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Correio Braziliense

Massacre da Pacheco Fernandes completa 60 anos e continua sendo mistério

Mesmo tanto tempo depois, um dos casos mais emblemáticos da história de Brasília, segue uma dúvida para boa parte da população. Enquanto a versão oficial aponta uma morte e 48 feridos, supostas testemunhas falam em mais de 100 corpos, que nunca foram encontrados


postado em 08/02/2019 06:00 / atualizado em 07/02/2019 22:23

O cineasta Vladimir Carvalho produziu o documentário Conterrâneos Velhos de Guerra, com relatos sobre o episódio:
O cineasta Vladimir Carvalho produziu o documentário Conterrâneos Velhos de Guerra, com relatos sobre o episódio: "Tenho convicção de que algo de monstruoso aconteceu" (foto: Carlos Vieira/CB/D.A Press)
Sessenta anos depois, a história de uma revolta em um refeitório lotado de candangos ainda mexe com o imaginário brasiliense. O episódio que ficou conhecido como massacre da Pacheco Fernandes divide opiniões e permanece um mistério. É fato de que houve uma confusão no canteiro de obras da construtora que dá nome ao caso, na noite de 8 de fevereiro de 1959, onde hoje está a Vila Planalto. Mas as versões vão de um morto e alguns feridos sem gravidade a dezenas de mortos. Mas nunca apresentaram os corpos ou encontraram as ossadas da suposta chacina.

Consta no inquérito policial assinado pelo corregedor Arquelau Augusto Gonzaga que, por volta das 21h30, 27 soldados da Guarda Especial de Brasília (GEB) atiraram contra os operários sem aparente motivo, causando a morte de um homem e deixando outros tantos feridos, encaminhados para o Hospital Juscelino Kubitschek de Oliveira (HJKO), que hoje funciona como o Museu Vivo da Memória Candanga, ao lado do Núcleo Bandeirante.

As várias versões concordam com o princípio da história: no refeitório da construtora Pacheco Fernandes, com capacidade para mais de mil funcionários, dois homens se indignaram com a qualidade da comida servida, que estaria estragada, e foram tirar satisfações com o cozinheiro. A partir daí começou uma briga e o encarregado da construtora, Presbi Elpídio de Medeiros, pediu que um subalterno chamasse os policiais da GEB para conter os trabalhadores.

Dois soldados deslocados para o refeitório foram cercados pelos operários. A GEB mandou reforços. A partir de então, não há consenso sobre o que de fato aconteceu. A versão do governo à época é a de que todos os soldados tinham ordem de chegar atirando para o alto. Caso fosse preciso lidar com alguém mais violento, o comando era atirar nas pernas.

Na apuração oficial, houve 48 feridos (a maioria com pequenas escoriações) e um morto: Evaristo Soares Brandão que, depois de ser atingido na perna, escondeu-se embaixo de uma cama no dormitório onde sangrou até falecer. No entanto, a história contada por quem frequentou a Brasília em construção é mais obscura.

História em filme

No dia seguinte à revolta, operários começaram a falar em uma matança de centenas de pessoas. Supostamente, os corpos foram levados pelos soldados em caminhões basculantes e jogados em lugar desconhecido. Muitos desses testemunhos foram registrados pelo cineasta Vladimir Carvalho, 84 anos, no documentário Conterrâneos Velhos de Guerra, lançado em 1991. “Nos anos 1970, resolvi um dia cortar o cabelo na feira do IAPI e lá ouvi falar da matança pela primeira vez”, conta.

Dali veio a vontade de documentar o caso. “O problema é que estávamos vivendo a ditadura (militar) e as pessoas tinham certo receio de contar uma história assim; então eu fui tocando aos poucos”, observa Vladimir Carvalho. Foram 19 anos de trabalho até o lançamento. “Quando acabou o governo Figueiredo (o último presidente da ditadura), as pessoas começaram a falar”, diz o cineasta.

Vladimir recorda ter conversado com cerca de 30 pessoas, entre elas o arquiteto Oscar Niemeyer, o médico Ernesto Silva e o urbanista Lucio Costa, três dos assessores mais próximos do então presidente Juscelino Kubitschek. Ao ser questionado sobre o suposto massacre, Lucio Costa disse que as pessoas que colaboraram com a construção de Brasília têm uma tendência a romancear as histórias e, que se tivesse sabido do caso à época, não teria dado a menor importância.

No documentário, uma senhora que trabalhava como lavadeira para os peões das obras descreve o dia seguinte à tragédia. Ela foi ao acampamento levar as roupas passadas, mas policiais a impediram de entrar. Por dias, aguardou que os donos aparecessem, mas isso nunca aconteceu. Em outro relato, trabalhadores que viam um filme no cinema improvisado que funcionava perto do acampamento lembram de escutar os tiros e fugir em desespero.

Um ex-funcionário da Pacheco Fernandes conta ainda ter visto os corpos serem desovados no buraco onde, em 1967, seria inaugurada a Torre de TV. “Eu não assino embaixo de nada. Eu expus uma coisa que ninguém tinha exposto ainda. Até hoje, esse filme é uma peça acusatória irrecusável. Vai ficar para toda a vida, até o dia em que alguém resolver escavar e achar esqueleto”, pondera o Vladimir Carvalho. “Tenho convicção de que algo de monstruoso aconteceu. Provas materiais até que existiram”, conclui.
 
"Disseram que três caminhões jogaram os corpos no lago (Paranoá), mas isso não é verdade, porque, naquele tempo, nem tinha lago em Brasília", Adirson Vasconcelos, jornalista (foto: Carlos Vieira/CB/D.A Press)
 

Cobertura jornalística

Não havia jornal, rádio nem TV na capital à época. Brasília estava em construção. A primeira edição do Correio Braziliense circularia em 21 de abril de 1960, na inauguração da capital. Alguns periódicos do Rio de Janeiro, Minas Gerais e São Paulo mencionaram o episódio da Pacheco Fernandes, sem ter repórter na cidade no dia da confusão.

O jornalista Adirson Vasconcelos, hoje com 82 anos, foi um dos poucos a acompanhar as investigações, na época, por meio da Agência Meridional, pertencente aos Diários Associados, mesmo grupo do Correio. Em 2017, ele publicou o livro O conflito da Pacheco na construção de Brasília, com todos os documentos que recolheu durante suas apurações.

Adirson afirma não ter havido um massacre. Para ele, a história foi fantasiada. Ele recorda que, em 8 de fevereiro de 1959, estava viajando, mas chegou em Brasília dois dias depois e foi direto ao HJKO. Lá, ele se encontrou com algumas das vítimas e o médico responsável, Edson Porto. “O que acontece é que o pessoal já tinha tomado umas coisinhas (bebidas alcoólicas), já estava um pouco alterado”, comenta.

O jornalista entrevistou os delegados, advogados e procuradores que cuidaram do caso e garante que muito do que se fala hoje é exagero. “Disseram que três caminhões jogaram os corpos no lago (Paranoá), mas isso não é verdade, porque, naquele tempo, nem tinha lago em Brasília”. Ele recorda ainda que todos os soldados envolvidos foram presos e depois liberados pelo promotor Antônio Ricardo Nunes Leite.

Alguns dias depois, o caso foi relatado ao governo federal por meio de telegrama. O ex-senador Geraldo Campos, que era funcionário da Novacap, foi um dos responsáveis pela denúncia. A partir dela, surgiria o primeiro sindicato da construção civil do DF. Adirson, que participava da cobertura jornalística da construção de Brasília e acompanhava JK em todas as visitas dele, disse que só o questionou sobre o caso da Pacheco Fernandes depois da inauguração da cidade. “Ele disse ser a mágoa que ele guardava”, recorda.

Para saber mais

Pesquisa desconstrói massacre
O mistério em torno da revolta na Pacheco Fernandes inspirou vários estudos, pesquisas e documentários no DF. Um desses trabalhos foi realizado pelo advogado e cientista político Luiz Humberto de Faria Del’Isola e a jornalista e também advogada Noêmia Barbosa Boianovsky. Eles publicaram, em 2009, o primeiro dos três volumes de uma obra sobre os mitos de Brasília. O ponto de partida da pesquisa foi a construção da cidadania na capital do país. Um dos capítulos do projeto aborda o episódio da construtora. O levantamento começou em 1991 e reuniu mais de 60 depoimentos. Dezoito anos de pesquisas depois, a conclusão da dupla é de que não houve uma matança.

“O episódio chegou na hora em que era preciso fazer algo pelos direitos trabalhistas na nova capital. Havia necessidade de organizar o proletariado e, no momento, os operários estavam aterrorizados. (Bernardo) Sayão tinha morrido em 15 de janeiro. Outro engenheiro muito conhecido na época, no dia 22. E logo em seguida ocorreu o suposto massacre”, afirmou Luiz Humberto, em entrevista ao Correio.

A parte dedicada a Pacheco Fernandes tenta desconstruir o caso ponto a ponto. Para os pesquisadores, há várias brechas capazes de derrubar o mito. Entre elas, a inexistência de nomes e de corpos, o “descaso” dos supostos familiares das vítimas, a não exploração da história pelos opositores à mudança de capital e as contradições nos depoimentos de testemunhas. “Falaram que a GEB metralhou o acampamento, que usou metralhadora. Na época, o grupamento usava revólver calibre.38 de cano longo. Tinham até de esperar para recarregar, pois o cano esquentava muito”, disse o cientista político.

Em 2009, o Correio produziu uma série de reportagens sobre o massacre. Os jornalistas Renato Alves e Guilherme Goulart ouviram 10 testemunhos do episódio e resgataram 21 depoimentos do Arquivo Público do Distrito Federal. Entre as pessoas ouvidas, está o de Francisco Alves da Costa, ex-funcionário da construtora Pacheco Fernandes. “Metralharam assim: passaram três camadas de bala, embaixo, no meio e em cima”, descreveu. No entanto, ninguém precisou onde estariam os corpos.

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