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Correio Braziliense

Crônica da Cidade: 'As posses que vi'


postado em 30/12/2018 08:00 / atualizado em 29/12/2018 21:21

Vista aérea da posse do presidente da República José Sarney, na Esplanada dos Ministérios(foto: Gilberto Alves/CB/D.A Press)
Vista aérea da posse do presidente da República José Sarney, na Esplanada dos Ministérios (foto: Gilberto Alves/CB/D.A Press)
Nos meus 50 anos de Brasília, vi muitas posses se realizarem. O que mais me encanta nelas é a diversidade... de pessoas. A cada quatro anos — às vezes, os protagonistas se repetem, no caso de serem reeleitos —, ouve-se o mesmo comentário, sempre na bancada da imprensa: “Eles passam, nós ficamos”. Para ser mais poético, poderíamos dizer “eu passarinho”, como o bardo Mário Quintana.

Quando desembarquei na cidade, em março de 1968, já tinha passado a posse. Naquela época, antes de ser promulgada a Constituição Cidadã, a assunção ao poder se dava a 15 de março. Governava o país o Marechal Arthur da Costa e Silva, segundo presidente imposto pela Revolução chamada Redentora. Bonachão, o Costa, como era chamado pelos íntimos, gostava de prosa e festa. Uma vez, numa recepção no Itamaraty oferecida a um colega sul-americano ele estava muito à vontade conversando com o visitante, tendo um copo de uísque na mão. Quando veio um diplomata cerimonioso e lhe disse alguma coisa ao pé do ouvido. Em seguida, eu ouvi a bronca presidencial: “Sempre que eu estou gostando de alguma coisa, vocês vêm me dizer que é hora de ir embora”.

Da posse do presidente Emilio Garrastazú Médici tenho uma linda lembrança. Naquela ocasião, houve um show maravilhoso de Elizeth Cardoso no Itamaraty. Vestida de musseline vermelha, a Divina encerrou a apresentação cantando Apelo. A seguir, num gesto tão romântico quanto a letra da última canção, a Elizeth passou suavemente a orquídea que segurava na face do chanceler Mario Gibson Barbosa, que a convidou para dançar. Na hora da valsa, eu dancei com outro Mário, o Garófalo, porque Lucia não sabia valsar. Saudades dos dois!

Na do general Ernesto Geisel, trabalhei muito todos os dias que a antecederam e, na recepção noturna, merecia uma pausa para comer e beber bem.

Nada se compara em termos de frenesei e emoção à posse de Tancredo Neves, que acabou sendo a de José Sarney. Pela manhã, Sarney iniciou discurso no Palácio do Planalto dizendo: “Estou com os olhos de ontem”, “eu também”, repeti baixinho. Ninguém havia dormido naquela louca noite da Nova República, que nasceu quase agonizando com o principal fiador hospitalizado. Seguiu-se um dia cheio e eu deixei o Itamaraty pouco depois das 19h para voltar em meia hora, de banho tomado, maquiada e vestido longo.

Marisa Gibson, hoje colunista política no Diário de Pernambuco, cobria política externa pela EBN e nos despedimos com um “até mais tarde”. Mais de cinco mil pessoas estiveram na recepção ocorrida em todos os andares do Palácio dos Arcos e jardins de Burle Marx. Encontrei todo o mundo na festa, menos Marisa. Naquele ano da graça de 1985, não havia ainda celular e nós duas passamos a noite nos procurando.

Depois disso, veio a posse de Fernando Collor, substituído pelo vice Itamar Franco, que deu lugar, nas urnas, a Fernando Henrique Cardoso. Na de FHC, havia mais de 10 paulistanos por metro quadrado na recepção do Itamaraty. Comigo foi a colunista Sophia Wainer e minha pauta era o tititi político, enquanto a dela era o social.

Como eu tinha bom conhecimento na casa, consegui logo uma mesa bem situada que cedi ao amigo João Carlos Di Genio para acomodar Rui Mesquita, dono de O Estado de São Paulo. Sophia estremeceu lembrando a histórica inimizade. Para o irmão dela, Samuel Wainer, amigo e intérprete do governo de Getúlio Vargas no passado, sobravam petardos do jornalão dos Mesquita. Mas, naquela noite, tantos anos depois das brigas, Rui Mesquita e Sophia Wainer selaram a paz. Esperamos que a posse de Bolsonaro também propicie gestos como esse.

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