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Correio Braziliense

Área de preservação entre Itapoã e Paranoá é alvo de grilagem

Invasão iniciada em 28 de dezembro atraiu mais de 1,2 mil pessoas a uma área pública no Núcleo Rural Córrego do Bálsamo, unidade de conservação federal. Pastor evangélico é apontado como apoiador do grupo


postado em 10/01/2019 06:00 / atualizado em 10/01/2019 08:39

Homem ergue barraco na invasão que surgiu em área pública, perto do Paranoá: olheiros usam facões e foice (foto: Marcelo Ferreira/CB/D.A Press )
Homem ergue barraco na invasão que surgiu em área pública, perto do Paranoá: olheiros usam facões e foice (foto: Marcelo Ferreira/CB/D.A Press )
 
Ao menos 250 pessoas invadiram uma área pública no Núcleo Rural Córrego do Bálsamo, entre o Itapoã e o Paranoá, no fim do ano passado. Parte do grupo ocupou a unidade de conservação federal em 28 de dezembro, última sexta-feira de 2018. Chegou, limpou parte do terreno, demarcou lotes, ergueu barracos de lona e determinou o espaço de cada um. Um dos incentivadores do movimento, segundo os ocupantes, seria o pastor de uma igreja do Itapoã, que fica às margens da rodovia, do lado inverso à invasão.

Mais gente se mudou para a área no último dia do ano. Desde então, aproximadamente 1,2 mil pessoas engrossam a ocupação ilegal, segundo integrantes do movimento. Placas sinalizam a posse dos barracos com os nomes de quem chegou primeiro. Entre outros, trazem os dizeres “não entre”, “tem dono” e “não mecha” (sic), expostos em frente às demarcações.

Os invasores se articulam para contratar um trator por R$ 2 mil para abrir uma rua e dividir os loteamentos. Enquanto isso, na estrada de terra que dá acesso a invasão, homens se revezam como olheiros, armados com facões e foice. Sentados ou deitados em redes, repassam informação em dois grupos de aplicativo de mensagem eletrônica.

O Correio teve acesso a ambos. O denominado Condomínio Terra Prometida tem 198 participantes e surgiu em 1º de janeiro. O outro recebeu o nome de Amigos do Loteamento e tem 22 integrantes. Por meio dos contatos, ocupantes trocam informação de tudo o que acontece na área, inclusive da presença da reportagem. “O Correio Braziliense está na área”, repassou um homem, em áudio.

Policiais civis estiveram na ocupação ontem e levaram dois para depor (foto: Marcelo Ferreira/CB/D.A Press )
Policiais civis estiveram na ocupação ontem e levaram dois para depor (foto: Marcelo Ferreira/CB/D.A Press )
 
Com discurso alinhado, a maioria nega haver líder. “Cheguei, pedi informação, procurei saber como funcionava, perguntei se podia me instalar e comecei a levantar meu barraco. Queremos uma moradia”, disse um vigilante de 38 anos que se instalou no terreno em 28 de dezembro. “Sou nascido e criado em Brasília, cadastrado na Codhab (Companhia Habitacional do DF) desde 2000 e nunca recebi um lote. Preciso sair do aluguel e a nossa perspectiva é ganhar um lote”, contou o pai de quatro filhos. O mais novo, de 1 ano.

O movimento na ocupação é menor durante a semana. Famílias se revezam na vigília dos lotes, para fazer necessidades básicas, como tomar banho e se alimentar. Por meio de carros de passeio, chegam estacas, arames e lonas. Entre os veículos, Gol, Santana e Citroën Xsara. “Domingo está todo mundo aqui. São quase 1,5 mil pessoas. O problema é que, durante a semana, as pessoas trabalham e não podem ficar aqui”, contou um ambulante de 51 anos.

Ele construiu dois barracos e está prestes a levantar o terceiro. “Fiz um para mim, outro, para a minha ex-mulher, para ela não me perturbar depois, e estou levantando o terceiro para o meu filho. Morava de aluguel. Hoje vivo de favor. Por isso, preciso de uma casa”, alegou. A maior parte dos ocupantes mora no Itapoã, no Paranoá e em chácaras próximas à região. Pagam de R$ 350 a R$ 700 pelo aluguel.
 
Um dos únicos ocupantes que quis se identificar foi o promotor de vendas Manoel Silva dos Santos, 31 anos. Ele se diz representante de parte dos moradores. Contou que a área era um depósito de lixo a céu aberto. “Era um espaço jogado que servia como depósito de entulho. Tomamos conta e loteamos para tentarmos sair do aluguel. A maioria das pessoas está desempregada e não tem condições de pagar R$ 600 de aluguel”, explicou.

Monitoramento

O principal apoiador, no entanto, identificado como pastor Luis, não estava no local. Por um dos grupos de WhatsApp, orientou os ocupantes: “Tem de ter cuidado com os repórteres para saber o que eles querem. Se perguntarem se têm líder, é para dizer que não tem líder aí não”, disse, ao saber que a equipe do Correio estava no local.

E continuou: “Se perguntar por que invadiram, é para dizer que aqui era um lixão, como vocês estão vendo aí, e a população está cansada de ver esse lixão aí. Além da luta pela moradia. Se quiser dar uma entrevista tem que dar uma entrevista coerente para não falar besteira. Se não é melhor nem dar”, reforçou, por áudio.

Em conversa com a reportagem por telefone, contudo, o religioso não se identificou. Negou que fosse representante, disse que “é cada um por si ali” e contou: “Sou invasor como qualquer um. Tenho um lote lá. A invasão começou dia 28 de dezembro e o objetivo é ocupar aquela área para a gente que paga aluguel, para o pessoal que não tem moradia, e acabar com aquele lixão que todo mundo sabe quem joga entulho ali, tanto moradores da Asa Norte, da Asa Sul quanto do Paranoá e dos condomínios”, alegou.
 
O pastor ainda reclamou de os moradores citarem o nome dele. “Não sou responsável. A gente apenas sugeriu organizar aquilo ali para não ser um negócio bagunçado. Não tem liderança. Falam outros nomes também lá. Não é só o meu”, disse, sem comentar sobre outras identidades de supostos apoiadores.
 

Investigação

Na tarde de ontem, agentes da Delegacia Especial de Proteção ao Meio Ambiente e à Ordem Urbanística (Dema) estiveram na ocupação, fizeram fotos e levaram dois homens para prestar depoimento. Investigadores apuram se a ação tem algum vínculo com movimento social e tentam descobrir quem está à frente dele. Eles apuram a relação do pastor e de outro homem.

O Governo do Distrito Federal disse, por meio de nota, que a equipe de monitoramento da antiga Agência de Fiscalização do DF (Agefis) foi acionada para realizar vistoria do local. “Após o levantamento das informações no local será avaliada a estratégia de remoção da invasão”, informou.

Ainda segundo o Executivo, para garantir a segurança dos moradores próximos da ocupação, o 24º Batalhão da Polícia Militar (Lago Norte) monitora a área todos os dias. Em caso de ameaça ou qualquer tipo de intimidação, a corporação orienta a população a acionar uma equipe policial pelo 190.

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