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Correio Braziliense

Ibaneis aposta em equipe de Temer para compor 1º escalão do GDF

Ao definir secretários e chefes das principais áreas de governo, Ibaneis prestigia nomes com projeção nacional e trânsito na Esplanada e no Congresso para ajudar na solução de problemas e na busca de recursos federais para cumprir compromissos de campanha


postado em 02/12/2018 06:00 / atualizado em 01/12/2018 22:00

No dia seguinte à sua vitória no segundo turno das eleições, Ibaneis esteve no Palácio do Planalto com o presidente, principal líder de seu partido, o MDB(foto: Valter Campanato/CB/D.A Press)
No dia seguinte à sua vitória no segundo turno das eleições, Ibaneis esteve no Palácio do Planalto com o presidente, principal líder de seu partido, o MDB (foto: Valter Campanato/CB/D.A Press)
Da Esplanada dos Ministérios para o Executivo local: o governador eleito Ibaneis Rocha (MDB) emplacou nove nomes da gestão do presidente Michel Temer (MDB) no primeiro escalão do Distrito Federal. Os escolhidos comandarão secretarias, institutos e estatais a partir de 1º de janeiro. Para cientistas políticos, a seleção deve-se à necessidade de abrigar indicações de lideranças do partido, que, neste ano, teve seu pior desempenho nas disputas por governos estaduais desde a retomada das eleições diretas. Além disso, destacam estudiosos, o emedebista prioriza pessoas com bom trânsito na esfera federal a fim de facilitar a captação de recursos e a aprovação de projetos, condição que pode ajudá-lo a alçar voos mais altos nas próximas eleições (leia Palavra do Especialista).

Em 2018, o MDB elegeu três governadores — quatro a menos que em 2014. Na contramão do caso de Ibaneis, os outros dois futuros gestores integram clãs familiares com grande poderio nos respectivos estados. O senador Renan Calheiros emplacou, no primeiro turno, Renan Filho, reeleito no Palácio Floriano Peixoto, em Alagoas. No Pará, Helder Barbalho, filho do ex-governador Jader Barbalho, conquistou o mandato. Nesses locais, portanto, falta espaço para a indicação de outros caciques emedebistas.

O partido também perdeu tamanho e influência na Câmara dos Deputados. Foram 34 parlamentares eleitos em 2018, contra os 66 de 2014. No Senado, apesar de obter a maior representação, o MDB viu lideranças degoladas nas urnas, como Romero Jucá (RR), Edison Lobão (MA) e Eunício Oliveira (CE). Na corrida presidencial, o ex-ministro da Fazenda Henrique Meirelles investiu R$ 54 milhões do próprio bolso na campanha, mas recebeu somente 1,2% dos votos válidos e acabou na sétima colocação. Com o desgaste, o MDB  busca se reerguer, e o processo passa pela ocupação de escolhidos na administração pública. 

Ao fornecer esses espaços, Ibaneis ganha, pouco a pouco, voz e influência no alto escalão do partido. A construção acontece, majoritariamente, por cima. Lideranças distritais, por exemplo, ficaram de fora da acomodação no Executivo local até agora. Com raízes no setor de obras, o presidente regional do MDB, Tadeu Filippelli, não ficará à frente das pastas que cuidam da área. O emedebista teve influência neste campo em todas as últimas gestões, à exceção da de Rodrigo Rollemberg (PSB).

Apesar de estar longe do setor que sempre comandou, Filippelli, articulador da filiação de Ibaneis ao MDB, terá uma familiar na estrutura do governo. A nora, Ericka Filippelli, chefiará a Secretaria da Mulher a partir de janeiro. Ela foi subsecretária de Articulação Institucional e Ações Temáticas da Secretaria de Políticas para Mulheres.

Se conquistar prestígio no partido, Ibaneis completará um dos passos necessários para alçar voos mais altos: o agrupamento de aliados que deem sustentação aos seus projetos no futuro. Restariam, ainda, outros desafios, a exemplo da boa avaliação do crítico eleitorado do Distrito Federal. A prova da dificuldade dos gestores em agradar o brasiliense está nas urnas: desde que se implementou a possibilidade de renovação do mandato no país, em 1995, apenas Joaquim Roriz conseguiu a reeleição ao GDF. 

Obras

A conquista da simpatia do eleitorado passa pelo cumprimento de promessas de campanha. Para isso, numa cidade em que se aplica a maior fatia do orçamento ao pagamento do funcionalismo, o governo precisa captar recursos federais para tocar obras que tenham impacto direto no dia a dia do brasiliense. A convocação de nomes com experiência e bom trânsito na Esplanada facilita o processo. Por isso, Ibaneis tem levado o item em consideração ao bater o martelo sobre o comando de secretarias e estatais.

Anunciado na última semana, o futuro secretário de Saúde, Osnei Okomoto, passou pelo crivo do atual ministro da Saúde, Gilberto Occhi, e do ministro escolhido pelo presidente eleito Jair Bolsonaro, Luiz Henrique Mandetta. Okomoto atua, hoje, como chefe da Secretaria Nacional de Vigilância em Saúde (SVS). Ele terá como missões prioritárias acabar com as filas de espera por cirurgias e reconstruir a estrutura do sistema público de saúde.

Derrotado nas urnas do Maranhão, Sarney Filho (PV) comandará a Secretaria de Meio Ambiente do DF. Filho de José Sarney, uma das maiores lideranças do MDB, Zequinha Sarney, como é conhecido, chefiou o Ministério que trata do setor entre 2016 e abril de 2018. Uma das principais atuações do futuro secretário foi no desastre da Samarco, que destruiu parte da cidade de Mariana, em Minas Gerais. Zequinha se recusou a assinar o termo de conformidade que permitiria à mineradora voltar a atuar no município.

A interlocução direta com Jair Bolsonaro é outro fator observado pelo futuro governador. O emedebista escolheu, para a Secretaria de Segurança, o delegado federal Anderson Torres, chefe de gabinete do deputado federal Francisco Francischini (PSL-PR), parlamentar ligado ao futuro presidente. Nessa área, Ibaneis precisa também de uma boa interlocução de recursos federais para honrar os compromissos de conceder a paridade dos salários dos policiais civis aos da Polícia Federal e promover o plano de cargos e salários da Polícia Militar e do Corpo de Bombeiros, cujas autorizações precisam passar pelo crivo do Congresso.


Os escolhidos


O governador eleito Ibaneis Rocha (MDB) escolheu nove nomes do alto escalão do governo do presidente Michel Temer (MDB) para compor o Executivo local


» Adão Cândido 
Atuação na gestão Temer: Secretário de Articulação do Ministério da Cultura

Cargo no governo Ibaneis
Secretário de Cultura

» Edison Garcia 
Atuação na gestão Temer: 
Presidente do INSS

Cargo no governo Ibaneis:
Presidente da CEB

» Edson Duarte  
Atuação na gestão Temer: 
Ministro do Meio Ambiente

Cargo no governo Ibaneis: Presidente do Instituto Brasília Ambiental (Ibram)

» Ericka Filippelli
Atuação na gestão Temer: 
Subsecretária de Articulação Institucional e Ações Temáticas da Secretaria de Políticas para Mulheres

Cargo no governo Ibaneis: 
Secretária da Mulher

» Eumar Novacki 
Atuação na gestão Temer: 
Secretário executivo do Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento

Cargo no governo Ibaneis: 
Chefe da Casa Civil

» Gustavo Rocha 
Atuação na gestão Temer: Ministro dos Direitos Humanos e subchefe da Casa Civil da Presidência da República

Cargo no governo Ibaneis: 
Secretário de Justiça

» Leandro Cruz
Atuação na gestão Temer: 
Ministro do Esporte 

Cargo no governo Ibaneis: 
Secretário de Esporte

» Osnei Okomoto
Atuação na gestão Temer: 
Chefe da Secretaria Nacional de Vigilância em Saúde (SVS)

Cargo no governo Ibaneis: 
Secretário de Saúde

» Sarney Filho 
Atuação na gestão Temer: 
Ministro do Meio Ambiente

Cargo no governo Ibaneis: 
Secretário do Meio Ambiente


Palavra do Especialista


De olho no horizonte

“Há dois fatores fundamentais para a estrutura do governo Ibaneis se assemelhar à de Temer. O primeiro é o encolhimento do MDB como partido, dada a diminuição de parlamentares e governadores eleitos. A fim de mantê-lo vivo, é preciso acomodar indicações para que as lideranças continuem a participar da tomada de decisões e exerçam influência. O segundo elemento vem da necessidade de Ibaneis de unir pessoas que tenham experiência na esfera federal e conheçam os envolvidos no processo para captar recursos e viabilizar o cumprimento de promessas, algumas aparentemente inviáveis por ora. Jair Bolsonaro deve manter alguns quadros de Temer. Por isso, o governador eleito tem realizado esse grande alinhamento. Ao fazer tudo isso, ele mostra estar de olho no horizonte. Para conquistar cargos mais altos, é preciso galgar espaço no partido e deter uma avaliação favorável do eleitorado brasiliense.”

Creomar de Souza, analista político e professor na Universidade Católica de Brasília (UCB)  


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