas, por onde chegavam os eleitores. Apoiadores das chapas pediram voto ao longo de todo o período de votação e chegaram a se confrontar em alguns momentos.
A tensão maior ficou entre a chapa de Jacques Veloso e Délio Lins e Silva, as duas com maior estrutura de cabos eleitorais e material de divulgação. Apesar do clima acirrado e da troca de provocações, não houve registro de confusão mais séria.

O atual presidente da OAB-DF, Juliano Costa Couto, celebrou a tranquilidade, em geral, da votação e a participação de eleitores. “Estou orgulhoso da logística que conseguimos preparar. Tudo tranquilo e com boa presença dos advogados, como o esperado”, avaliou. Ele também afirmou que a transição será tocada de maneira democrática e sem barreiras.

Cabo eleitoral ilustre, o governador eleito, Ibaneis Rocha (MDB), que foi presidente da Ordem, dedicou boa parte do dia de ontem para fazer campanha para Jacques Veloso. Ele chegou ao Centro de Convenções no início da tarde, votou rapidamente e foi para a entrada do prédio pedir votos. Conversou com dezenas de pessoas que passaram por ali e atendeu aos diversos pedidos de selfies e fotografias.

Ibaneis também foi provocado. Apoiadores de Délio Lins e Silva criticavam o envolvimento da OAB com a política partidária. “A OAB não é puxadinho de ninguém”, gritaram alguns. O momento mais tenso ocorreu quando Ibaneis foi entrevistado por uma equipe de televisão. Enquanto respondia às perguntas dos repórteres, manifestantes gritavam “Independência!”. O futuro chefe do Executivo local seguiu a fala e ignorou os comentários.

Ele destacou a importância de a Ordem trabalhar em conjunto com o governo da cidade e garantiu que, independentemente do resultado, isso seria feito. “Teremos, sim, uma boa relação com o novo presidente, desde que a intenção seja ajudar e desenvolver a cidade”, afirmou.

Expectativa

Na saída do Centro de Convenções, advogados relataram que, apesar do grande número de eleitores, o processo de votação foi rápido e sem problemas. Representatividade, apoio a novos advogados e integração com a sociedade foram alguns dos pontos considerados fundamentais para os eleitores.

Morador do Sudoeste, Venâncio Moreira, 66 anos, destaca que a OAB precisa estar ao lado da sociedade. “Além das melhorias para os advogados, precisamos pensar mais na população. As duas coisas têm de andar juntas. Ou algo está muito errado”, disse.

A entrada de novos advogados no mercado trabalho é a maior preocupação de Guilherme Fragoso, 28. “É preciso apoiar quem está entrando na advocacia. Criar mais escritórios virtuais, investir em cursos. Conheço muitos casos de pessoas que se formaram e não conseguiram um emprego.”

Joana Ghanem, 43, e Monique Neves, 28, pedem mais representatividade feminina dentro da entidade. “A mulher precisa ter mais participação na OAB. A maioria dos cargos são ocupados por homens”, avaliou Joana. “Precisamos também de salários equiparados”, completou Monique.
 
(foto: Carlos Vieira/CB/D.A Press)
(foto: Carlos Vieira/CB/D.A Press)
 

Votação nas regiões administrativas

Além do Centro de Convenções Ulysses Guimarães, a votação ocorreu nas subseções de Brazlândia, Ceilândia, Gama e Santa Maria, Guará, Núcleo Bandeirante e Riacho Fundo, Paranoá, Planaltina, Samambaia, São Sebastião, Sobradinho e Taguatinga. Também foram instaladas urnas na Advocacia-Geral da União, na Câmara dos Deputados, na Câmara Legislativa do Distrito Federal e na Defensoria Pública do Distrito Federal. 

Três perguntas

Délio Lins e Silva, presidente eleito da OAB-DF

Quais serão as prioridades da gestão?
A gestão vai ser focada na advocacia. Nós todos, advogados e advogadas, seremos muito bem representados. A nossa caminhada na composição da chapa representou isso. Representou todos os segmentos da advocacia. Temos movimentos sociais, advocacia privada, advocacia pública... A partir do ano que vem, todas essas pessoas que estão lá dentro vão representar toda a advocacia. E mais do que isso: vamos trazer novamente para a nossa casa todas as discussões da sociedade. Vamos voltar a ser protagonistas da sociedade. A OAB se omitiu, calou a boca, não participa, não se manifesta. Quando o faz é de forma atrasada. Então vamos trazer a discussão para dentro para nos posicionarmos.

Como será a relação da nova gestão OAB-DF com o governador eleito Ibaneis Rocha, que apoiou seu adversário?
Ninguém vai ser oposição ao novo governador. O papel da OAB não é esse. Teremos uma relação institucional, como a OAB deve ter com todos os Poderes. Criou-se, durante a campanha, uma visão de que nós, por sermos do grupo opositor a Ibaneis dentro da Ordem, seríamos oposição ao GDF. Longe disso, seremos parceiros nos bons projetos e independentes para apontarmos o dedo quando as coisas estiverem erradas. A OAB é parte legítima para ações coletivas. Então, não tenham dúvida de que tomaremos todas as providências que forem necessárias quando as coisas estiverem erradas. Mas a relação institucional será normal, tranquila. Ninguém está entrando para brigar. Estamos entrando para contribuir para a advocacia e a sociedade.

Como será o processo de transição?
Antes da posse, já vamos para dentro da casa para fazer a transição. O presidente, Juliano Costa Couto, se prontificou a isso antes da eleição. Em 1º de janeiro, vamos trazer nossa equipe para trabalhar de verdade pela advocacia. Então, montaremos nosso plano de governo, trazer prioridades e necessidades, para que, durante três anos, possamos cumprir as nossas promessas que apresentarmos. E tenho a absoluta certeza de que faremos a melhor gestão da história da OAB-DF. Vamos cumprir cada uma das ideias propostas.

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