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Correio Braziliense

Mulher assassinada na 310 Norte havia decidido dar fim ao relacionamento

Polícia trata o fogo em um bloco da 310 Norte como assassinato da mulher pelo marido. O casal estava em processo de separação. A vítima, encontrada com marcas de facadas e carbonizada, denunciou o homem pela Lei Maria da Penha em março


postado em 31/01/2019 06:00 / atualizado em 31/01/2019 10:22

O fogo destruiu todo o quarto do casal no apartamento do quarto andar, onde os bombeiros encontraram a mulher morta, queimada e com marcas de facadas pelo corpo(foto: Ana Rayssa/Esp. CB/D.A Press)
O fogo destruiu todo o quarto do casal no apartamento do quarto andar, onde os bombeiros encontraram a mulher morta, queimada e com marcas de facadas pelo corpo (foto: Ana Rayssa/Esp. CB/D.A Press)
Servidora aposentada da Secretaria de Educação do Distrito Federal, Veiguima Martins, 55 anos, havia decidido dar um fim ao relacionamento abusivo ontem. Não conseguiu. Morreu a facadas e depois teve o corpo e a casa incendiados. O marido, José Bandeira e Silva, 80, morreu logo depois, intoxicado. Há a suspeita de que ele matou a mulher, colocou fogo no apartamento com o intuito de simular um incêndio acidental e apagar provas. Mas o homem inalou muita fumaça e não resistiu à intoxicação.

Moradores do Bloco A da 310 Norte acionaram o Corpo de Bombeiros por volta das 4h40, para apagar um incêndio em um imóvel do quarto andar do prédio. Ao entrar no apartamento 401, os militares encontraram o corpo carbonizado de Veiguima no quarto do casal. Na cozinha, estava José, desacordado e com um corte na nuca. Os socorristas o levaram para o pilotis, onde tentaram reanimá-lo com massagem cardíaca, por 50 minutos, sem sucesso. O fogo foi apagado em 20 minutos. O quarto do casal ficou completamente destruído, o que leva os bombeiros a crer que o incêndio começou no cômodo.

Raquel, filha da vítima:
Raquel, filha da vítima: "Ele agredia minha mãe verbal e fisicamente" (foto: Ana Rayssa/Esp. CB/D.A Press)
Logo após chegarem ao edifício, os investigadores suspeitaram de o incêndio ter sido provocado. Eles sabiam de relatos de violência doméstica de José contra Veiguima. Ela registrou ocorrência por ameaça e agressão contra o marido, em março do ano passado. “Naquela ocasião, Veiguima foi à Delegacia Especial de Atendimento à Mulher (Deam). Relatou algo muito semelhante ao que aconteceu aqui hoje (ontem): que ele tinha dito que iria matá-la e, em seguida, se matar também”, comentou o delegado Laércio Rossetto, chefe da 2ª Delegacia de Polícia (Asa Norte).

Apesar de ressaltar que só a perícia concluirá como tudo aconteceu, Rossetto afirmou não ter dúvida de estar diante de um feminicídio: “Esse é mais um evento trágico de violência doméstica contra mulher.” Ainda segundo o delegado, o corpo de José tinha marcas de instrumento cortante na mão, e Veiguima estava “completamente irreconhecível”. No apartamento, o cenário também indicou um ato criminoso, observou o investigador. “É um cenário de catástrofe. Além das marcas de um incêndio completo, há sangue espalhado pelo apartamento. Isso demonstra que houve briga e que eles saíram lesionados.” Veiguima recebeu ao menos cinco facadas.

Marcas de agressão

Peritos da Polícia Civil chegaram ao local do crime por volta das 8h, mas não conseguiram fazer o trabalho por causa da alta temperatura no interior do apartamento 401. No entanto, eles examinaram os corpos das vítimas e identificaram as marcas de agressão na mulher. Os peritos voltam hoje ao imóvel para colher provas. Por meio delas, vão esclarecer, por exemplo, se José tentou fugir, mas acabou desmaiando ao inalar a fumaça, ou se pretendia se matar. A arma usada por ele para golpear a vítima continua no apartamento e deve ser outra prioridade nas buscas. “O que se pode afirmar é que o incêndio foi intencional, já que, ao recolher o corpo da vítima, foram encontrados fósforos e amontoados de tecidos para facilitar a combustão”, garante o delegado.

Casada com José desde 2008, Veiguima começou a relatar aos filhos — frutos do primeiro casamento — situações de abusos e agressões em 2014. “Ele agredia minha mãe verbal e fisicamente. A prendia no apartamento. A gente chegou a ir até a delegacia, mas ela ficou com dó dele por conta da idade e acabou retirando a queixa”, contou a farmacêutica Raquel Martins Fagundes, 38 anos, filha de Veiguima.

Raquel recebeu a notícia do crime pelo irmão e chegou em choque ao Bloco A da 310 Norte. Mãe e filha se viam praticamente todo dia. Veiguima amava o neto, de 12 anos, filho de Raquel. “Ela era uma mulher muito família, que estava sempre com a gente, em um clima muito bom. Mas até disso o marido dela tinha ciúmes. Ele tem dois filhos, com outra mulher, mas nem eles gostam do pai, são distantes”, comentou Raquel.

A mãe saiu de casa três vezes, mas sempre voltava após as pressões psicológicas do marido, segundo Raquel. “Ele tinha problema de bipolaridade e tomava remédio controlado, então, acabava usando isso para fazer com que ela voltasse”, disse. “Ela ficava sempre com pena porque o José era uma pessoa sozinha, não tinha ninguém, e aí ficava com ele. E sempre que ela falava em se separar, ele fazia promessas de melhorar. Mas ele era possessivo, ficava nervoso do nada, tinha crises nervosas e começava as agressões”, emendou Rozilene Martins, 47, irmã da vítima.

Vizinhos também relataram agressões de José a Veiguima. Ela anunciou a familiares que ontem deixaria o apartamento e o marido, definitivamente. Investigadores desconfiam que a mulher tenha comunicado José a sua decisão, o que o teria motivado a matá-la.

Terceiro feminicídio no ano


Veiguima Martins é a terceira vítima de feminicídio no Distrito Federal em 2019. O primeiro assassinato baseado no gênero feminino aconteceu em 5 de janeiro, quando o ajudante de pedreiro Thiago de Souza Joaquim, 33 anos, matou a facadas a companheira, Vanilma Martins dos Santos, 30, na casa em que moravam no Gama. O segundo caso aconteceu no dia 28, na Asa Norte. Ranulfo do Carmo, 72 anos, matou a mulher, Diva Maria Maia, baleada, e atirou três vezes no filho, dentro do apartamento da família, na 316. Ranufo foi preso na quadra 8 do Park Way. Ele está detido por tempo indeterminado.


A vítima


(foto: Facebook/Reprodução)
(foto: Facebook/Reprodução)

Veiguima Martins, 55 anos


» Trabalhava como técnica administrativa da Secretaria de Educação do DF, mas se aposentou depois de uma lesão na coluna.
» Apaixonada pela família, tinha três filhos e cinco netos.
» Costumava ir toda semana a uma chácara da família, em Goiás, para relaxar. A natureza era um ponto de refúgio, e viajar para áreas verdes e abertas era um prazer.
» Morreu com ao menos cinco facadas e carbonizada, no apartamento onde morava com o marido, José Bandeira e Silva, no Bloco A da 310 Norte, na madrugada de ontem.


O acusado


(foto: Facebook/Reprodução)
(foto: Facebook/Reprodução)

José Bandeira e Silva, 80 anos


» Servidor público aposentado.
» Tinha dois filhos e estava em seu terceiro relacionamento.
» Familiares da mulher dele, Veiguima Martins, dizem que José era um homem violento e tinha transtorno bipolar. Ela o denunciou pela Lei Maria da Penha, em março de 2018. José tratava de transtornos psicológicos com remédios.
» Morreu intoxicado pela fumaça do incêndio no apartamento onde morava com a mulher, na madrugada de ontem. Investigadores dizem não ter dúvida de que José esfaqueou Veiguima e ateou fogo no quarto do casal.
  

Pastor acordou os vizinhos

 
Uma das moradoras do Bloco A da 310 Norte ouviu pedidos de socorro de Veiguima Martins durante a madrugada. Os gritos foram seguidos de silêncio, até que o cheiro de fumaça começou a tomar conta dos apartamentos próximos. O relato da testemunha foi colhido pelos investigadores do provável feminicídio ocorrido ontem.

Jorge Tosta, 63, mexia no computador quando começou a perceber que algo estava queimando. Ele percebeu que se tratava do apartamento vizinho ao ver as chamas no reflexo da janela de outra residência. “Eu e o meu filho saímos dando soco na porta de todos os vizinhos, gritando ‘fogo’!’”, contou o pastor evangélico.

Jorge telefonou para os bombeiros e, depois, entrou no apartamento 401, em uma tentativa de resgatar os moradores. “A porta deles estava aberta, então, eu entrei, mas não vi nada, estava tudo escuro por causa da fumaça. E ela era tão densa que caí no chão desmaiado”, lembrou. Quando conseguiu recobrar a consciência, um bombeiro o viu e o salvou. Apesar de ter inalado fumaça, Jorge não precisou ser levado ao hospital.

A maioria dos moradores acordou sem saber o que acontecia: “Fiquei bastante assustado, só deu tempo de pegar o cachorro, o celular e descer. Todo mundo foi para o pilotis do prédio, e, só quando cheguei lá, que comecei a processar as informações, me dar conta do incêndio”, comentou o médico Rodolfo Duarte, 37 anos.

Por volta das 5h, todos os apartamentos estavam vazios. A Defesa Civil foi acionada e, como não identificou danos à estrutura do prédio, liberou a entrada dos moradores, às 11h30. 
 
 

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