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Correio Braziliense

Mesmo com o fim da crise hídrica, hábitos sustentáveis devem ser mantidos

Seis meses após o fim do racionamento, reservatórios estão com bons índices. Apesar da abundância, é importante a manutenção de hábitos sustentáveis


postado em 11/01/2019 06:00 / atualizado em 11/01/2019 10:14

Maria Lúcia criou uma rede de conscientização e manteve as práticas (foto: Minervino Junior/CB/D.A Press)
Maria Lúcia criou uma rede de conscientização e manteve as práticas (foto: Minervino Junior/CB/D.A Press)

Em junho, os brasilienses comemoraram o fim do racionamento de água implementado no Distrito Federal. Em dezembro, o reservatório do Descoberto atingiu 100% da capacidade e transbordou. Também apresentando alta constante, a barragem de Santa Maria terminou 2018 com 65,7% de ocupação. Mas a abundância de água não representa o fim da necessidade da adoção de práticas de consumo consciente.

Muitos brasilienses mantêm os hábitos adquiridos em tempos de escassez. Moradora de Samambaia, a dona de casa Elione da Silva, 53 anos, por exemplo, aprendeu a captar a chuva e reaproveitar a água da máquina de lavar roupas em práticas cotidianas, como a lavagem de áreas externas e internas da casa. “A água da chuva é limpa e consigo usá-la para diversas atividades no dia a dia. São coisas simples que acabaram incorporadas na minha rotina”, comentou Elione.

As medidas adotadas por Elione também trouxeram um alívio financeiro. “Sempre paguei por volta de R$ 80 nas minhas contas de água. Depois que comecei a ter mais consciência no uso, o valor caiu de forma considerável. Hoje, meu consumo não costuma passar de R$ 60. O custo-benefício vale muito a pena”, ressaltou.

A fotógrafa Maria Lúcia da Silva, 57, nunca havia controlado o uso de água, até o início do racionamento. “Aqui em casa, faltou água duas vezes por semana. Foi um período difícil. Comecei, então, com pequenas atitudes. Quando tomava banho, usava um balde para recolher a o que sobrava. Também comprei uma caixa d’água de 500 litros para recolher a chuva e usar nas tarefas diárias”, contou.

Na rua onde mora, em Taguatinga, Maria Lúcia criou uma rede de conscientização com os vizinhos. “Todo mundo fiscaliza todo mundo. Cada morador se engajou no objetivo de não desperdiçar água. O racionamento, apesar de ter sido um período delicado, nos mostrou a importância de cuidar de um recurso tão importante”, garantiu.
 
Flávio Santos ampliou o sistema de aproveitamento de água da chuva(foto: Luis Nova/Esp. CB/D.A Press)
Flávio Santos ampliou o sistema de aproveitamento de água da chuva (foto: Luis Nova/Esp. CB/D.A Press)
 

Futuro

Nos 513 dias de racionamento, a Companhia de Saneamento Ambiental do DF (Caesb) estima que foram economizados quase 24,2 bilhões de litros de água no DF — quantidade equivalente a cerca de 9,6 mil piscinas olímpicas cheias. O período também culminou na queda do consumo por habitante. Atualmente, segundo a companhia, cada morador de Brasília gasta, em média, 129 litros de água por dia.

Durante a crise hídrica, o advogado Flávio Santos, 39, desembolsou R$ 6 mil para desenvolver um projeto de aproveitamento de água da chuva em casa, no Lago Norte. Hoje, ele armazena 45 mil litros de água. As contas mensais baixaram de R$ 600 para R$ 80. Mesmo com o fim do racionamento, Flávio adicionou caixas d’água ao sistema: antes eram 10, agora são 18, com capacidade de armazenamento entre 1 mil, 2 mil, 3 mil e 5 mil litros. Na seca, a reserva pode durar até dois meses.

Flávio usa o recurso para lavar cômodos da casa, regar plantas e irrigar uma horta de frutas e legumes que construiu no seu quintal. Segundo ele, o sistema nunca será abandonado. “Caso aconteça uma nova crise hídrica, quero estar bem preparado para não sofrer tanto. Cuidar da água virou uma responsabilidade para mim. Antes, ia tudo para os bueiros. Hoje, a regra é não desperdiçar nada”, frisou.
 
A engenheira civil responsável pela obra, Ellen Carvalho, trabalha em uma empresa de construção e saneamento ambiental que oferece soluções de eficiência hídrica. Segundo ela, mesmo com a situação do abastecimento no DF controlada, muitas pessoas ainda buscam adaptar as suas casas para não desperdiçar nada. “Antes do racionamento tínhamos uma relação muito automática com o uso da água. Hoje, somos colaboradores do sistema hídrico, e não apenas usuários. O racionamento serviu para adequarmos o nosso comportamento”, definiu. 
 

Chuvas acima da média enchem barragens

Além das novas obras de captação, o aumento na quantidade de chuvas no Distrito Federal foi um dos fatores que impulsionou o índice positivo nos reservatórios que abastecem a capital. O acumulado de chuvas registrado em 2018 foi o maior dos últimos 18 anos. De acordo com o Instituto Nacional de Meteorologia (Inmet), choveu 1.712 milímetros ao longo do ano. Em 2017, o valor total foi de 1.305 milímetros.

Com o aumento das chuvas desde o ano passado, os reservatórios do DF apresentaram melhora nos índices. Ontem, a Bacia do Descoberto, responsável pelo abastecimento de mais de 70% das regiões administrativas, completou o 15º dia consecutivo com 100% da capacidade total. No mesmo período do ano passado, os medidores da barragem estavam abaixo dos 40%.

O Reservatório de Santa Maria, que atende cerca de 25% das cidades do DF, estava com 66,9% da capacidade total ontem. Em 10 de janeiro de 2018, a bacia estava com 32,3%, menos da metade da medição atual. O índice é menor do que a do Descoberto por conta do tamanho dos dois reservatórios, que impacta na hora da captação da água das chuvas.

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