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Correio Braziliense

Bloco de carnaval abre espaço adaptado para pessoas com neurodiversidades

O bloco Bom Para Todos proporciona a esse público a oportunidade de se divertir nas festas de rua em um ambiente preparado especialmente para ele


postado em 14/02/2019 06:03 / atualizado em 14/02/2019 07:01

Integrantes do bloco Bom Para Todos: uma festa adaptada para promover pessoas de todas as idades(foto: Ed Alves/CB/D.A Press)
Integrantes do bloco Bom Para Todos: uma festa adaptada para promover pessoas de todas as idades (foto: Ed Alves/CB/D.A Press)
Já imaginou um bloquinho de carnaval sem cornetas, lança confetes, apitos e música muito alta? Pois ele existe, e é tão divertido e alegre quanto as grandes folias. Além disso, tem uma finalidade singular: a inclusão de pessoas com neurodiversidades, como autismo, síndrome de down, deficit cognitivo, entre outras. Há três anos, o bloco Bom Para Todos proporciona a esse público a oportunidade de se divertir nas festas de rua em um ambiente preparado especialmente para ele.

Com algumas adaptações, o intuito é promover a participação dessas pessoas por meio de ações simples, como preparar um lugar acessível para todos, distribuir protetores auriculares para reduzir o volume do som, informar sobre o trato com pessoas com neurodiversidades e garantir assistência durante todo o evento. Inclusive, eles participam da organização e tomada de decisões do evento.

“A gente costuma dizer que o bloco é com eles e por eles e não para eles. Por exemplo, o barulho é uma questão importante, pode irritá-los, principalmente se for repentino. Por isso, a gente faz a folia com todas as características de um bloco comum, no entanto, com algumas adaptações para eles”, contou um dos idealizadores do Bom Para Todos e psicólogo Paolo Rietveld, 29 anos.

Para ele, o trabalho é importante para o desenvolvimento de quem tem alguma neurodiveridade e uma oportunidade deles conviverem com outros indivíduos. “O nosso intuito não é que o bloco seja só para essas pessoas, porque assim a gente não promoveria a inclusão. É para todos mesmo. A gente só pede que respeitem as limitações e restrições”, destacou Paolo.

A festa é aberta ao público. Ela será realizada no próximo sábado, a partir das 13h, no Setor Comercial Sul, Rua 4, em frente à Praça Central. “Antes, a gente fazia no Lago Norte, mas lá é um lugar de difícil acesso. E o centro de Brasília combina com nosso projeto, que é de acessibilidade. Por isso, a partir deste ano será no Setor Comercial Sul, onde todos conseguem ir”.

A estudante de artes visuais da Universidade de Brasília (UnB) Amanda Paschoal, 27 anos, é autista e nunca participou de um bloco de carnaval, devido à quantidade de barulho e aglomeração de pessoas nas festas. Ano passado, ela foi convidada a integrar a organização do bloco inclusivo e terá a oportunidade festejar.

“Eu quero que as pessoas possam se divertir sem barreiras, com acessibilidade. O direito ao lazer para as pessoas com deficiência também está na LBI (Lei Brasileira de Inclusão). A lei fala que temos espaço em locais como cinema, mas e as manifestações culturais de rua? Também queremos participar delas”, destaca a estudante.
Parceria

A aposentada Lourdes Lima, 57, participa da organização do bloco desde quando foi lançado, em 2017. Ela é mãe da Lia Lima, 13, que tem síndrome de down. “A minha filha adora. Só de falar em carnaval, ela começa se balançar. É uma balada para eles, né? Para todo mundo, a fase de criança é muito gostosa e para eles não é diferente”, ressalta.

De acordo com Lourdes, esse tipo de trabalho é muito importante para o desenvolvimento pessoal da pessoa com deficiência, principalmente na fase da adolescência. “Eles costumam ficar muito sozinhos. Chega nesse momento e as coisas vão se fechando e eles ficam excluídos, é muito injusto, mas é real. Por isso, acho muito bacana esse trabalho”.
Engajada na causa da filha, a aposentada é uma das escritoras do blog Diário da Inclusão. Um espaço reservado para disseminar informações sobre a integração de pessoas com deficiência, conscientizando a população sobre a importância de uma sociedade mais inclusiva.

Família reunida

Desde que descobriu o bloco Bom Para Todos, o carnaval na família da servidora pública Valéria Chaves, 47, se tornou um momento de confraternização. Ela é mãe de três meninos, João Pedro Barros, 16, Antônio Pedro, 13 e Luís Filipe, 11. O mais velho é autista. Ele desenvolveu a deficiência a partir dos 3 anos e, desde então, a família tem ficado cada vez mais unida.

“Não é só o João Pedro que se diverte. Isso se tornou terapêutico para todos nós. Os irmãos vão com ele, se divertem juntos. Nunca imaginei que meu filho pudesse participar do carnaval. É um ambiente surpreendente e muito agradável”, diz.

Antes de conhecer o bloco inclusivo, Valéria levou o filho em outro evento comum, no entanto não teve uma boa experiência. “As pessoas olham e se sentem incomodadas. Isso incomoda a gente também. Por isso, só levamos uma única vez. Agora, com essa nova proposta, já temos onde ele se divertir no carnaval”.

Descoberta recente

Em agosto do ano passado, a moradora da Asa Sul Marina Domingos, 42, descobriu que o filho, Nicolas Domingos, 3, é autista. Este será o primeiro ano que ela levará o pequeno para curtir o carnaval e as expectativas são boas para participar do bloco inclusivo.

“Quando conheci, achei ótimo, porque é uma oportunidade de integrar meu filho com outras crianças que têm o mesmo problema. Fico tranquila, porque será um ambiente seguro para ele. Vou acompanhar e quero ficar até o final. Ele tem até a fantasia, a do Homem-Aranha”.

Não se esqueça!

Para aqueles que desejam participar do bloco Bom Para Todos, a orientação dada pelos organizadores é que evitem:
 Lança confetes
 Bebida alcoólica
 Apitos
 Cornetas
 Balões
 Perfumes fortes

Serviço

Bloco Bom Para Todos
Dia: 16 de fevereiro, sábado
Horário: das 13h às 16h
Local: Setor Comercial Sul, Rua 4, em frente a Praça Central

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