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Correio Braziliense

Respeito às mulheres passa pelas escolas, com fortalecimento da identidade

No Dia Internacional da Mulher, especialistas alertam para ações capazes de inspirar igualdade de gênero e ampliar a rede de proteção ao sexo feminino


postado em 08/03/2019 06:00 / atualizado em 08/03/2019 15:03

Juciene Martins Godoy teve a irmã, Jusselia, assassinada pelo ex-marido em abril de 2018:
Juciene Martins Godoy teve a irmã, Jusselia, assassinada pelo ex-marido em abril de 2018: "As mulheres precisam ficar em alerta" (foto: Minervino Junior/CB/D.A Press)

Celebrado há cerca de 100 anos, o Dia Internacional da Mulher é mais uma oportunidade, entre outras 364, para chamar atenção ao que ainda precisa mudar na sociedade quanto a temas como desigualdade de gênero, equidade de direitos, machismo e violência contra as mulheres. Especialistas reforçam que a saída começa pela educação, ensinando, desde cedo, crianças e adolescentes a respeitá-las. A conscientização, no entanto, não envolve apenas os mais novos e as instituições de ensino, mas também o próprio ambiente familiar e social e o governo.

Professora da Secretaria de Educação há 28 anos e autora do projeto Mulheres Inspiradoras, a educadora Gina Vieira considera que a contribuição das instituições de ensino ocorre por meio do fortalecimento da identidade das alunas, da discussão de gênero e do combate a práticas sexistas. “Além de pensar a própria cultura de assédio contra meninas e de uma maior inserção delas nas áreas de tecnologia e exatas, a escola precisa abrir espaço para inserir questões de gênero no currículo”, defende.

(foto: Minervino Junior/CB/D.A Press)
(foto: Minervino Junior/CB/D.A Press)
Para Gina, desconstruir a cultura do machismo da sociedade envolve, em primeiro lugar, admitir que todos, em alguma medida, têm alguma referência preconceituosa em ações ou falas. Outro ponto inclui lançar um olhar crítico para tudo o que acontece ao redor e tomar coragem de contestar o que está enraizado. “Em que medida os pais poupam os meninos e impõem tarefas domésticas para as meninas? Em que grau a escola é sexista quando oferece o uso da quadra de esportes aos alunos e não permite a mesma proporção para as alunas? Por que se exige mais maturidade das meninas em vez dos meninos?”, questiona.

Além disso, segundo a professora Gina, toda vez em que essas ações são combatidas, os meninos também são favorecidos. “Eles precisam da oportunidade de crescer sem as limitações impostas pelo machismo. Ao passo que meninos são representados como fortes, poderosos e inteligentes, meninas, com 7 anos, se identificam como inferiores, frágeis e incapazes em relação a eles”, lamenta.

Apesar dos percalços, a professora do Departamento de Antropologia da Universidade de Brasília (UnB) Lia Zanotta Machado enxerga avanços. “Nas últimas décadas, mulheres de todas as classes sociais têm apresentado mais noções de direitos e autonomia, por exemplo. A mudança ocorreu em grande parte da sociedade brasileira, mas ainda não conseguimos, na mesma proporção, o respeito dos homens para com elas”, analisa a especialista.

A antropóloga explica que, na maior parte dos casos, homens acreditam que precisam resolver quaisquer conflitos enfrentados em casa, na rua ou no trabalho com ações de controle, poder ou posse. Diante disso, Lia acrescenta que é ilusão defender que assuntos relacionados a gênero e sexualidade sejam discutidos apenas em ambiente familiar. “A maior parte dos casos de assédio e importunação sexuais, principalmente contra crianças, é em ambiente doméstico, entre conhecidos. Precisamos de uma educação pública em que permitam que você se veja como igual para não se perceber sempre como alguém inferior e controlável”, ressalta.

Sancionada há 12 anos, a Lei Maria da Penha (Lei nº 11.340/2006) garante proteção às mulheres e prevê rigor nas punições para crimes domésticos. A violência, nesses casos, envolve qualquer ação ou omissão baseada no gênero e que cause morte, lesão, sofrimento físico, sexual ou psicológico e dano moral ou patrimonial às vítimas. O nome da norma foi escolhido em homenagem à farmacêutica Maria da Penha Maia Fernandes, vítima de duas tentativas de assassinato pelo marido, o professor colombiano Marco Antonio Heredia Viveros, em 1983.

Punição

Em Planaltina, a família de Juciene Martins de Godoy, 55 anos, chora a morte da irmã, Jusselia Martins de Godoy, 50, há quase um ano. Em abril de 2018, a advogada e contadora foi assassinada pelo ex-marido Evandro Alves de Faria, 56, com quem viveu por 20 anos e estava separada havia oito meses. Jusselia pediu medida protetiva após a separação e, seis meses antes de morrer, contratou segurança particular com medo do ex-companheiro.

Depois do crime, a família assumiu o escritório deixado pela vítima. “A gente luta todos os dias contra uma dor imensa. É um esforço muito grande para não cairmos em depressão”, conta Juciene. Ela lembra que a postura reservada do cunhado nunca levantou suspeitas. “As pessoas acham que, para acontecer esse tipo de coisa, a mulher tem de sofrer algum tipo de violência, mas nunca houve agressão. Ele era muito calado, na dele, e as mulheres precisam ficar em alerta para isso”, aconselha a auxiliar de contabilidade.

O casal deixou um filho de 22 anos. Do primeiro relacionamento, Jusselia também teve uma filha. A jovem morreu em 2014, aos 27 anos, vítima de um infarto. No dia em que Jusselia teve a morte cerebral decretada, em 9 de abril de 2018, a jovem faria 31 anos. “A minha irmã foi muito batalhadora em tudo o que fez e, infelizmente, não teve a chance de viver mais. O que a gente mais vê, hoje, é assassinato de mulheres de todas as classes e níveis sociais”, lamenta.  

Políticas públicas para elas

Os dados mais recentes da Secretaria de Segurança Pública revelam que o Distrito Federal teve aumento no número de tentativas de feminicídio. Ainda que as taxas de feminicídios consumados, os casos de violência doméstica e os estupros tenham caído, segundo a pasta, os índices são preocupantes (veja Vulneráveis). A titular da Delegacia Especial de Atendimento à Mulher, Sandra Melo, entende que a base para essa violência está na forma com que homens e mulheres foram, historicamente, educados; por isso, para ela, a saída não pode ser alcançada apenas por meio da repressão. “A educação deve ser para o respeito integral ao ser humano. Quando trabalhamos isso com os nossos pequenos desde cedo, temos uma sociedade mais igualitária, seja para mulheres, seja para deficientes, seja para LGBTQIs, seja para crianças, seja para idosos”, comenta Sandra.

Na tentativa de garantir proteção, respeito e segurança às mulheres, o Governo do Distrito Federal (GDF) lança, hoje, a rede Sou Mulher. A iniciativa alcança uma série de ações integradas entre secretarias, Polícia Civil, ONGs, instituições de ensino e movimentos sociais para a discussão de ações e políticas públicas em torno do assunto. “É um novo tempo de mais oportunidade, mais trabalho, saúde e proteção. Começamos com ações pontuais em março, mas as atividades se estenderão até o próximo ano”, ressaltou a secretária da Mulher, Ericka Filippelli.

Realidade

Ela destacou que as ações vão para além do enfrentamento à violência e incluem uma rede de apoio voltada à proteção, à oferta de emprego e à promoção do empreendedorismo e da autonomia. “O 8 de Março é mais um dia de mobilização em torno dessa pauta para prestarmos atenção ao que está acontecendo. Estamos nos debruçando em estudos, análises, e esses relatórios demonstram uma realidade que está sendo diferente”, acrescentou Ericka.


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