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Correio Braziliense

Crônica da Cidade: 'Vinte e quatro'

"Como meu nome começa com a letra h, na chamada da escola eu sempre ficava ali pelo meio da lista de alunos, naquela zona perigosa perto do número 24"


postado em 12/01/2019 16:26 / atualizado em 12/01/2019 16:45

(foto: DIPTENDU DUTTA/AFP)
(foto: DIPTENDU DUTTA/AFP)
Todo primeiro dia de aula era um suplício. Eu ia meio calado no banco de trás do Passat verde metálico de minha mãe, fingia um sorriso ao me despedir e caminhava meio aterrorizado até a sala de aula. Diante da porta, suando frio, olhava a lista de alunos até chegar ao meu nome e — já quase derretendo de medo — conferia qual seria meu número de chamada naquele ano. “Vinte e quatro, não. Vinte e quatro, não. Por favor, meu Deus, vinte e quatro, não”, orava mentalmente.

Como meu nome começa com a letra h, eu sempre ficava ali pelo meio da lista de alunos, organizados em ordem alfabética. Enquanto as Anas, as Beatrizes e os Bernardos ficavam invariavelmente no começo, e os Robertos, as Tatianas e os Vinícius iam lá para o fim, o Humberto me posicionava naquela zona perigosa perto do 24, o número que, se calhava de ser o seu, lhe rendia um ano inteiro de tormento.

“Maldito Carinhoso”, eu praguejava, amaldiçoando a novela com Regina Duarte e Cláudio Marzo que estreara no ano em que nasci e havia tornado popular o meu nome. “Meu filho vai se chamar Aarão”, prometia em seguida, determinado a não passar adiante aquela tortura.

Hoje, quando me lembro disso, duas coisas parecem muito surreais. A primeira é que, mesmo sendo colecionador de infortúnios infantis, esse temor específico nunca se materializou. Fui os números 22, 23, 25, mas nunca o 24. A outra é que esse medo começou muito cedo, quando eu sequer entendia direito o significado daquele xingamento dirigido ao longo de um ano inteiro aos garotos que ficavam com o indesejado número.
 

Palavrão 

Foi, muito provavelmente, meu primeiro contato com outro palavrão, que eu levaria ainda mais tempo para entender o significado: homofobia. Sim, é esse o nome do fenômeno que faz com que crianças, que ainda nem amadureceram sexualmente, façam chacota, rejeitem, temam ou sintam raiva de qualquer coisa associada à homossexualidade.

É esse o nome do fenômeno que faz com que deputados distritais recusem um gabinete amplo e com bela vista para o Eixo Monumental só porque é o de número 24, como mostrou minha colega Ana Viriato em matéria publicada neste Correio na última quinta-feira.

A sala acabou ocupada, num gesto político e de afirmação, por Fábio Félix, primeiro representante da comunidade LGBT eleito para a Câmara Legislativa do Distrito Federal. A se julgar pela reação dos nossos representantes diante do gabinete 24 — tão madura quanto a de garotos do 2º ano do ensino fundamental —, Fábio terá muito trabalho. Desejo boa sorte e sucesso a ele.

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