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Correio Braziliense

Apesar de promessas do GDF, pacientes não esperam melhora na Saúde

Quem busca atendimento em hospitais, unidades básicas ou de pronto atendimento da rede pública enfrenta um problemas que atravessam gestões no DF. Governo promete resultados em 120 dias, com medidas como a expansão do modelo do Hospital de Base


postado em 27/01/2019 08:00 / atualizado em 27/01/2019 11:17

Terezinha, 83 anos, tem doença crônica no pulmão e já sofreu derrame. A filha Vanila precisou fazer escândalo no Hospital Regional do Gama mais de uma vez pedindo que a idosa fosse atendida (foto: Ed Alves/CB/D.A Press)
Terezinha, 83 anos, tem doença crônica no pulmão e já sofreu derrame. A filha Vanila precisou fazer escândalo no Hospital Regional do Gama mais de uma vez pedindo que a idosa fosse atendida (foto: Ed Alves/CB/D.A Press)

Esperar. Situação comum para muitos dos pacientes que procuram serviços públicos de saúde do Distrito Federal. Ao recorrer a hospitais, unidades básicas de saúde (UBSs) ou de pronto atendimento (UPAs), o brasiliense deve estar preparado para ficar horas ou mesmo dias na fila até ser chamado pelos atendentes. “O jeito é ter paciência, não é mesmo? É a única coisa que nos resta”, constata a autônoma Vanila dos Santos, 45 anos, na porta do Hospital Regional do Gama (HRG), enquanto aguarda o atendimento da mãe, a aposentada Terezinha de Jesus dos Santos, 83.

A idosa, que sofre de uma doença crônica no pulmão, ficou com a vida por um fio após precisar de acompanhamento médico no hospital. “Em 2017, eu a trouxe até o HRG dois dias seguidos, porque ela apresentava sintomas de um derrame cerebral. No primeiro, esperamos 11 horas e ela só foi medicada. No segundo, voltei de manhã, com ela gritando de dores. Fiz um escândalo para que fosse internada. Só atenderam meu pedido à noite. Na madrugada seguinte, ela teve o derrame”, relata.

Terezinha recuperou-se, mas, no ano seguinte, voltou a sofrer com a falta de atendimento. Em junho de 2018, foi diagnosticada com uma grave pneumonia. Ao procurar o HRG, Vanila foi aconselhada a levar a mãe a um posto de saúde do Novo Gama (GO), município a cerca de 15km de onde elas vivem. “Minha mãe foi medicada durante uma semana, até que enfermeiros disseram que a situação dela estava piorando cada vez mais e que ela precisava urgentemente de tratamento hospitalar”, lembra a filha.

Vanila retornou ao HRG e só saiu de lá quando disponibilizaram um leito para que Terezinha fosse internada no setor de pneumologia. “Fiz outro escândalo, porque ninguém queria me ajudar. Foi muito angustiante ver a minha mãe naquela situação. Fiquei tão mal que a minha pressão subiu e tive um infarto. Precisei até procurar um cardiologista”, conta. Terezinha recebeu alta após 14 dias. Periodicamente, volta ao hospital para exames de rotina.

Para Vanila, colocar os pés no HRG é sempre um sofrimento. “Além da demora e do atendimento ruim, existem as limitações de locomoção da minha mãe. Quando estou sozinha, tenho que empurrar a cadeira dela e segurar o botijão de oxigênio, que tem 1 litro e pesa bastante. Não é fácil”, desabafa.

Esse é apenas um dos exemplos do que acontece ao redor do Distrito Federal. Na última semana, a reportagem percorreu quatro hospitais regionais e coletou mais de 10 relatos parecidos, como o da auxiliar de serviços gerais Josenilda Soares, 28, que quase perdeu o filho Gabriel Lucas Soares, 3, após ele ser picado por uma cobra (leia Personagem da notícia). O cenário em cada um dos pontos visitados é quase sempre igual: pacientes estressados, incomodados com a longa espera por atendimento e infelizes com o atual estado da saúde pública de Brasília. Poucos têm esperança de que essa realidade possa mudar.


Investimentos


Assim que assumiu o GDF, Ibaneis Rocha (MDB) afirmou que trataria da saúde de imediato e que zerar as filas seria um dos objetivos principais. Para isso, investiu R$ 153.373.814,78 e aposta na implementação do SOS DF Saúde, projeto que prevê uma série de ações para o setor, como mutirões de cirurgias eletivas e de urgência ou emergência. Desde o início do ano, a nova gestão contabiliza mais de 2,4 mil procedimentos cirúrgicos.

Desde quarta-feira, o Correio tentou conversar com porta-vozes da Secretaria de Saúde, mas, até o fechamento desta edição, ninguém estava disponível. A reportagem questionou a atual situação das filas no sistema público, assim como possíveis soluções para o problema. Em nota, a pasta respondeu que estruturar a Saúde no DF é o principal objetivo: “O projeto SOS DF Saúde vem justamente para sanar as dificuldades encontradas. Será possível contratar profissionais de algumas especialidades, como anestesistas, e comprar materiais médico-hospitalares de forma mais célere”.

Até sexta-feira, 74 pacientes aguardavam a liberação de um dos 264 leitos de Unidades de Tratamento Intensivo (UTI) da rede. “A gestão trabalha na abertura de novos. A expectativa é de que, em breve, 63 sejam contratados”, reforçou a secretaria. Segundo a pasta, ainda não há um número exato de quantas pessoas aguardam atendimento pelo serviço público. “Por meio do complexo regulador, estamos organizando a fila para consultas e cirurgias. Os dados existentes são fragmentados e um mesmo paciente pode estar inserido mais de uma vez na lista de espera”. Quando decretou estado de emergência para a saúde do DF, em 7 de janeiro, Ibaneis afirmou que, apenas na área ortopédica, havia quase 18 mil pessoas aguardando uma operação.

Na última semana, o governador conseguiu a aprovação na Câmara Legislativa da proposta de ampliação do modelo de gestão do Instituto Hospital de Base (IHB) para outras unidades de saúde (leia Para saber mais). O chefe do Buriti estabeleceu como meta o prazo de 120 dias para normalizar o setor na capital federal. “Nós vamos ter um prazo de três a quatro meses para colhermos o resultado do que for implementado e, pois disso, voltaremos a discutir com a Câmara a ampliação do sistema”, afirmou esta semana.

Quem faz parte do corpo de funcionários da Saúde reconhece que o ambiente precisa mudar. “O sistema ficou ‘embrutecido’ ao longo dos anos. Há um desânimo enorme por parte de quem atende, porque o equipamento público e os recursos humanos foram abandonados”, comenta o pediatra Alexandre Barbosa, 47. Há 19 anos como servidor da secretaria, ele passou pelo HRG e pelo Hospital Regional do Paranoá (HRPa). Hoje, o médico trabalha no Centro de Atenção Psicossocial Infantil (Caps Infantil) do Recanto das Emas. “Melhorar a eficiência do sistema é o ponto crucial”, acrescenta.

Apesar dos problemas, o pediatra não perde a vontade de trabalhar no atendimento de crianças autistas. “Tenho a preocupação de fazer com que os pais entendam o que está acontecendo e que eles se juntem a mim para melhorar a situação. Cerca de 70% das pessoas nos procuram apenas para serem ouvidas. Quando não consigo resolver, tento ao menos confortar o paciente. Isso me dá energia para continuar.”
 

Dificuldades recorrentes

 
Paulo César sofreu uma fratura no pé e esperou 12 horas para ser atendido no Hospital Regional de Santa Maria (foto: Ed Alves/CB/D.A Press)
Paulo César sofreu uma fratura no pé e esperou 12 horas para ser atendido no Hospital Regional de Santa Maria (foto: Ed Alves/CB/D.A Press)


Enquanto isso, o sofrimento da população continua. “É uma vergonha e um desrespeito com os cidadãos. Mesmo vendo o nosso sofrimento, quem trabalha aqui parece não se importar conosco”, reclamou o mecânico Paulo César da Silva, 19, no Hospital Regional de Santa Maria (HRSM). Sentado em um banco na porta do hospital, descalço e com um dos pés inchado devido a uma fratura, ele não escondeu a indignação de ter esperado mais de 12 horas até ser consultado. “É difícil depender da saúde pública. Para mim, o que acontece é um descaso”, opinou, após respirar fundo e balançar a cabeça em desaprovação.

Na noite de terça-feira, Paulo César fraturou um osso do pé ao tropeçar em uma mesa. Ele dormiu no HRSM à espera de atendimento. Sem ninguém para levá-lo ao hospital, o paciente foi de ônibus até lá. Para complicar a situação, o jovem não tinha muletas. Quando chegou, cerca de meia hora depois, estava esgotado por só conseguir se locomover pulando. “Não havia ninguém para fazer raio x naquela noite. Mesmo assim, não fui embora. A dor estava terrível, e eu não queria passar pelas mesmas dificuldades de novo”, explica.

Às 10h de quarta-feira, ele conseguiu a radiografia que apontava a lesão no pé. Depois disso, enfrentou nova longa espera e só deixou o hospital quando puseram uma tala na perna dele, naquela tarde. “Até quando será assim? Todo dia alguém sofre aqui. Não consigo aceitar isso”, protesta.

Na visão de Helena Shimizu, professora do Departamento de Enfermagem da Universidade de Brasília (UnB) e especialista em administração hospitalar e de sistemas de saúde, a revolta de Paulo César é válida e deve servir como um instrumento para que o governo encontre soluções para a saúde pública. “O usuário tem de exigir que o serviço funcione bem. Ele é o principal interessado e precisa defender o sistema. Se perdê-lo, a população não terá direito a mais nada”, destaca.

De acordo com a professora, apenas com uma reorganização do setor, seria possível amenizar o tempo de espera observado em muitos hospitais do DF e reduzir as filas. As mudanças, segundo explica Helena, devem otimizar estratégias para a prevenção e a promoção da saúde. “O usuário está solto no sistema. Tem de haver uma rede de cuidado. A atenção básica é uma solução, mas precisa ser fortalecida. Se todas as regiões de saúde do DF tiverem equipes completas e de qualidade, o cidadão passará a confiar nas UBSs e UPAs. Assim, o serviço será mais resolutivo, pois o paciente deixará de ir diretamente aos hospitais”, analisa. 
 

Um guerreiro de três anos 

 
(foto: Ed Alves/CB/D.A Press)
(foto: Ed Alves/CB/D.A Press)
 
 
O fim de 2018 para a família da auxiliar de serviços gerais Josenilda Soares, 28 anos, foi um pesadelo. Em 23 de novembro, o filho dela Gabriel Lucas Soares, 3, foi picado duas vezes no pé por uma cobra jararaca enquanto brincava na porta de casa, em Águas Lindas (GO). De imediato, Josenilda chamou uma ambulância, que levou o menino ao Hospital Regional de Ceilândia (HRC), a quase 30km de onde ela mora. “Foi o momento mais difícil da minha vida. Fiquei completamente desesperada. Pela gravidade do ferimento, pensei que ele seria submetido a uma cirurgia de imediato, mas isso não aconteceu”, relembra.

O garoto ficou cinco dias internado na UTI, recebendo soro. A equipe médica dizia não ser necessária uma cirurgia. No entanto, no quinto dia, a situação piorou e a família foi encaminhada para o Hospital Regional da Asa Norte (Hran). “Lá, meu filho ficou internado mais dois dias. Ninguém tinha coragem de mexer no pé dele. Cinco cirurgiões viraram as costas. Apenas uma semana após as picadas, um médico se prontificou”, diz Josenilda.

Gabriel foi submetido a sete cirurgias: três para retirar a carne apodrecida causada pelas picadas e quatro, para enxerto de pele. “O pé dele foi praticamente reconstruído. Encheu de bolhas, ficou muito inchado e alguns tendões foram rompidos. O médico responsável pelos procedimentos disse que ele não precisaria ter passado por tantas cirurgias se tudo tivesse acontecido mais rápido, pois evitaria que o veneno continuasse reagindo”, detalha a mãe.

Depois de quase dois meses de sofrimento, a criança recebeu alta em 18 de janeiro. “Meu filho nasceu novamente. Ele não vai recuperar toda a mobilidade do pé, mas só de saber que ele não precisou ser amputado, isso é uma vitória”, comemora Josenilda, sorrindo com o filho no colo. Os dois precisarão voltar ao hospital mensalmente para que o garoto seja reavaliado. “Fico triste ao vir para cá (HRC). São duas horas de viagem em um ônibus lotado para esperar um bom tempo até que ele seja atendido. A saúde pública não deveria ser assim. A demora quase custou a vida do meu filho.” 
 
“O usuário tem de exigir que o serviço funcione bem. Ele é o principal interessado e precisa defender o sistema. Se perdê-lo, a população não terá direito a mais nada”
Helena Shimizu, especialista em administração hospitalar e de sistemas de saúde

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