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Correio Braziliense

Corregedoria da PM vai apurar ação de policiais contra jovens na Rodoviária

Vídeos feitos pelas vítimas mostram os militares desferindo socos, empurrões e cotoveladas contra dois rapazes


postado em 15/01/2019 06:00

(foto: Fotos: Reprodução )
(foto: Fotos: Reprodução )
 
A Corregedoria da Polícia Militar do Distrito Federal vai apurar as condutas de policiais acusados de agredirem um grupo de jovens na Rodoviária do Plano Piloto, na madrugada de domingo. Vídeos feitos pelas vítimas mostram os militares desferindo socos, empurrões e cotoveladas contra dois rapazes e usando spray de pimenta para conter a ação de outras pessoas que tentavam impedir as agressões.

O Centro de Comunicação Social da Polícia Militar explicou que uma equipe da corporação foi acionada por passageiros que reclamavam de bagunça e de uso de drogas na área da Rodoviária. A PM alega que o grupo de seis pessoas resistiu à abordagem policial, hostilizando a guarnição e descumprindo as ordens impostas pelos militares. “Mais pessoas se juntaram ao grupo e retiraram os suspeitos da linha de abordagem. Alguns arremessaram objetos e agrediram verbalmente os policiais. Um dos militares ficou ferido na região do rosto”, detalhou o departamento de imprensa da corporação, por meio de nota oficial.

A equipe pediu reforço. Com mais policiais, contiveram o grupo. Dois jovens foram levados para a 5ª Delegacia de Polícia (Área Central). Eles ganharam a liberdade após serem indiciados por desobediência e desacato e assinarem termo circunstanciado. A PM afirmou também que uma quantidade de maconha, não especificada, foi encontrada com um dos rapazes, autuado por uso e porte de drogas.

Outra versão


Um dos jovens levado à delegacia conversou com a reportagem e apresentou uma história diferente da relatada pela Polícia Militar. Segundo a vítima, ele havia chegado à Rodoviária com um grupo de 10 amigos após participar de um evento de hip-hop no Setor Bancário Sul. Ninguém estava com drogas nem havia feito bagunça ou tentado brigar com os policiais, de acordo com ele.

“Cada um de nós ia simplesmente pegar o ônibus para voltar para casa. Quando chegamos à Rodoviária, os policiais me revistaram e me liberaram após verem que eu não estava com nada. Mas, de alguma forma, revoltaram-se quando eu disse que aguardaria o restante do grupo para ir embora. Foi aí que as agressões começaram”, disse o rapaz de 21 anos.

Neste momento, várias pessoas passaram a gravar a ação dos policiais. Em um dos vídeos, o jovem discute com um dos militares e mostra sua indignação pela maneira ostensiva com que estava sendo abordado. Em seguida, ele recebe um forte empurrão do policial. Em outra imagem, o mesmo rapaz aparece sendo imobilizado por três PMs e levando socos e cotoveladas. Um dos oficiais, ao perceber outro jovem filmando a cena, parte para cima dele.

“Nos deram mais socos e tapas na cara e nos algemaram de uma maneira grotesca. Quase quebraram o meu braço. Alguns amigos tentaram impedir que eles nos levassem para a viatura, mas os policiais usaram spray de pimenta para afastá-los”, lembrou a vítima. “Colocaram meu amigo no porta-malas e eu fui no banco de trás, ao lado de um dos policiais. O caminho da Rodoviária até a delegacia foi o pior momento. Levei ainda mais golpes. Um deles deixou o meu nariz torto e sangrando. Meu rosto está cheio de hematomas”, acrescentou o rapaz.


Mulheres


Uma terceira gravação apresenta mulheres desesperadas com a atitude da PM. Duas delas aparecem jogadas no chão, após supostamente serem agredidas pelos policiais. O responsável por gravar a cena quase teve o celular tomado por um dos militares, que queriam impedir as imagens. “Ele puxou o meu cabelo e deu um soco na minha amiga. Também jogaram spray de pimenta no meu rosto e eu fiquei algum tempo sem respirar. Tive medo na hora. Os policiais perderam o controle da situação e se sentiram no poder de nos ferir. Isso é inadmissível”, relatou outra vítima, uma jovem de 20 anos.

Tanto ela quanto o rapaz de 21 anos disseram que a conduta dos militares foi totalmente abusiva e desnecessária. O jovem registrou boletim de ocorrência na 5ª DP contra os policiais, por agressão e abuso de autoridade. A moça também pensa em denunciar os militares. “Não vou me calar. Assim que me recuperar do acontecido, irei à delegacia para registrar um boletim. Minha cabeça ainda dói e estou com arranhões nos braços. Quero que a justiça seja feita”, frisou.


Investigação


A PM garantiu que vai analisar as imagens e investigar possíveis excessos. “Realizamos milhares de abordagens por dia. Esse foi um fato isolado, que não costuma acontecer e será apurado”, comentou o porta-voz da corporação, major Michello Bueno.

Para a professora e socióloga Maria Stela Grossi, do Núcleo de Estudos sobre Violência e Segurança da Universidade de Brasília (UnB), faltou preparo a alguns policiais militares. “É como se a polícia encarasse a população e segmentos dela como inimigos. E quando você lida com um inimigo, existe uma grande tendência ao confronto. Claro que nem todos os policiais são assim, mas eles devem pensar na população como cidadãos. Em vez de a primeira reação ser de confronto, ela deve ser de uma maneira que aproxime os dois lados”, comentou.

"Realizamos milhares de abordagens por dia. Esse foi um fato isolado, que não costuma acontecer e será apurado.”
Major Michello Bueno, porta-voz da PMDF



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