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Correio Braziliense

Líder de seita culpa demônio por manter jovem em cárcere privado

A fundadora da Igreja Adventista Remanescente de Laodiceia, acusada de manter jovens seguidores em cárcere privado, afirma que fiéis precisam ficar sob constante vigilância por causa de possessão demoníaca


postado em 09/01/2019 06:00 / atualizado em 09/01/2019 12:02

Templo da igreja está em construção em chácara, onde moram 400 fiéis(foto: Wallace Martins/Esp. CB/D.A Press)
Templo da igreja está em construção em chácara, onde moram 400 fiéis (foto: Wallace Martins/Esp. CB/D.A Press)

“Eu entendi a parte espiritual e me propus a salvar as pessoas de corpo, alma e espírito”. Assim se defende Ana Vindoura Dias da Luz, 65 anos, acusada de manter em cárcere privado por quatro meses uma jovem de 18 anos em casa, no núcleo rural do Gama. O motivo: a garota estaria possuída pelo demônio. “Quando Deus resolveu salvar o homem, teve que enfrentar o pior inimigo, que são os demônios e eles existem. Eles manipulam a cabeça das pessoas para fazer o que querem”, disse Ana ao Correio.

Às margens da DF-290, funciona a Igreja Adventista Remanescente de Laodiceia, fundada por Ana, que não se diz profeta, mas obreira da comunidade. Em 28 de dezembro, ela foi presa pelos agentes da 20ª Delegacia de Polícia (Gama), depois que uma denúncia chegou à Polícia Civil. A vítima do cárcere era uma garota que morava com a comunidade desde os 5 anos, por decisão da mãe. Ana garantiu que a jovem era livre para circular pela chácara, apesar de recorrer à alegação da possessão para manter a garota sem contato com o mundo exterior.

A líder da seita diz que, até 2017, a jovem frequentava um colégio na região de Engenho das Lajes, área rural do Gama, mas que, por conta das crises, no ano passado parou de estudar. No entanto, nenhum laudo médico ou psicológico atestava qualquer doença mental para a jovem. Ana disse ter pensado em chamar um psicólogo para avaliar os membros da comunidade, o que não aconteceu.

Segundo a mãe, a garota sempre demonstrou “problemas de irritação e desobediência” e foi levada a um psicólogo ainda criança. “Chamaram-na de hiperativa. Para eles (psicólogos) é normal essa situação em uma criança”, comentou a mãe, que deu entrevista ao Correio ao lado de outros líderes da seita, na sede da igreja. Ana  diz que doenças não fazem parte do plano de Deus e que, portanto, é “trabalho de demônios”.

Sessões privadas


Na Igreja foi dito que essas criaturas, de tempos em tempos, tomavam o corpo da moça. A mãe disse que a filha “fazia coisas e depois não se lembrava”. Para curá-la, a solução seriam sessões privadas de oração e estudos bíblicos. Foi nessa situação que os policiais encontraram a moça. Os integrantes da igreja afirmaram que ela orava com um presbítero em um quarto trancado para que ninguém interrompesse.

De acordo com Ana Dias, a garota havia tentado partir outras vezes. No começo do ano passado, ela queria ir morar com o pai em São Luís, no Maranhão, e a mãe, alegando que o local era perigoso, não deixou. A obreira diz que outros adolescentes viveram situações semelhantes. “Tem época que está todo mundo bem, mas tem período que arrocha. Aí, você não os deixa sós, porque eles cortam os punhos, o demônio tenta matar, tenta enforcar. É uma guerra tremenda. Como deixar uma pessoa dessas sozinha?”

Trabalho escravo


A história da congregação começou há 10 anos, em Corumbá de Goiás. A princípio, Ana Dias reunia um pequeno grupo para estudos bíblicos. Com mais adeptos, eles passaram a fazer caravanas itinerantes pregando pelo Brasil. Por seis meses, estiveram em Cuiabá (MT), vendendo e distribuindo conteúdo religioso. Nesse período, em 2014, a obreira foi acusada de trabalho escravo e infantil pelo Ministério Público do Trabalho de Mato Grosso.

O juiz José Roberto Gomes, da 4ª Vara do Trabalho de Cuiabá, condenou os réus ao pagamento de R$ 100 mil em indenizações. A defesa recorreu. O processo se encontra junto no Tribunal Superior do Trabalho (TST), sob sigilo. 



Entenda o caso


Isolada do mundo

A Polícia Civil diz que ao menos três mulheres foram mantidas em cárcere privado na chácara onde funciona a Igreja Adventista Remanescente de Laodiceia e moram cerca de 400 fiéis. Duas foram resgatadas pelos pais. Agentes libertaram a terceira, de 18 anos, após a jovem pedir ajuda a amigos.

O resgate ocorreu em 27 de dezembro. Segundo o delegado responsável pelo caso, a vítima era mantida no cativeiro por Ana Dias, líder da igreja. Presa, ela conseguiu a liberdade provisória em uma audiência de custódia e será indiciada pelo crime de cárcere privado.

A jovem pediu ajuda a amigos em 26 de dezembro. Ela pegou o telefone celular de Ana — enquanto a líder dormia — e mandou mensagens de texto a ex-membros da comunidade. A menina tentou se esconder em uma mata, mas foi encontrada pelos membros da seita e levada de volta ao cárcere, de acordo com a investigação.

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