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Correio Braziliense

Crônica da Cidade: As lições da lama


postado em 27/01/2019 10:53 / atualizado em 28/01/2019 10:48

(foto: Douglas Magno/AFP)
(foto: Douglas Magno/AFP)
 
Tentei falar sobre outro tema mais ameno, mas a lama da tragédia de Brumadinho me atropelou. No momento em que escrevo, morreram nove pessoas e mais de 300 estão desaparecidas, possivelmente soterradas pela avalanche de rejeitos da mineração, depois do rompimento da barragem da Mina do Córrego do Feijão.

A catástrofe dói ainda mais porque é uma repetição em série de outra, em um município de Mariana, em 2015, o maior desastre ambiental com barragens ocorrido no mundo. O mar de lama atingiu 650 quilômetros de Minas Gerais e Espírito Santo, matou 19 pessoas e desalojou 300 famílias.

No entanto, o cálculo dos ambientalistas é de que cerca de 500 mil pessoas teriam sido afetadas, de alguma maneira, pela hecatombe. A barragem era administrada pela empresa Samarco, operadora de uma parceria entre a britânica Billiton e a Vale.

E o que aconteceu depois da tragédia de Mariana? Um projeto de lei para endurecer a fiscalização das mineradoras foi rejeitado pela Assembleia Legislativa de Minas Gerais. O deputado João Victor (PSDB), relator do projeto, declarou à BBC Brasil que o lobbie das empresas foi muito forte. Disse, ainda, que Minas tem 400 barragens que são verdadeiras bombas-relógios e novos desastres podem ocorrer.

Vinte e duas pessoas e quatro empresas respondem pelo desastre na Justiça, mas no ritmo brasileiro. Em vez de fortalecidos, as leis e os órgãos de monitoramento e fiscalização foram fragilizados. Sem essa evocação dos fatos da primeira tragédia não entenderemos a segunda. É algo de uma irresponsabilidade revoltante.

A nova tragédia de Brumadinho é uma metáfora do Brasil, um país que não tira lições sequer das catástrofes. Errar é humano, mas insistir no erro é sandice. Tudo converge para o culto acrítico dos números. Não importa o interesse público; só importa o sucesso na bolsa de valores.

Estava retornando para casa de táxi quando um carro ultrapassou como um foguete e assustou o motorista que me conduzia. Ele comentou: “Esse cara dirigia a mais de 160km”. Eu disse a ele que todos os valores cultivados no Brasil atual estão envolvidos, de alguma maneira, no desastre de Brumadinho: a impunidade, a falta de cuidado com o outro, a ganância predadora, a incapacidade de aprender com os erros, a ignorância, a deseducação, a destruição das redes institucionais de proteção aos cidadãos, a cegueira ambiental, o culto alienado dos números em detrimento do interesse público.

Estamos soterrados embaixo dos rejeitos dessa lama moral. É óbvio que esses valores nos empurram para a barbárie. Somos todos, em diferentes graus, responsáveis pelo desastre. A questão ambiental tem sido depreciada e ridicularizada. Mas deveria ser abraçada, em primeiro lugar, pelos governantes e pelas empresas.

Ela não tem partido, pertence a todos nós, é uma questão óbvia de sobrevivência. Essa é uma das lições da lama. Não sou consultor de segurança; sou consultor de insegurança. A tragédia da lama brasileira nos convida a uma dura reflexão e revisão de valores.

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