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Correio Braziliense

Seita religiosa é acusada de usar fiéis em trabalho escravo no Gama

Operação entre o GDF e o Governo Federal apura denúncias de cárcere privado e trabalho análogo ao de escravo, na área rural do Gama, nesta quinta-feira (7/3)


postado em 07/03/2019 20:30 / atualizado em 07/03/2019 22:09

Seita religiosa se encontra em chácara às margens da DF-290(foto: Wallace Martins/Esp. CB/D.A Press)
Seita religiosa se encontra em chácara às margens da DF-290 (foto: Wallace Martins/Esp. CB/D.A Press)
 
Em uma operação realizada entre o GDF e o Governo Federal, auditores interditraram, nesta quinta-feira (7/3) os alojamentos e outras áreas de uma seita religiosa que funciona no Gama. Denúncias de que a líder da Igreja Adventista Remanescente de Laodicéia, Ana Vindouro Dias, mantinha fiéis em cárcere privado e em trabalho análogo ao de escravo mobilizaram a Polícia Civil do Distrito Federal, o Ministério Público Federal (MPF), o Ministério Público do Trabalho (MPT), auditores fiscais do trabalho do Ministério da Economia, o Conselho Tutelar do Gama e a Secretaria de Justiça e Cidadania do DF.
 
De acordo com o MPF, foram encontrados 95 trabalhadores em condição degradante de trabalho e vida. Eles são moradores da chácara onde ficam as dependências da seita. O trabalho realizado serviria como uma contrapartida à igreja, sustentando o ambiente físico.

Por causa da chegada de novos fiéis e a lotação dos dormitórios, alguns moradores dormiam em ônibus ou caminhões mal adaptados, sujos e que expunham os indivíduos a questões básicas de segurança. 

MPF interditou parte da chácara(foto: MPF/Reprodução)
MPF interditou parte da chácara (foto: MPF/Reprodução)
O ambiente de trabalho também é insalubre, destaca o MPF. "O local onde eram produzidos os pães vendidos pelos fiéis precisou ser interditado. A medida foi aplicada porque verificaram-se irregularidades nas instalações elétricas do espaço e nos equipamentos utilizados pelos trabalhadores, expondo a riscos de incêndio no espaço", destacou o Ministério Público Federal, em nota oficial.

A ação foi realizada graças a mandados de busca e apreensão expedidos pelo juiz federal Ricardo Leite. O MPF acredita que o total de vítimas da igreja chegue a 300 pessoas.

O Correio entrou em contato com o pastor da igreja, Luciclei Rosa da Silva, mas ele disse que só "vai responder em juízo" sobre as denúncias que foram feitas.

Primeiras denúncias


Às margens da DF-290, a chácara que abriga a seita religiosa ficou conhecida no Distrito Federal em dezembro do ano passado, quando uma menina de 18 fugiu do local após ser mantida por quatro meses em cárcere privado

Após as primeiras denúncias contra Ana Vindouro e a fuga da jovem, a 20ª Delegacia de Polícia (Gama) chegou a prender por um dia a líder da igreja. Obreira, como se intitula, Ana foi solta no dia seguinte.

Ao Correio, ela se defendeu das denúncias apontando ao plano espiritual: “Quando Deus resolveu salvar o homem, teve que enfrentar o pior inimigo, que são os demônios e eles existem. Eles manipulam a cabeça das pessoas para fazer o que querem. Eu entendi a parte espiritual e me propus a salvar as pessoas de corpo, alma e espírito”.

"Depois desse caso e a repercussão na mídia, muitas outras denúncias foram feitas contra a igreja. Com relação ao cárcere privado, não encontramos nada hoje. Mas as condições são degradantes, as ações que fizemos hoje reforçam o que as denúncias tratam", conta o delegado-chefe da 20ª DP, Francisco Antônio da Silva.

Trabalho escravo

A história da congregação começou há 10 anos, em Corumbá de Goiás. A princípio, Ana Dias reunia um pequeno grupo para estudos bíblicos. Com mais adeptos, eles passaram a fazer caravanas itinerantes pregando pelo Brasil. Por seis meses, estiveram em Cuiabá (MT), vendendo e distribuindo conteúdo religioso. Nesse período, em 2014, a obreira foi acusada de trabalho escravo e infantil pelo Ministério Público do Trabalho de Mato Grosso.

O juiz José Roberto Gomes, da 4ª Vara do Trabalho de Cuiabá, condenou os réus ao pagamento de R$ 100 mil em indenizações. A defesa recorreu. O processo se encontra junto no Tribunal Superior do Trabalho (TST), sob sigilo. 

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