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Correio Braziliense

Entidade precisa de voluntários para ajudar na acolhida a venezuelanos

A história de refugiados acolhidos pela Cáritas Brasileira é destaque na série Rede do Amor


postado em 05/12/2018 06:00 / atualizado em 04/12/2018 22:29

Caritas Brasileira, faz um trabalho com refugiados de 17 países diferentes, dando aula de português e cultura brasileira.(foto: Ana Rayssa/Esp. CB/D.A Press)
Caritas Brasileira, faz um trabalho com refugiados de 17 países diferentes, dando aula de português e cultura brasileira. (foto: Ana Rayssa/Esp. CB/D.A Press)

O Brasil precisa desenvolver uma cultura de solidariedade. Essa é a avaliação da estudante Mariana Alves, 24 anos. E do assunto ela entende: são mais de cinco anos de atuação em diferentes entidades sociais. Trajetória importante para lembrar no Dia Internacional do Voluntariado, comemorado hoje.

“O que eu percebo é que aqui as pessoas querem fazer caridade, não solidariedade”, avalia Mariana. Ela se formou, há cerca de dois anos, em relações internacionais pela Universidade de Brasília (UnB), e de lá foi direto para o mestrado na Dinamarca, onde estudou a temática do refúgio. Agora, está de volta e se tornou voluntária da Cáritas Brasileira, trabalhando com refugiados e imigrantes. Essa não é a primeira experiência dela na área. A jovem já atuou na Palestina, na França e no México.

Aqui, faz um pouco de tudo, mas o que mais gosta é de cuidar das crianças enquanto os pais têm aulas de português e cultura brasileira na nova Casa de Direitos, inaugurada há menos de um mês no Conic. Lá, cerca de 40 pessoas de 17 nacionalidades se encontram para as aulas, que são uma parceria com a UnB. Tem gente de Síria, Líbano, Moçambique, Haiti, Togo, Camarões, Senegal, Peru, México, Rússia, Gana, mas a maioria veio da Venezuela.

Há cerca de um mês, Brasília tem recebido imigrantes e refugiados do país. Um deles é o fotógrafo Alfredo Pérez, 55, que frequenta as aulas. O objetivo é melhorar o português que já fala e conseguir um trabalho aqui. Ele está há cinco meses e meio na cidade e até trabalhou fazendo fotos em festas de aniversário, mas quer ir mais longe.

“Minha família já morava aqui há algum tempo. Eu me aposentei e vim também. Apesar de viver na Venezuela, não conseguia mais comprar os remédios de que preciso para pressão, então vim para cá. Preciso cuidar da minha saúde”, explica. A segurança também é um problema na terra natal. No começo do ano, ele teve um prejuízo de aproximadamente US$ 4 mil, quando um ladrão levou suas duas câmeras. “Eu estava trabalhando, fazendo fotos na rua, quando me levaram tudo.”

As aulas a que ele e os colegas assistem são gratuitas e a Cáritas fornece vale-transporte a todos. Segundo Marcelo Lemos, assessor de emergências para voluntariado, a partir do ano que vem, os imigrantes também terão aulas de empreendedorismo, economia e direitos básicos. “A Casa de Direitos é como o guarda-chuva que nos dá condições de oferecer diversas oportunidades, como capacitações, e traz a possibilidade de formar voluntários”, descreve.

A ajuda é mais do que bem-vinda para a instituição. Na próxima semana, eles farão uma chamada na esperança de conseguir, no mínimo, 50 pessoas para trabalhar em vários setores. A necessidade mais urgente é em São Sebastião, onde 17 residências para abrigar famílias de venezuelanos foram alugadas. Cerca de 50 já estão assentados e a expectativa é de que mais 40 cheguem nas próximas semanas.

Todos vêm de Boa Vista, fronteira com a Venezuela. O braço da Cáritas na cidade e uma equipe da Organização das Nações Unidas (ONU) selecionam os refugiados que irão para cada uma das cidades escolhidas: Brasília, Florianópolis, Curitiba, São Paulo, Porto Velho e Recife.

No DF, as doações chegam todos os dias. Roupas, calçados, alimentos e móveis são separados e distribuídos em um galpão, mas faltam braços para ajudar a fazer a triagem do que pode ser aproveitado e quem fará melhor uso de cada objeto.

A educadora social da organização Hildete Souza acompanha de perto os trabalhos. “O projeto garante o básico: camas, filtro, fogão e geladeira. Todo o resto é fruto de doações”, explica. Ela está desde outubro lidando com os refugiados e afirma que o trabalho é gratificante. “Já tive experiência em outros países e sempre fui muito bem acolhida. Isso me motiva a fazer o mesmo aqui”, relata.

Mariana Alves atua como voluntária há mais de cinco anos. Além do Brasil, esteve na Palestina, na França e no México(foto: Ana Rayssa/Esp. CB/D.A Press)
Mariana Alves atua como voluntária há mais de cinco anos. Além do Brasil, esteve na Palestina, na França e no México (foto: Ana Rayssa/Esp. CB/D.A Press)


Esperança e sonhos


Em uma das casas alugadas, três famílias compartilham o dia a dia. Eles chegaram na última sexta-feira e esperam melhorar de vida nos próximos três meses. Esse é o prazo que a Cáritas dá, inicialmente, para que os venezuelanos consigam emprego e possam se sustentar. Caso não consigam, eles avaliam a situação e oferecem o apoio necessário. A própria organização faz a ponte para conseguir empregos que se encaixem no perfil de cada um.

Mas a maioria não quer perder tempo. Logo que chegou, um grupo de cinco pessoas peregrinou a pé pela cidade, entregando currículos em várias lojas. Brayans Gonzales, 21, pai de dois meninos, de 4 e de 1 ano, passou cinco horas caminhando de São Sebastião até o centro de Brasília. No país de origem, ele trabalhava como técnico elétrico e mecânico, com experiência, sobretudo, em indústrias. “As pessoas foram muito amáveis, perguntavam de onde éramos, queriam saber nossa história. Uma senhora disse que ia distribuir nosso currículo por aí para ajudar”, comenta.

E deu resultado. No mesmo dia, um restaurante no Lago Sul contratou uma das mulheres do grupo. A mulher de Brayans, Rossmar Carmón, 20, está grávida de 5 meses, mas não fez pré-natal. As consultas médicas são um desafio para todos os refugiados, algo que a Cáritas tem tentado resolver.

Ela não é a única que precisa da assistência. O pequeno Dyland Roa, 4, filho de Luixana Peralta, 26, tem crises de epilepsia e os pais já não conseguem os medicamentos há muito tempo. Esse foi um dos motivos que os fez deixar a Venezuela, onde não encontravam comida nem médicos. Eles também moram na casa alugada pela Cáritas, com o marido de Luixana, Abrahan Roa, 25.

Na Venezuela, o casal era militar, mas abdicou do trabalho para atravessar a fronteira. “Vendemos a casa e viemos com esperanças e sonhos, mas aqui não conseguimos trabalho.” Em Boa Vista, a família dormia na rodoviária, mas todas as manhãs era retirada pela polícia. Luixana, enfermeira, só conseguiu um trabalho temporário lavando roupas, mas não foi paga. “Agora nós queremos trabalhar para conseguir melhores condições e poder trazer minha mãe e minha filha mais velha para cá”, diz.

Estar junto dos parentes é o que a maioria quer. Apenas recentemente a família Medina conseguiu se reencontrar. Isidro Medina, 46, saiu da Venezuela e morou por cerca de um mês em Boa Vista, sozinho, antes de a esposa, Mariluz Piñero, 40, e os dois filhos, de 10 e 12 anos, se juntarem a ele. Ele está ansioso para ser contratado em Brasília. No país de origem, fez limpeza urbana, foi pedreiro, segurança, ajudante de construção, de carpintaria, trabalhou em mercados, fazendas e granjas. “Meu trabalho preferido era com limpeza urbana, nos caminhões, mas eu trabalho com o que vier. Costumo dizer que o que um não sabe, aprende”, comenta.

A maioria sente saudade dos amigos, das cidades onde moravam e das comidas típicas. Com os olhos brilhando, eles lembram do sabor das arepas, espécie de pão feito de milho, tradicional em todas as refeições, que guardam a memória de casa.


Como ajudar

Na próxima semana, a Cáritas abre chamado para voluntários por meio do site caritas.org.br. Os interessados deverão fazer cadastro e participar de uma reunião marcada pela organização. Informações pelo telefone (61) 3521-0350.

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