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Correio Braziliense

Polícia segue à procura de suspeitos de matar universitário na Rodoviária

Policiais civis procuram os dois suspeitos de abordar e esfaquear um estudante da UnB na Rodoviária do Plano. Os jovens que estavam com a vítima reclamam do atendimento da PM e de descaso dos funcionários do terminal, que, segundo eles, não ajudaram no socorro


postado em 17/01/2019 06:00 / atualizado em 17/01/2019 10:29

(foto: Arthur Menescal/Esp. CB/D.A Press )
(foto: Arthur Menescal/Esp. CB/D.A Press )


Policiais civis procuravam, até o fim da noite de ontem, pelos dois assassinos do estudante de ciência política da Universidade de Brasília (UnB), morto na Rodoviária do Plano Piloto na madrugada de terça-feira. Eles identificaram a dupla por meio das imagens do sistema de vigilância do terminal, que tem 14 câmeras e um posto da Polícia Militar.

Milton Junio Rodrigues de Souza morreu aos 19 anos, esfaqueado na Plataforma Inferior, por volta das 3h30, quando esperava o ônibus para voltar para casa, no Gama. Ele estava na companhia de dois amigos, com quem havia participado de uma festa no Setor Bancário Sul (SBS). Além das imagens, os investigadores contaram com depoimentos das testemunhas para avançarem nas investigações.

O crime ocorreu na Plataforma B da Rodoviária, onde circulam cerca de 700 mil pessoas diariamente. Dois homens em situação de rua abordaram a vítima e os dois amigos, Ary Martins, 21 anos, e Ícaro Carlos de Sousa, 19, no ponto de embarque do coletivo que os levaria para casa. Segundo os sobreviventes, um dos desconhecidos apareceu repentinamente e pegou o isqueiro que estava com Ícaro. Ao verem que ele estava com um alicate na mão, os rapazes se afastaram, mas um deles teria seguido o trio e o outro morador de rua apareceu com uma faca.

Ary foi atrás de ajuda na unidade da PM da Rodoviária, enquanto Milton e Ícaro seguiram em direção do banheiro, sob uma das escadas rolantes. Mas, antes de entrarem no cômodo, um dos suspeitos deu uma facada no peito de Milton. “O cara nos seguiu e foi para cima do (Milton) Junio, que ainda tentou se defender colocando a mochila na frente”, contou Ícaro ao Correio.

Socorro

Presentes no velório de Milton Junio, ontem, Ícaro e Ary reclamaram da demora para conseguirem socorro no posto da PM na Rodoviária. Segundo os jovens, os funcionários de limpeza e segurança que presenciaram a morte do amigo também não ajudaram a vítima. “Corri e cheguei gritando pedindo por ajuda no posto, mas só tinha um policial por lá e ele demorou a agir. Saiu da sala com toda calma, desligou um ventilador, pegou uma arma e só depois foi tentar ajudar. Quando chegamos, tudo já tinha acontecido. As câmeras mostraram que eram 3h26 quando o Milton foi esfaqueado”, lembrou Ary.

De acordo com Ícaro, as demais pessoas que viram a cena também não fizeram movimentos para ajudar o estudante. “Ninguém fez nada. Eu mesmo tive que ligar para a emergência cinco vezes com uma mão no ferimento e outra no celular”, relatou. Segundo o amigo de Milton Junio, a intenção inicial era aguardar na plataforma do BRT, mas os seguranças impediram a permanência do trio. “Lanchamos e fomos para a escadaria da Rodoviária, porque lá passa muita gente e já tínhamos feito isso outras vezes”, continuou. “O mendigo ficou pedindo o isqueiro e nós entregamos para ele. Tiraram a vida do Milton por nada. Depois de o esfaquearem, deixaram o celular e a carteira de identidade, que estava na capinha, embaixo do corpo dele”, contou Ícaro.

Identificação

Responsável pelo caso, o delegado Gleyson Gomes, chefe da 5ª Delegacia de Polícia (Área Central), afirmou, na tarde de ontem, que nenhum dos dois suspeitos que aparecem nas imagens das câmeras da Rodoviária foram identificados. Questionado sobre a participação de um morador de rua conhecido como Galego, ele garantiu que “se cogitou que seria um morador de rua com um apelido mencionado, mas não chegamos à autoria concreta de ninguém”. Os amigos de Milton, testemunhas oculares, também não reconheceram o suspeito como sendo o autor do crime.

A princípio, os investigadores descartaram a suspeita de latrocínio (roubo com morte), pois nem o celular nem a carteira da vítima foram levados pelos bandidos. Os pertences foram encontrados por policiais, minutos depois ao crime, na Rodoviária, perto do corpo. “Pelas provas colhidas até agora, especialmente as testemunhas, não trabalhamos com essa hipótese. O crime é tratado como homicídio”, explicou Gleyson Gomes. A motivação para o assassinato teria sido a briga pelo isqueiro da vítima.

Bom aluno

A mãe de Milton Junio, a manicure Vera Lúcia de Jesus Rodrigues Souza, 40, chegou ao Distrito Federal na madrugada de ontem. Ela estava na Bahia cuidando do pai doente, quando recebeu a notícia da morte do filho. Recentemente, ela também enfrentou a morte da mãe. Abalada, não conseguiu dar entrevistas. O jovem morava com o pai, o irmão e a mãe no Setor Leste do Gama. No início da manhã de ontem, dezenas de familiares e amigos compareceram à residência da família para prestar condolências.

Milton Junio nasceu e cresceu no Gama. Na adolescência, estudou no Centro de Ensino Fundamental 3 e no Centro Educacional 6 da região administrativa. “Ele era doce, amável e estudioso. Se não estava em casa, estava na escola”, contou a tia dele, a faxineira Patrícia da Conceição Souza, 41. Aos 18 anos, Milton foi aprovado no curso de ciência política da Universidade de Brasília (UnB). A vida acadêmica do rapaz é motivo de orgulho entre os familiares. “A UnB não é qualquer uma!”, ressaltou Patrícia, em lágrimas.

Despedida

Milton Junio foi velado no Cemitério do Gama durante a tarde de ontem. A cerimônia começou por volta das 13h45 e o corpo foi sepultado às 16h30. Dezenas de amigos e familiares se reuniram para se despedir do estudante. O irmão dele, Alan Rodrigues de Souza, 21, não conseguiu conter a emoção e chorou durante todo cortejo. Ele chegou ao lugar com uma bandeira LGBT no pescoço, em homenagem ao irmão, que era militante da causa.

Tias da vítima, Iranilde de Jesus Rodrigues, 36, e Edileusa de Jesus Rodrigues, 38, cobraram segurança. “Não desejamos essa dor a nenhuma outra família. A Justiça precisa ser feita”, lamentou Edileusa. Para a Iranilde, o sobrinho vai deixar saudades. “Não deu tempo para ele mostrar o grande homem que era. A vida dele era estudar e sorrir para todo mundo, sem ofender ninguém e sem deixar alguém triste”, observou a tia.

Colega do Milton Junio na UnB, Victor Hugo de Sousa, 19, lamentou a perda do amigo. “Ele era um menino muito alegre, tratava todos muito bem e tinha um sorriso fácil. O Junio me apadrinhou e me recebeu no início do curso com um abraço. Ganhei um broche que guardo até hoje. Não sei descrever o sentimento e a dor dessa perda. Ele era incapaz de fazer mal para alguém”, contou.

Vizinha do estudante no Gama, a estudante Gabriela dos Santos Rodrigues, 19, fez coro por respostas ao dizer não entender o motivo de terem tirado a vida do rapaz. “Ele tinha toda uma vida pela frente. Fiquei sabendo da morte pela manhã e foi uma tristeza grande. Não podemos dizer que um isqueiro foi o motivo. O sentimento agora é de que se faça justiça pelo crime. A pessoa que fez isso com o Milton tem que ficar presa para o resto da vida”. Com os presentes segurando rosas brancas e vermelhas, o cortejo seguiu para o local do enterro pouco depois das 16h.

Na chegada do corpo ao túmulo, minutos antes do sepultamento, a mãe de Milton Junio se emocionou novamente e se debruçou sobre o caixão do filho. Chorando bastante, ela pediu diversas vezes para o jovem “não ir embora”. “Meu filho, não! Por favor, Junio, volta para a mamãe, meu menino. Me dá uma resposta, Jesus, só o Senhor tem a resposta de terem matado meu filhinho. Vamos para casa. A mamãe vai cuidar de você”, dizia. O irmão do estudante não teve condições de acompanhar o enterro até o fim.

* Estagiária sob supervisão de Renato Alves



(foto: Arthur Menescal/Esp. CB/D.A Press )
(foto: Arthur Menescal/Esp. CB/D.A Press )

"Ninguém fez nada. Eu mesmo tive que ligar para a emergência cinco vezes com uma mão no ferimento e outra no celular”

Ícaro Carlos de Sousa, amigo da vítima e testemunha do crime
 
(foto: Arthur Menescal/Esp. CB/D.A Press )
(foto: Arthur Menescal/Esp. CB/D.A Press )

"Não deu tempo para ele mostrar o grande homem que era. A vida dele era estudar e sorrir para todo mundo, sem ofender ninguém e sem deixar alguém triste”

Iranilde de Jesus Rodrigues, tia de Milton Junio

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