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Correio Braziliense

Conheça histórias de cuidadores que se dedicam a ajudar de modo integral

Ao lado de um idoso ou de uma pessoa com dificuldades de locomoção ou grave problema de saúde, costuma haver um familiar ou um profissional que está ali para dar apoio e carinho integrais e incondicionais


postado em 28/01/2019 06:15

Uma pessoa pode se tornar dependente de outras por diversos motivos, como problemas cardíacos, pulmonares e motores. Para quem tem condições financeiras, enfermeiros ou serviços de home care ajudam, mas, quando não é o caso, os cuidados recaem sobre familiares, que precisam abrir mão do tempo livre em prol da saúde do ente querido. Um trabalho que continua 24 horas por dia e gera vínculo emocional e carinho. Conheça histórias de quem se dedicou ou se dedica a dar ajuda de modo integral a outro.

Saudade que fica

'No dia em que ele se foi, eu estava em casa, quando me ligaram do hospital avisando. Eu fiquei em choque, não sabia o que fazer', conta Ana Beatrix Passos, que fez companhia ao avô antes de ele falecer(foto: Mariana Machado/Esp. CB/D.A Press)
'No dia em que ele se foi, eu estava em casa, quando me ligaram do hospital avisando. Eu fiquei em choque, não sabia o que fazer', conta Ana Beatrix Passos, que fez companhia ao avô antes de ele falecer (foto: Mariana Machado/Esp. CB/D.A Press)


Por um ano e meio, Ana Beatrix Passos, 25 anos, passou todas as tardes na companhia do avô Antônio Passos. Ela lembra que tinha acabado de sair de um trabalho em uma clínica de estética, onde estava insatisfeita, quando o próprio avô pediu que ela fizesse companhia a ele. Por sofrer de enfisema pulmonar, o idoso tinha dificuldade de respirar e raramente saía de casa. Precisava usar uma máquina de oxigênio 24 horas por dia. Uma enfermeira ficava com ele à noite, mas passava o restante do dia praticamente sozinho. A neta, que até então só o visitava de vez em quando, passou a conviver com o avô diariamente.

“Ele estava numa situação muito difícil. Só 10% do pulmão direito funcionava, então era necessário ter alguém ajudando”, afirma. Em setembro do ano passado, no entanto, o quadro de Antônio se agravou e ele precisou ser internado. “Quando chegamos ao hospital, a médica disse que era melhor a gente se preparar. Na hora, eu nem entendi o que ela quis dizer. Só queria que meu avô ficasse bom”, lembra. A internação durou uma semana até o falecimento. “No dia em que ele se foi, eu estava em casa, quando me ligaram do hospital avisando. Eu fiquei em choque, não consegui chorar por horas e não sabia o que fazer”, recorda.

As primeiras semanas após a partida do avô foram as piores. Ela ainda se lembra com tristeza de ver o quarto vazio. “Não procurei grupos de apoio, mas conversei com uma psiquiatra que me passou um remédio para tomar por uma semana”, relata. Apesar de ainda sentir saudades, ela hoje sente gratidão pelos momentos que viveu com Antônio. “Foi um privilégio poder passar esse tempo a mais com ele e fortalecer essa ligação entre vô e neta”, afirma.

Profissão cuidador

Para se tornar cuidador profissional, há três caminhos possíveis: ter um diploma de técnico em enfermagem, graduar-se em enfermagem ou fazer um curso de seis meses específico de cuidador de idoso. É o que explica Ladyane Rodrigues, 26 anos. A técnica de enfermagem atua como cuidadora, e a principal vantagem da formação é poder administrar as medicações dos pacientes. Recentemente, o primeiro paciente dela faleceu. Depois de dois anos cuidando do idoso de 74 anos, ela conta que ainda sente falta da companhia.

“Nessa profissão, a gente cria laços, o que é a parte ruim. Você se apega, tem cuidado e carinho, mas o ciclo da vida tem de continuar”, descreve. Emocionada, ela se lembra de que chegava à casa do idoso às 20h, mas sabia que, duas horas antes, ele já ficava de prontidão, esperando a chegada dela. “Quando dava meu horário de ir embora, eu via que ele ficava triste, então eu adiava ao máximo para poder ficar mais. Era como o avô que eu não tinha”, conta.

'Nessa profissão, a gente cria laços', diz Laydiane Rodrigues, que trabalha na área(foto: Mariana Machado/CB/D.A Press)
'Nessa profissão, a gente cria laços', diz Laydiane Rodrigues, que trabalha na área (foto: Mariana Machado/CB/D.A Press)


O lado de quem apoia

No começo de 2017, Paula Landell, 46 anos, assumiu a tarefa de cuidar da mãe, de 69 anos, diagnosticada com demência cerebral, e do pai, de 70 anos, portador de doença pulmonar obstrutiva crônica (DPOC). Os dois moravam no Rio Grande do Sul e, depois que ambos entraram em crise, a solução foi trazê-los para morar com ela, em Brasília. “Minha mãe estava completamente desorientada e meu pai, perdido, sem saber como agir. Tinham parado de tomar as medicações e voltado a fumar”, relembra. Paula tem duas irmãs, mas o apoio ao casal de idosos acabou vindo apenas dela. “É uma situação natural em todas as famílias. É algo fora da curva quando não acontece. Sempre um filho, irmão, alguém vai cuidar sozinho”, afirma. Paula imaginava que aos poucos a situação voltaria ao normal, mas não foi o que aconteceu.

“Minha mãe chegou a um ponto em que eu não podia mais deixá-la sozinha em casa com segurança. No fim de 2017, tomei a decisão de deixá-la em uma instituição e lá ela está superbem, tem rotina, está mais calma”, diz. Desse modo, o pai passou a ser o foco da atenção. Desde 1º de janeiro, ele está internado em um hospital depois de ter tido complicações após uma cirurgia para retirada de sístole na virilha. Os familiares que moram em Brasília dão apoio quando necessário, mas a maioria dos cuidados vêm de Paula. Antes de ser cuidadora dos pais, dava palestras e cursos na área de hotelaria e governança, mas, agora, não consegue mais.

Amparo

Em busca de ajuda, Paula conheceu o projeto Conte Comigo, criado por Berna Almeida no fim do ano passado. Há pelo menos sete anos, ela lida com portadores de Alzheimer, doença diagnosticada na própria mãe. Berna sentiu na pele a necessidade de assistência para quem é cuidador e criou um instituto com o intuito de apoiar essas pessoas. O projeto funciona totalmente on-line. A ideia é que voluntários se disponibilizem a cuidar do doente quando o familiar não puder porque precisa, por exemplo, ir ao banco. Em outros casos, os participantes ajudam em trabalhos básicos, como dar banho no paciente.

Berna, que mora no Jardim Ingá, cidade no Entorno do Distrito Federal, dedica todos os dias a se deslocar pelas mais variadas regiões administrativas arrecadando doações e ajudantes. “Meu propósito é dar um up no cuidador familiar porque um doente não consegue cuidar do outro”, afirma. Ela explica que quem quer ser voluntário precisa apresentar os documentos de identidade e não pode ter antecedentes criminais. Quando um cuidador precisa de ajuda, entra em contato com ela que, então, encontra pessoas disponíveis no horário solicitado. “Depois que a minha mãe faleceu, em 2012, reparei na luta das pessoas para cuidar de um enfermo e quis ajudar. Vendo tudo o que eu passei, surgiu o desejo de me engajar nessa causa”, afirma.

Um dos cadastrados é o estudante de curso técnico em enfermagem Alessandro Monteiro, 19. Depois de uma palestra em sala de aula dada por Berna, ele se interessou e resolveu participar. Neste ano, tem passado várias noites fazendo companhia ao pai de Paula no hospital. Em outros casos, ajuda a dar banho em idosos ou os leva para caminhar “É muito gratificante. Eu tenho um carinho enorme pelos idosos. Às vezes, fico além do horário marcado batendo papo com eles”, explica.

Como participar do projeto Conte Comigo?
Quem tiver interesse em ser cuidador voluntário pode entrar em contato com Berna Almeida pelo telefone (61) 98678-8678. Pessoas de todo o Brasil podem ajudar. Saiba mais em www.institutobernalmeida.com.br

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