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Correio Braziliense

Atletas diabéticos driblam dificuldades e ganham qualidade de vida

Deixando os obstáculos de lado, atletas com diabetes se reúnem em Brasília para usar o esporte de alta performance como meio de cuidar da saúde e superar as dificuldades para uma boa qualidade de vida


postado em 20/01/2019 08:00 / atualizado em 21/01/2019 08:17

Tulio, Hugo e Fabiano fazem parte do grupo, que compete em corridas e em outras modalidades esportivas(foto: Arthur Menescal/Esp. CB/D.A Press)
Tulio, Hugo e Fabiano fazem parte do grupo, que compete em corridas e em outras modalidades esportivas (foto: Arthur Menescal/Esp. CB/D.A Press)
Ter amigos para curtir os momentos de maior felicidade da vida é algo impagável, mas ter com quem contar na hora de superar uma dificuldade é ainda melhor. E é esse o espírito que move um grupo de atletas diabéticos no Distrito Federal, que passou da fase em que era difícil levantar da cama para um estágio em que participar de provas de triatlo virou uma realidade. “O primeiro passo é sempre o primeiro desafio. Minha meta um dia já foi acordar e sair do quarto, mas, hoje, ela é correr uma maratona de 100km”, conta um dos membros, o administrador Hugo Almeida, 29 anos.

Os esportistas de Brasília se inspiraram em um grupo nacional para começar as atividades na capital, o Diabetes Desportes, que reúne pessoas com diabetes tipo 1 para competirem em corridas e outros esportes, mostrando que a doença não é uma limitação. No DF, três pessoas lideram o grupo: além de Hugo, Tulio Lins, 40, nutricionista e professor universitário, e Fabiano Araújo, 39, administrador. Eles se conheceram depois de participarem de provas como a Volta à Ilha, em Florianópolis, a maior corrida de revezamento da América Latina, com 140km. A partir daí, começaram a treinar e a competir juntos Brasília afora, inclusive em triatlos.

Mas por trás de cada passo de corrida, cada pedalada de bicicleta e cada braçada de nado, os atletas carregam histórias de superação. É o caso de Fabiano, que chegou a temer pela própria vida antes dos exercícios. “Em 2000, eu fui diagnosticado com diabetes, quando estava com 20 anos, e, 10 anos depois, eu estava com 105kg. Tenho 1,70m. Ou seja, eu estava completamente sedentário e obeso. Nesse momento, eu pensei que não ia ver minhas quatro filhas crescerem”, lembra. Mas quem vê o Fabiano hoje com 70 kg pode pensar que ele sempre foi um atleta de alto desempenho, sem imaginar cada degrau que ele teve de subir, de pouco em pouco.

Ao ver que conseguia participar de uma corrida de 10km, ele tentou a de 21km, e também conseguiu. No fim, se viu completando um Ironman, prova de triatlo de aproximadamente 3,8km de natação, 180km de ciclismo e 42km de corrida. Em muitas vezes, ele precisou furar o dedo para medir a glicose no meio das competições. Mas, sempre junto das dificuldades vinham as motivações. “Quem tem uma doença como essa geralmente tem ao lado pessoas muito importantes, que te ajudam em todos os momentos. Eu tive minha família e meus amigos, que até cruzaram a linha de chegada junto comigo uma vez, para mostrar o apoio. E conseguir cumprir esses desafios é um prazer enorme, que não tem como explicar”, emociona-se.

Um puxa o outro

Tulio Lins foi diagnosticado com diabetes aos 8 anos. Desde a infância, ele sempre foi muito ativo, daquelas crianças que fazem escolinha de futebol, judô e basquete. Mas, já adulto, viveu uma fase da vida em que começou a perceber que estava sedentário. “Eu olhava meus amigos que acordavam cedo para correr 21km e pensava ‘eles são malucos!’. Mas, ao mesmo tempo, fui me incentivando com eles. Comecei a correr quando ouvi a história de um colega que completou 10 Ironmans e, quando fui conhecendo outros atletas, inclusive com a mesma doença que eu, vi que eu também era capaz.”

Depois de perceber que era possível superar a doença por meio do esporte e encontrar nele uma paixão, o nutricionista passou a ser referência para quem estava ao seu redor. Ele até criou uma conta no Instagram chamada “Run Type 1 Diabetes”, rede em que são postados vídeos e fotos de competições e de atletas diabéticos do mundo inteiro. A representatividade mostrada ali faz com que as pessoas enxerguem não só as dificuldades de quem convive com a doença, mas também o potencial dessas pessoas. “Tem diabético que escala montanha, pula de paraquedas e faz outras atividades extremas, que muitos não fazem”, conta.

Assim como Tulio, os outros dois amigos também alimentam mídias sociais para dialogar esporte e diabetes. Fabiano tem a conta “Diabetestriathlon” e Hugo a “DM1Atleta”, ambas no Instagram. Nelas, milhares de seguidores acompanham as rotinas de treinos, dicas de saúde e resultados alcançados por eles e outros diabéticos, como uma forma de mostrar e incentivar a superação. “Eu costumo dizer que, se temos uma barreira à nossa frente, podemos subir nela e ver tudo de cima”, ensina Hugo.


Doce desafio

Além das competições que unem grupos de diabéticos, outro pilar para os atletas da capital com a doença é um projeto de extensão da Universidade de Brasília (UnB). O Doce Desafio — diabetes, educação em saúde e atividades físicas orientadas é desenvolvido na Faculdade de Educação Física e tem como meta educar quem foi diagnosticado com diabetes por meio dos exercícios. “Quando a gente começa a se exercitar mais, começar a ter um autoconhecimento muito maior sobre o nosso corpo, o nosso organismo”, explica Tulio, que também é um dos membros do projeto.

Fabiano também já participou de eventos promovidos pelos pesquisadores da UnB e recomenda: “Existem muitos profissionais prontos para nos ajudar a partir do momento que descobrimos a doença. Eu mesmo faço meu acompanhamento todo na rede pública de saúde. Ou seja, os caminhos estão todos à disposição, e a limitação existe só na nossa cabeça”.

Hugo também deixa a sua motivação: “Às vezes, converso com pessoas que dizem que não gostam de atividades físicas, mas existem tantos esportes, que não é possível que não há um só que não seja agradável. Mas o primeiro passo é sempre o primeiro desafio”, finaliza.
 

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