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Correio Braziliense

De protestos a missas: relembre outros momentos que lotaram a Esplanada

Palco da posse presidencial, a Esplanada dos Ministérios reúne multidões desde o início de Brasília. Confira alguns dos principais eventos que marcaram a história da capital federal e lotaram o centro político do país


postado em 31/12/2018 15:36 / atualizado em 01/01/2019 10:18

Em 1976, milhares de pessoas se reuniram na Esplanada para se despedir do ex-presidente Juscelino Kubitschek(foto: Arquivo CB/D.A Press)
Em 1976, milhares de pessoas se reuniram na Esplanada para se despedir do ex-presidente Juscelino Kubitschek (foto: Arquivo CB/D.A Press)
Centro da capital do país e palco das cerimônias de posse dos presidentes da República, a Esplanada dos Ministérios será o foco dos holofotes nesta terça-feira (1º/1). A estimativa dos órgãos de segurança pública é de que a Praça dos Três Poderes concentrará entre 250 mil e 500 mil pessoas. A partir das 15h, o público poderá acompanhar, no local, a transmissão da faixa presidencial de Michel Temer (MDB) a Jair Bolsonaro (PSL).

Caso a expectativa se confirme, este será um dos eventos com maior número de público na Esplanada. No entanto, esta não é a primeira vez que um evento no local concentra um grande número de espectadores. Entre os acontecimentos que bateram recordes estão a visita do Papa João Paulo II, em 1980; o desfile da Seleção Brasileira após o tetracampeonato, em 1994; e o velório de Juscelino Kubitschek, em 1976, que chegou a reunir 150 mil pessoas. 

Confira abaixo os principais eventos que marcaram a história da capital federal e lotaram o centro de Brasília:

Funeral de Juscelino Kubitschek (agosto de 1976)

Ver galeria . 15 Fotos Arquivo CB/D.A Press
(foto: Arquivo CB/D.A Press )
 
O enterro do ex-presidente da República Juscelino Kubitschek ocorreu apenas duas semanas após a morte do governante. Mais de 300 mil pessoas estiveram na Esplanada dos Ministérios para acompanhar o cortejo fúnebre de JK, que morreu vítima de um acidente de carro. A manchete do Correio de 23 de agosto de 1976 estampava, em letras maiúsculas, a frase "Morre JK". "A vida do construtor de Brasília encontrou seu fim na Rio—São Paulo", completava.

A capital federal parou para lamentar a morte do fundador. O velório ocorreu na Catedral Metropolitana. Em seguida, uma multidão acompanhou o cortejo fúnebre, que seguiu pela W3 Sul até o cemitério Campo da Esperança. O corpo de Juscelino Kubitschek permaneceu enterrado no local até 1981, antes de seguir para o Memorial JK. O séquito chegou ao cemitério por volta da meia-noite. O político foi sepultado em um túmulo construído com mármore branco de sobras da Catedral de Brasília e projetado por Oscar Niemeyer. A romaria não terminou após o enterro. No dia seguinte, mais de 20 mil pessoas visitaram o túmulo de JK. 

Visita do papa João Paulo II (junho e julho de 1980)

Ver galeria . 9 Fotos Sérgio Marques/CB/D.A Press
(foto: Sérgio Marques/CB/D.A Press )
 
 
Escolhido papa em 1978, João Paulo II visitou o Brasil pela primeira vez dois anos depois. Ele chegou a Brasília em 30 de junho e, assim que pisou em solo candango, ajoelhou-se e beijou o chão, saudando a terra recém-conhecida. "Não foi sem grande e profunda emoção que beijei há pouco o bom e generoso solo brasileiro. (...) Acabo de realizá-lo com o calor e a espontaneidade de algo que se fez pela primeira vez, e portanto a comoção da primeira vez. Ele queria significar um primeiro e silencioso agradecimento à acolhida que me fez este País, a qual, por mil sinais mais ou menos perceptíveis, sinto carregada de fervor e de afeição", discursou o pontífice naquele dia, no Palácio do Planalto.

João Paulo II celebrou uma missa para cerca de 800 mil pessoas na Esplanada dos Ministérios. À época, ele realizava um sonho "longamente acalentado". A presença do pontífice modificou a rotina de jornaleiros e engraxates que trabalhavam na Rodoviária do Plano Piloto e faturaram com a chegada do papa. Em 1º de julho, o papa também visitou o Complexo Penitenciário da Papuda. Antes de se despedir da capital federal, João Paulo II deixou uma mensagem de esperança aos brasilienses e ressaltou a importância da dignidade humana e da fraternidade.

Velório de Tancredo Neves (abril de 1985)

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(foto: Luiz Marques/CB/D.A Press )
 
 
Em 14 de março de 1985, um dia antes de tomar posse como presidente da República, Tancredo Neves era internado às pressas. Diagnosticado com diverticulite, foi submetido a seis cirurgias, mas não conseguiu reverter o quadro. Morreu 39 dias depois, em 21 de abril, na data do 25º aniversário de Brasília. Para se despedir do presidente eleito, uma multidão tomou conta dos arredores do Palácio do Planalto: cerca de 100 mil pessoas se reuniram para prestigiar a cerimônia em homenagem a Tancredo.

À época, uma das reportagens publicadas pelo Correio destacava: Povo na rua canta, chora e se despede de Tancredo. "Dezenas de milhares de pessoas tomaram as ruas de Brasília para o último adeus ao presidente Tancredo Neves. As quatro horas que a urna funerária levou para chegar ao Palácio do Planalto foram das mais emocionantes que Brasília viveu em seus 25 anos. O Eixo Rodoviário Sul ficou completamente tomado", dizia o texto.

Naquele dia, sempre conduzido por seis cadetes do Exército, Marinha e Aeronáutica, o caixão presidencial desfilou diante das tropas formadas na porta e na rampa do Planalto e, finalmente, entrou no Palácio. No interior do Palácio, Tancredo recebeu uma salva de palmas das autoridades que lotaram o segundo andar. Sem as autoridades, o salão foi aberto ao povo. Dezoito crianças da Escola Classe Rodeador, do setor rural de Brazlândia, foram as primeiras a visitar o espaço. "Tancredo, nós, do campo, continuaremos a semear as tuas ideias e serás imortal", prometia um cartaz nas mãos das crianças.

Renúncia de Fernando Collor (fevereiro a dezembro de 1992)

 
Primeiro presidente da República eleito pelo povo após o fim do regime militar, Fernando Collor de Mello renunciou ao cargo em dezembro de 1992, em meio a um processo de impeachment — o primeiro da história brasileira. As denúncias que levaram ao impedimento do ex-presidente surgiram em fevereiro daquele ano, quando o empresário Pedro Collor, irmão de Fernando Collor, revelou detalhes de uma rede de tráfico de influências no governo. 

Em agosto, milhares de pessoas se reuniram no vão do Museu de Arte de São Paulo (Masp), em São Paulo, para protestar contra Collor. Com as caras pintadas, eles pediram a saída do presidente. A partir de então, começou uma onda de manifestações no país inteiro, composta majoritariamente por jovens com pedidos estampados nos rostos. 

Em setembro, o pedido de impeachment de Collor foi entregue à Câmara dos Deputados, que aprovou a votação histórica que tiraria do poder o primeiro presidente eleito pelo voto direto após a redemocratização. Em frente ao Congresso Nacional, cerca de 100 mil pessoas aguardaram o resultado da contagem dos votos dos deputados. Em 29 de dezembro de 1992, três meses após o pedido de cassação do mandato, Collor renunciou ao poder para não ter os direitos políticos cassados. O Senado Federal também votou a favor do impeachment e tornou o político inelegível para cargos públicos por oito anos.

Marcha dos Sem-Terra (abril de 1997)

 
Durante mais de duas semanas, militantes do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) saíram dos quatro cantos do Brasil e se reuniram em Brasília. Realizada em abril de 1997, a Marcha dos Sem-Terra concentrou mais de 60 mil pessoas de diferentes grupos e segmentos sociais e chegou à Esplanada dos Ministérios para protestos a favor da reforma agrária e contra a falta de vagas no mercado de trabalho. 

O ato público no coração do país ocorreu no dia em que o massacre de Eldorado dos Carajás completou um ano. A tragédia resultou na morte de 19 trabalhadores rurais, assassinados no sul do Pará por policiais militares. Títulos como "Os sem-terra estão chegando" e "Capital do sem-terra" resumiram, no alto das páginas de jornais, o ato organizado que convergiu olhares de brasileiros de todo o país. Uma delas chamou atenção para o fato de que uma cidade construída para abrigar carros tornou-se alvo das indignações daqueles que vieram a pé. 

Desfiles da Seleção Brasileira 

Ver galeria . 11 Fotos Adauto Cruz/CB/D.A Press
(foto: Adauto Cruz/CB/D.A Press )
 
 
As recepções da Seleção Canarinho eram comuns em Brasília desde a conquista do bicampeonato, em 1962, logo no início da capital. Entretanto, em 1994, 500 mil pessoas receberam a seleção tetracampeã na Esplanada. À época, o Correio noticiou: "Do aeroporto ao Palácio do Planalto, um mar de bandeiras verde-amarelas explodiu em cantos e danças na passagem dos três carros do Corpo de Bombeiros que levavam a Seleção." Os vencedores haviam saído do Recife, onde também foram recebidos com festa. Em Brasília, o então presidente, Itamar Franco, condecorou os jogadores com a medalha da Cruz do Mérito Desportivo. 

Acostumados à festa a cada quatro anos, os brasilienses também não perderam a oportunidade de receber a Seleção Brasileira em 1998. Apesar da decepção com a derrota de 3 a 0 contra os franceses, que jogavam em casa, os torcedores não deixaram de comparecer à Esplanada dos Ministérios. Na ocasião, entretanto, o público foi mais tímido em relação aos anos anteriores e contou com cerca de 40 mil pessoas — servidores, em sua maioria. Fogos de artifício e espectadores vestidos de verde-amarelo saíram às ruas para saudar o time e comemorar até mesmo o segundo lugar. 
 
Ver galeria . 13 Fotos Luís Tajes/CB/D.A Press
(foto: Luís Tajes/CB/D.A Press )
 

Em julho de 2002, Brasília havia ultrapassado a marca dos 2 milhões de habitantes. Desse total, ao menos um quarto compareceu à Esplanada para recepcionar os recém-consagrados pentacampeões. Acompanhados desde a saída da Base Aérea até o Palácio do Planalto, os jogadores foram recebidos com gritos, palmas e verde-amarelo nas ruas. Ao invés do tradicional carro dos bombeiros, um trio elétrico com direito a apresentações de Ivete Sangalo e do Olodum. A capital federal recebeu a Seleção Brasileira em ritmo de carnaval e clima de intensa euforia.

Jornadas de Junho de 2013

 
Os gastos com a Copa das Confederações e a aproximação da Copa do Mundo de 2014, no Brasil, fizeram com que uma onda de protestos tomasse conta do país. A indignação ainda se repercutiu diante da falta de investimentos em setores como a saúde e a educação. Os atos tiveram início em São Paulo, com o aumento de R$ 0,20 nas tarifas de ônibus. Após 13 de junho, no entanto, quando a Polícia Militar paulista atacou manifestantes e deixou mais de 150 feridos, os protestos tomaram proporção nacional. Além disso, as reivindicações também aumentaram, tanto que uma das frases que marcou o movimento foi "não é por R$ 0,20".

Em Brasília, o dia marcado pelos protestos foi 17 de junho. Chamada de Marcha do Vinagre, para ironizar a prisão de um repórter durante a cobertura dos protestos na capital paulista por levar o produto na mochila, o movimento tomou conta da Esplanada dos Ministérios, invadiu o espelho d’água e até mesmo a plataforma das cúpulas do Congresso Nacional. Mais de 10 mil pessoas participaram dos protestos, protagonizando um dos maiores protestos populares desde o impeachment do ex-presidente Fernando Collor.

A mobilização começou no início daquela tarde, no Complexo Cultural da República. Para frear o ímpeto dos manifestantes, quase 600 policiais se posicionaram em frente ao Congresso munidos de balas de borracha e gás lacrimogêneo. Apesar do cerco, manifestantes conseguiram driblar a PM e alcançar as cúpulas do Senado e da Câmara. Após negociação, eles desceram a rampa, mas continuaram no gramado, ameaçando invadir o Congresso. O clima de tensão fez com que seguranças do Supremo Tribunal Federal (STF) se posicionassem em frente ao edifício e a Polícia do Exército cercasse o Palácio do Planalto. Até o Palácio do Buriti foi protegido por PMs.

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