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Correio Braziliense

Fundação ampara portadores de HIV e dependentes químicos no Recanto

De acordo com o último boletim epidemiológico divulgado pelo Ministério da Saúde, em 2017, cerca de 731 mil brasileiros estavam diagnosticados com o vírus HIV


postado em 11/12/2018 06:00

(foto: Vinicius Cardoso Vieira/Esp.CB/D.A Press)
(foto: Vinicius Cardoso Vieira/Esp.CB/D.A Press)


“Eu achava que ia para o caixão. Usava muitas drogas e estava com a minha família pedindo socorro.” Esse é o depoimento de um portador do vírus da Aids que vivenciou momentos de agonia, fraqueza e desespero antes de encontrar abrigo na Fundação Assistencial Lucas Evangelista (Fale) há 17 anos, onde mora até hoje.

O homem de 43 anos, que não quis se identificar, descobriu que era soropositivo com pouco mais de 20 anos. Depois de ser acolhido com a mulher e os cinco filhos, começou o tratamento e abandonou as drogas. Ele é uma das 36,9 milhões de pessoas no mundo portadoras do HIV, segundo dados da Organização das Nações Unidas (ONU). Apenas no ano passado, 1,8 milhão de pessoas foram infectadas com o vírus.

A Fale foi fundada em 1981, em Uberlândia (MG), por Jussara Meguerian. “Eu passei um ano em que todas as noites sonhava com um projeto assim. Um dia, fui a uma festa de aniversário de um rapaz soropositivo e vi todo o preconceito que ele sofria. Então o convidei para morar comigo”, lembra. Com o tempo, mais e mais pessoas pediram ajuda e ela decidiu dar início ao projeto a que se dedicada integralmente.

Anos mais tarde, em 1995, ela e o marido se mudaram para Brasília e trouxeram o projeto. Cerca de 160 pessoas moram no terreno de 100 mil metros quadrados no Núcleo Rural Vargem da Benção, no Recanto das Emas. Dessas, 45 são crianças (três delas portadoras do vírus HIV). No terreno, doado pelo governo, 40 casas foram erguidas para famílias e pessoas solteiras. Para se manter, a fundação sobrevive unicamente de doações. Todas as pessoas que procuram a Fale estão em situação de vulnerabilidade social e, na maioria dos casos, abandonadas pela família.

O atendimento ocorria em apenas uma casa. Com as doações, as próprias pessoas atendidas ergueram outros imóveis, o que ocorre até hoje. Também são os moradores que cuidam da limpeza, da organização e das refeições. “As pessoas ficam impressionadas, porque é um trabalho sério e de amor. É como se fosse uma grande família, e quero que continue sendo assim”, afirma Jussara. “Muitos chegaram aqui falando que iam morrer, mas descobriram que a vida continua. Vale a pena viver”, conclui.


Superação


Foi a vontade de viver que fez Gilberto Xavier, 66, procurar a ajuda de Jussara há 22 anos. Pai de 10 filhos, ele nasceu no Rio Grande do Norte e percorreu o Brasil. Foi preso algumas vezes, usou várias drogas. “Na cadeia, conheci uma mulher que perguntou se eu queria ser internado, e eu concordei. É um milagre eu estar aqui hoje.” Com a confiança que foi ganhando, passou a ser um dos coordenadores da Fale.

As doações, no entanto têm sido poucas. Na dispensa, falta leite, café, açúcar, extrato de tomate e verduras. O gás de cozinha para preparar as refeições dura apenas uma semana. Para eles, cada doação é bem-vinda. “A gente mata um leão por dia. Não é fácil manter esse monte de gente, mas temos tido ajuda”, comenta Gilberto. E eles se movimentam para arrecadar as doações. Até um caminhão já conseguiram e usam para buscar móveis ou objetos grandes quando o doador não pode levar até o local.


Subnotificação

De acordo com o último boletim epidemiológico divulgado pelo Ministério da Saúde, em 2017, cerca de 731 mil brasileiros estavam diagnosticados com o vírus HIV, mas a estimativa é de que o número seja maior: 866 mil pessoas.


Como doar

Para fazer uma doação à instituição, basta ligar no telefone 3331-3556 e falar com os coordenadores da Fale


Três perguntas para

Werciley Júnior, 
infectologista e chefe da Comissão de Controle de Infecção do Hospital Santa Lúcia

Como a Aids se manifesta na pessoa infectada?

Existem duas fases: aguda e crônica. Duas semanas depois da relação sexual desprotegida e do contato com o vírus, acontece a replicação no corpo, causando uma sensação de gripe: febre, calafrios e gânglios no corpo. Depois, a pessoa pode ficar alguns anos sem apresentar sintomas. Na fase crônica, tem falta de ar, lesões cutâneas, e pode evoluir para casos graves. Quanto maior a quantidade de vírus se replicando, menos células de defesa. A gente não cura, a gente neutraliza a multiplicação e permite a recuperação da imunidade.


Quais medicamentos as pessoas infectadas precisam tomar? 

Há um hall de medicações. Hoje, são três drogas que podem estar em um ou três comprimidos ao mesmo tempo, dependendo de cada caso. Nós vemos o perfil do paciente e escolhemos o melhor. O intuito do tratamento é negativar a carga viral e aumentar a defesa. Todos os remédios são gratuitos e fornecidos pelo Ministério da Saúde.

É possível levar uma vida normal mesmo com o vírus?

A ideia é fazer a pessoa não ter Aids: recuperar defesa e ficar como portador do HIV indetectável, sem o vírus em multiplicação e com controle da transmissibilidade. Alguns trabalhos mostram que a expectativa de vida de uma pessoa com HIV hoje está se assemelhando à de quem não tem a doença. Para quem toma a medicação corretamente, a chance de transmissão é de quase zero.
 
 

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