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Correio Braziliense

Artigo: golpe militar no empoderamento

Crianças e adolescentes, na contramão de tudo pelo que tem se lutado, terão de se encaixar, novamente, em padrões que não são os seus


postado em 14/02/2019 06:04 / atualizado em 14/02/2019 07:22

(foto: Editoria de Arte/CB/D.A Press)
(foto: Editoria de Arte/CB/D.A Press)
Eita! Quatro escolas do DF foram “militarizadas”. Não sabemos ainda até onde isso vai impactar, de fato, na vida dos alunos, mas, de qualquer forma, uma coisa me preocupa, já de antemão. A palavra pode causar arrepios em alguns, preparem-se. Podem dizer que é mimimi, que é coitadismo, frescura... Podem falar o que quiser, mas o termo que vou usar é empoderamento. Será proibido se empoderar em sala de aula.

 

Vivemos tempos em que valorizamos a individualidade. A autoestima. O empoderamento. Eu sei, já usei essa palavra no primeiro parágrafo. Inclusive uma variação dela logo em seguida. Mas é disso que se trata este artigo. Perdão. Nos colégios com gestão compartilhada entre as secretarias de Educação e da Segurança Pública do Distrito Federal, os alunos não poderão, por exemplo, exibir os cabelos afro, aqueles estilo blackpower, o que é motivo de orgulho para muitos deles. Meninos devem ter as madeixas única e exclusivamente curtas. Meninas, usarão coque. Apenas. A regra é clara. Dreadlocks? Piada, né? Claro que não!

Foram anos, décadas, séculos de opressão, em que meninos e meninas negras se sentiram menos bonitos, menos valorizados, por serem quem são, em uma sociedade que prega a beleza europeia como padrão desejado: loiros, brancos, cabelos lisos ou com cachos “definidos”. Qualquer coisa fora disso era considerado errado, feio.

E, por favor, não sejamos hipócritas: há quem siga achando isso mesmo nos dias de hoje. Por muito tempo, homens com cabelos crespos tinham de usá-los curtos, na máquina, por vergonha. Por imposição da sociedade. Muitas vezes, por ordem partida de dentro da própria casa. As meninas, na tentativa de se adequar ao tal padrão, foram submetidas a químicas das mais brabas, para alisar a cabeleira. Chapinha, progressiva, escovinha... Se aceitar como veio ao mundo? Impossível. Só com muitos anos de terapia. E olhe lá! Que crueldade...

Diante de tantos anos de luta, a regra imposta pelos gestores das escolas “militarizadas” é uma afronta. Um golpe militar no empoderamento dessas crianças e adolescentes, que, na contramão de tudo pelo que tem se lutado, terão de se encaixar, novamente, em padrões que não são os seus. Isso sem falar em meninos de brinco, meninas com adereços, etc. Identidade, estilo próprio ou qualquer coisa do tipo estão proibidos em sala de aula. Vai ter de ser “sim, senhor”, “não, senhor” e ponto final. Tudo de cabeça baixa e mão para trás. É retrocesso que chama? É também. Mas eu prefiro chamar de golpe mesmo.

 

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