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Correio Braziliense

Apaixonados por fuscas explicam o vínculo sentimental com o carro

Apaixonados pelo veículo icônico contam histórias que viveram com os carros e explicam o vínculo sentimental


postado em 26/01/2019 07:00

(foto: Vinicius Cardoso Vieira/Esp. CB/D.A Press)
(foto: Vinicius Cardoso Vieira/Esp. CB/D.A Press)

“O Fusca foi do meu bisavô, que passou para o meu avô, mas já vai passar pra mim.” A frase do brasiliense Felipe Boccomino, 9 anos, resume bem o amor geracional pelo charmoso e atemporal Fusca. Não podia ser diferente. Um carro que atravessou décadas, uma guerra e fez florescer uma cultura em torno da própria existência, merece respeito e admiração. O segredo parece estar no tempo. É na passagem da chama desse amor que os modelos se mantêm como novos, enquanto as histórias vividas pelos fusqueiros e seus amigos e familiares se multiplicam.

Felipe ama o carro do avô, um modelo de 1975 com motor da geração 1985. Explica que gosta do Fusca pela história que ele guarda, sem perceber, talvez, que essa história também é um pouco dele. Já é tradição acompanhar o avô em eventos de carros antigos nos fins de semana e passear no modelo. Nas saídas, fez amizades com outras crianças, filhas e netas de fusqueiros. “Quando o encontro (de fusqueiros) é nos fins de semana, eu vou com certeza”, diz. E faz planos. “Ainda quero viajar de fusca”, afirma.

É verdade que o modelo 1975 de cor branca, com bagageiro pintado de vermelho no teto combinando com a cor das rodas, bancos de HB20 para viagens mais longas e uma miniatura de Fusca sobre o tampo traseiro tem histórias para contar. O avô de Felipe, o aposentado Galdino Figueiredo Rocha, 67 anos, garante com ternura na voz. A mesma ternura que inspirou no neto o amor pelo veículo. “Ando com cabos e ferramentas no porta-malas para resolver os problemas que aparecem. Quem tem Fusca certamente já ficou no meio da estrada e teve que improvisar para fazer o carro funcionar”, sorri.

O Fusca de Galdino tem até nome: Capãozinho. Diminutivo do apelido do bisavô de Felipe, José Isidro Rocha, também conhecido como Zé Capão. Ele conta que já investiu, em reparos e acessórios, cerca de R$ 25 mil. “Esse carro era do meu pai. Mas meu primeiro carro também foi um Fusca”, recorda. “Meu filho, tio de Felipe, também tem um (Fusca). É um amor que tem que surgir espontaneamente, ou será sempre passageiro”, explica com um trocadilho.

Galdino Figueiredo Rocha, com o neto Felipe: zelo no cuidado com o carro que atravessa gerações(foto: Vinicius Cardoso Vieira/Esp. CB/D.A Press)
Galdino Figueiredo Rocha, com o neto Felipe: zelo no cuidado com o carro que atravessa gerações (foto: Vinicius Cardoso Vieira/Esp. CB/D.A Press)

Definições

Amantes do modelo se debatem para explicar a origem dessa fascinação. Amor inexplicável, genética, herança cultural, paixão igual àquela da primeira namorada são apenas algumas das tentativas dos fusqueiros da capital federal de dizer o indizível. O também aposentado Delmo José dos Santos, 62, vice-presidente do Clube do Fusca, por exemplo, garante que nasceu gostando do modelo. “Quando minha mãe estava grávida de seis meses, fez um ultrassom para ver o sexo do bebê. Eu estava no útero, com um Fusca de brinquedo”, diverte-se.

Delmo conta que o pai teve um Fusca, mas não era um apaixonado. “Era o que tinha na época”, diz. Ainda assim, o modelo conseguiu seduzi-lo. “Depois que ele faleceu, ficou para mim. Mas acabei fazendo negócio na compra de uma casa. O proprietário aceitou o veículo como parte do pagamento”, lembra. A transação ocorreu em 1985. O fusqueiro passou 10 anos sem lidar com o carro. Até que se deparou com um modelo 1968 que estava parado há muitos anos. Era usado como galinheiro.

O aposentado investiu R$ 75 mil no veículo para deixá-lo tinindo. “E lá se vão 23 anos de convivência. É como um ente querido. Viajo de Fusca todo ano. Vou para Águas de Lindoia (SP), onde ocorre o maior encontro de carros antigos do país. Já fui a cidades de Minas Gerais e Goiás”, conta. “O que o fusca tem que provoca essa paixão ninguém sabe explicar. Minha mulher, por exemplo, nunca entrou no meu. E olha que, quando nos conhecemos, eu já tinha Fusca”, revela.

Gustavo da Rocha é mais novo do que o modelo que dirige, um Split Window ano 1952(foto: Vinicius Cardoso Vieira/Esp. CB/D.A Press)
Gustavo da Rocha é mais novo do que o modelo que dirige, um Split Window ano 1952 (foto: Vinicius Cardoso Vieira/Esp. CB/D.A Press)

Direto da Alemanha

Em meados de 1975, em Campo Grande (MS), duas senhoras cujos nomes se perderam para sempre nos anais da história compraram um fusca importado, fabricação alemã, modelo Split Window, ano 1952. A característica mais marcante: o vidro traseiro dividido ao meio. O veículo era usado uma vez por semana, para irem à missa, o que garantiu um bom estado de conservação. Quem conta a história é o atual dono, o engenheiro Gustavo da Costa, 49 — mais novo que o carro, como gosta de destacar.

Gustavo herdou o veículo do pai, que é colecionador de carros antigos. “Ele deu o carro para mim e para o meu irmão quando eu tinha 5 anos. O Fusca chegou a ficar quase 30 anos parado e agora comecei a restaurá-lo. Digo que ele é do meu filho, Antônio, de 4 anos”, conta. O fusqueiro investiu cerca de R$ 30 mil na restauração, mas diz que ainda existem reparos por fazer. “Esse é um modelo mais raro lançado entre outubro de 1952 e março de 1953, quando mudaram para o vidro traseiro oval. O pisca-pisca não é uma luz no farol, mas uma seta que sai da lateral do carro”, detalha, orgulhoso.

Após a entrevista, Galdino, Delmo e Gustavo permaneceram na orla do Lago Paranoá por alguns minutos, em uma conversa animada. Dali saiu a ideia de uma viagem de Fusca para Santa Catarina, em novembro, para mais um encontro de apaixonados pelo veículo. Pegar a estrada em um pequeno comboio. Mas essa já é uma outra história.


O Fusca na história
O Fusca foi pensado pelo engenheiro austríaco Ferdinand Porch a pedido do ditador nazista Adolf Hitler, em 1933. À época, o país se recuperava de uma grave recessão provocada pela retaliação econômica sofrida pela Alemanha após a Primeira Guerra (1914-1918). O veículo, que devia ser um carro popular, saiu do papel. A continuidade da fabricação, porém, foi inviabilizada pelo início da Segunda Guerra Mundial (1939-1945) e a devastação do país.

Com o término da Segunda Guerra e a derrota do governo populista de extrema-direita, a Alemanha foi dividida entre os aliados e a fábrica da Volkswagen ficou em uma região britânica. A ideia do carro era boa e o oficial Ivan Hirst, major do exército da Inglaterra, à frente da VW, retomou a fabricação do veículo em 1945. Hirst viria a se tornar um apaixonado pelo Fusca.

A retomada da produção pelos ingleses se mostrou um acerto. O Fusca foi o carro mais vendido no mundo. No Brasil, o modelo passou a ser importado em 1950. Nove anos depois, começou a ser inteiramente produzido aqui. Em 1974, foram fabricados, no país, 239 mil exemplares, o ano de maior produção do automóvel. As linhas de montagem pararam, porém, em 1996.

Anote
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em Brasília. Há, regularmente, dois encontros mensais de fusqueiros da capital:

» No primeiro sábado do mês, no Estacionamento 8 do Parque da Cidade, a partir de meio-dia.
» No segundo sábado do mês, na Torre de TV, a partir das 9h.

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