Publicidade

Correio Braziliense

Grupo do DF reúne quase 200 pessoas que se dedicam à observação de pássaros

As mais de 700 espécies de aves que voam por Brasília estimulam uma atividade amiga da natureza: a observação de pássaros. No DF, grupo dedicado à prática tem quase 200 membros


postado em 31/01/2019 06:00

Alessya, Rosa, Rodrigo e Marcus participam de encontros periódicos de observação(foto: Ed Alves/CB/D.A Press)
Alessya, Rosa, Rodrigo e Marcus participam de encontros periódicos de observação (foto: Ed Alves/CB/D.A Press)
Ariramba-de-cauda-ruiva, balança-rabo-de-máscara, chupim e neinei. Nomes que fazem pouco sentido para quem nunca ouviu, mas que são parte do colorido dos céus de Brasília. Essas são apenas algumas das mais de 700 espécies de aves encontradas no Distrito Federal, e todas podem ser vistas no Parque Olhos d’Água, na Asa Norte. Com tanta vida piando mesmo no meio da cidade, não é surpresa que a observação de pássaros seja um hobby com tantos admiradores.

Um dos maiores grupos é o Observaves, iniciado há 14 anos. Apesar de ser independente, há uma parceria com o Instituto Brasília Ambiental (Ibram), com o projeto Vamos passarinhar nos parques do DF. O objetivo é estimular a observação de aves por meio de atividades organizadas sempre no último domingo de cada mês.

Observador há cerca de oito anos, o educador ambiental do Ibram Marcus Paredes faz parte do Observaves. Hoje, por volta de 200 pessoas integram o grupo. Algumas moram em outras unidades da Federação ou até fora do país. Ele conta que começou a se aventurar no hobby depois que um acidente o impediu de seguir a carreira de atleta no remo.
 
Observação em parques, como o Olhos d'Água, permite mais proximidade(foto: Ed Alves/CB/D.A Press)
Observação em parques, como o Olhos d'Água, permite mais proximidade (foto: Ed Alves/CB/D.A Press)
 
A paixão pelos amigos de penas rendeu muitas aventuras e ele fala orgulhoso da foto mais difícil que já fez, em Mato Grosso do Sul, em uma ilha no meio do Pantanal. “Eu estava atrás da murucututu, ou coruja-orelhuda-grande. É a maior coruja das Américas e sabia que ia encontrá-la lá. Fomos eu e minha esposa. Como é um animal de hábitos noturnos, saímos um pouco depois do crepúsculo”, descreve. O problema é que animais como a onça-pintada caçam à noite. “Além do medo, havia um monte de mosquitos e pernilongos e era preciso ficar paradinho para conseguir a foto.” Deu certo, e hoje ele guarda com carinho o registro.

Recém-chegada ao time, a biomédica e pedagoga Alessya Verônica de Araújo, 35, garante que a atividade é viciante. “Cheguei há três semanas, mas fotografo aves há pelo menos sete anos. Sempre amei a natureza. Quando consigo uma boa foto é uma sensação incrível, emocionante”, descreve. Alessya usa as redes sociais para divulgar os registros que faz.

E não é preciso dominar a arte da fotografia para ser um observador de pássaros. Munida apenas do próprio celular, Rosa Varella, 58, se aventurou na primeira passarinhada — como são chamados os encontros de observação — há três anos. “Eu gostava de fazer trilhas e caminhadas e acabei conhecendo a atividade. Gostei tanto que hoje sou voluntária do Parque Nacional. Trabalho catalogando e organizando os pesquisadores”, declara.


Terapia

Na luta contra uma depressão há três anos, o fotógrafo Rodrigo Pertoti, 41, encontrou na observação de aves uma verdadeira terapia. “Ou eu gastava dinheiro com remédio e ficava numa cama, ou entrava em contato com a natureza. Uma amiga me levou para a primeira passarinhada no Altiplano Leste e eu mergulhei de cabeça”, relata. Além da atividade em si, ele explica que conheceu muitas pessoas diferentes e fez verdadeiras amizades.

Segundo ele, em áreas urbanas, apesar de não serem encontradas tantas espécies como em matas, é possível se aproximar muito mais, uma vez que os animais estão acostumados à presença humana. “Em parques, por exemplo, é comum que as pessoas façam atividades físicas, mas elas respeitam e não atrapalham as aves”, acredita.

Os encontros normalmente são em grupos de pelo menos quatro pessoas e não há limite de idade. Servidor público do Senado, João Rios, 57, está há mais ou menos oito anos no Observaves e é enfático: ver uma espécie inédita causa a mesma sensação de marcar um gol. Ele fazia trabalhos voluntários com deficientes físicos e decidiu aliar as duas coisas. Passou a levar para as passarinhadas cegos. “Você não precisa de olhos para ‘enxergar’. Quem não vê, escuta o canto, sente a natureza de outra forma”, afirma.

Rota de migração

A observação de pássaros contribui com a preservação da natureza e com o desenvolvimento de pesquisas na área, como explica a mestre e doutora em ecologia pela Universidade de Brasília (UnB) Renata Alquezar. Especialista em aves, ela destaca que tanto em parques como áreas residenciais é possível ver diferentes espécies. “Temos grandes áreas de conservação, como o Parque Nacional e até mesmo a Praça dos Cristais.” Além disso, Brasília faz parte da rota de migração de algumas espécies, como a tesourinha, que passa a maior parte do tempo na Amazônia e vem para o cerrado entre agosto e janeiro. Para quem quer aprender mais sobre os bichos, ela recomenda o site WikiAves, uma enciclopédia de aves brasileira disponível on-line e que conta com mais de 2,67 milhões de registros de 1,8 mil espécies. 

 
Como ser um observador

Não é preciso nenhum tipo de equipamento ou conhecimento prévio para se tornar um observador de pássaros. Basta vontade e amor pelas aves. Quem quiser se juntar ao Observaves pode entrar em contato com a Unidade de Educação Ambiental do Ibram pelo telefone 3214-5690. 

Os comentários não representam a opinião do jornal e são de responsabilidade do autor. As mensagens estão sujeitas a moderação prévia antes da publicação

Publicidade