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Correio Braziliense

Histórias de solidão e abandono de idosos deixados por parentes

Muitos idosos tentam justificar a ausência dos filhos e, assim, buscar uma sensação de conforto.


postado em 10/03/2019 08:00

 
(foto: Ed Alves/CB/D.A Press)
(foto: Ed Alves/CB/D.A Press)
“À noite é o pior momento. Durante o dia, ligo a tevê, o rádio, escuto música e, assim, ocupo a cabeça, parece que tem gente por perto. Mas, de noite, está tudo apagado, a casa trancada e eu me sinto como uma prisioneira”, lamenta Amélia Lopes*, de 76 anos. Viúva há dois anos, mora sozinha em uma casa do Guará, onde tem por companhia apenas as vozes dos programas que assiste na televisão. A solidão dela é uma situação que se repete em muitos lares brasileiros.

Muitos idosos tentam justificar a ausência dos filhos e, assim, buscar uma sensação de conforto. “Eles são muito ocupados”, “trabalham muito”, “é papel do pai cuidar dos filhos e não o contrário”, são algumas frases comuns ditas a interlocutores, em uma tentativa de amenizar a dor da solidão. Em abrigos, casas de acolhimento, morando sozinhos ou até mesmo acompanhados, o abandono de idosos, além de ser crime (leia Para saber mais), pode acarretar em uma série de doenças psicológicas e físicas.

(foto: Ed Alves/CB/D.A Press)
(foto: Ed Alves/CB/D.A Press)
 

A estimativa da Companhia de Planejamento (Codeplan) é de que, no Distrito Federal, vivam 328,3 mil idosos, ou seja, mais de 11% da população da capital é composta por pessoas acima dos 60 anos. A reportagem do Correio percorreu abrigos e ruas das regiões administrativas para contar histórias de abandono. Foram usados nomes fictícios para proteger a privacidade deles.

(foto: Ed Alves/CB/D.A Press)
(foto: Ed Alves/CB/D.A Press)
 
Amélia não tem filhos de sangue. Viveu por muitos anos no interior do estado do Tocantins, com o marido. Engravidou duas vezes, mas, em ambos os casos as crianças morreram antes de completarem 2 anos de vida. Por esse motivo, desistiu de tentar outra gestação. Há 20 anos, no entanto, adotou um bebê doente que estava com 9 meses. “Meu marido não queria, porque a mãe biológica morava muito perto e ele falava que ela iria me tomar a criança, mas eu precisava fazer aquilo. Ela estava dando o menino, e eu precisava salvar aquela vida”, justifica.


Hoje, o rapaz mora em Goiânia e, de vez em quando, visita a mãe adotiva. Na maior parte dos dias, no entanto, Amélia fica sozinha. As amizades são poucas: algumas vizinhas e as duas irmãs que moram em Santo Antônio do Descoberto, no Entorno do DF. Ela nunca teve um emprego, proibida pelo marido. “Ele dizia que mulher dele não trabalharia e, naquela época, a gente não tinha escolha, a não ser obedecer”, relembra. Há poucos meses, Amélia começou a buscar meios de driblar o isolamento: comprou um violão e está aprendendo a tocar. As melodias, que aos poucos tira do instrumento, são um novo passo na vida da idosa.

(foto: Ed Alves/CB/D.A Press)
(foto: Ed Alves/CB/D.A Press)
 
Aventureiro desde a juventude, Mário Aragão, 65, deixou o Piauí, onde nasceu, para tentar a vida em Brasília, em 1972. À época, emprego era difícil na cidade natal e ele precisava se esforçar para dar um futuro melhor à família. Aos 19, chegou à capital acompanhado da mulher e dos três filhos. Aqui, conseguiu emprego como operador de caixa em um posto de gasolina de Samambaia e permaneceu na profissão até se aposentar.

Tristeza disfarçada
Hoje, com os filhos casados e avô de quatro netos, tem a sensação de missão cumprida. A vida de Mário tomou outro rumo em 2009, quando ele e a esposa se divorciaram e os próprios filhos decidiram que o pai deveria ir para um abrigo. “Não queria ficar na casa das minhas irmãs, e meus filhos trabalham. Não tem ninguém para cuidar de mim”, diz, tentando disfarçar a tristeza no olhar. Ele não se entrega a lamúrias, continua vaidoso, de cabelo sempre penteado. Para conversar com a equipe do Correio, fez questão de se arrumar na cadeira de rodas e deixar à mostra o relógio, a pulseira e o colar banhados a ouro.


Os primeiros anos longe da família foram mais tranquilos. As visitas eram frequentes, e os filhos estavam presentes nas datas comemorativas. Porém, com o passar do tempo, os rostos conhecidos foram sumindo e os médicos, os cuidadores e os colegas passaram a ser as companhias diárias para bater papo. Dedois de um tempo conversando com a reportagem, desabafou: “Estou muito desgostoso da vida. Pedi para minha família me tirar daqui, mas não quero morar com eles. Quero ir para outro lugar, não sei onde, só não quero incomodar”.

(foto: Ed Alves/CB/D.A Press)
(foto: Ed Alves/CB/D.A Press)
 
A rotina no lar dos velhinhos é dividida entre ouvir música, principalmente as de Roberto Carlos, e jogar dominó com os companheiros. Diariamente, ele fica na expectativa de ter com quem conversar, e o semblante denuncia a satisfação que tem quando é ouvido. Ainda sonha em viajar, conhecer lugares.


Abandono afetivo

Falta de atenção é também sinônimo de solidão. Psicóloga e especialista em impactos da violência na saúde pela Fiocruz, Carolina Alcântara explica que existem dois tipos de abandono: o físico e o afetivo. “A pessoa pode receber todos os cuidados dentro de casa, mas não há vínculo afetivo”, destaca.

É o caso de dona Maria das Dores, 76. Mesmo morando com o filho de 41 anos, sente-se esquecida. “Ele passa dias fora de casa, não dá notícias. Quando aparece, fica trancado ou só fala comigo quando quer dinheiro. Se eu não sair de casa, fico só o dia todo”, descreve. Ela tem mais duas filhas, mas uma mora fora do país e a outra, no Espírito Santo. “Uma delas fez um cruzeiro, gastou tudo o que tinha e agora fica me pedindo. Eu tenho que dar, né, a gente vai fazer o quê?”, diz.

Para evitar conflitos, ela não reclama da forma como é tratada. “Se eu falar alguma coisa, eles se zangam, então, é melhor não falar nada”. Viúva há mais de 40 anos, quando o marido faleceu após um infarto, ela sente falta de um companheiro. “Tive nove namorados, mas todos já morreram. É um pouco triste”, lamenta.

Tristeza parecida vive Joaquim Brito, 80. Ele mora sozinho em Taguatinga. No mesmo lote, uma das filhas reside em uma casa nos fundos, mas, mesmo com a proximidade física, o contato é mínimo. “Comunicação por aqui só acontece se eu falar com as paredes”, reclama Joaquim. Ao todo, ele tem quatro filhos e 10 netos, mas ninguém lhe dá muita atenção. “Eu tenho um carro, mas não tenho habilitação, então, quando preciso, algum filho dirige para mim. Mas é tão difícil, que eu preferi contratar um motorista particular”, declara.
(foto: Ed Alves/CB/D.A Press)
(foto: Ed Alves/CB/D.A Press)

Para não ficar sozinho, Joaquim encontrou diversão nos bailes de forró organizados por centros de Convivência do Idoso. Toda semana, vai a pelo menos três. Os preferidos são os do Gama, do Lucio Costa e do Guará. “É bom, eu me divirto, converso com as pessoas”, comenta. Ele descobriu os eventos há 12 anos, por indicação de um amigo. À época, enfrentava uma depressão que durava um ano, desde a morte da esposa.

Mesmo tanto tempo depois, ainda vai às lágrimas quando fala da companheira. “Vivi um casamento muito feliz. Ela era muito boa para mim, e eu ainda sinto muita falta. Ela tinha apenas 55 anos quando morreu, mas sofria de diabetes e problemas de coração”. Com a voz embargada e as lágrimas escorrendo por trás dos óculos, ele vê hoje a dança como uma “grande companhia”.


Crescimento

A população idosa do DF tende a aumentar nos próximos anos. Dados da Projeção da População 2018, feita pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), mostram que, em 2060, a capital será a segunda unidade da Federação com mais idosos, sendo dois para cada jovem. No Brasil inteiro, um quarto da população (25,5%) deverá ter mais de 65 anos. A projeção da Companhia de Planejamento do Distrito Federal (Codeplan) é de 989.179 idosos também em 2060, um aumento significativo em relação a 2018, de 205.187.

Quem não consegue vagas em instituições que cuidem de idosos, e pior, não tem aposentadoria, enfrenta mais problemas. Há 15 anos, Diego Alves, 60, mora sozinho. Natural do Ceará, chegou a Brasília em 1980. Veio em busca de emprego com esposa e filha. Na capital, fez bicos como ajudante de pedreiro. Descarregava mercadorias de caminhões de mudanças e supermercados. Morava em Ceilândia, mas se separou da esposa e passou a viver de favor na casa de amigos.

Hoje, reside em um barraco de um cômodo na Candangolândia cedido por um antigo patrão. No local, não há água ou energia elétrica. Velas são espalhadas pela casa e, sem emprego, ele conta com a doação de uma cesta básica a cada dois meses por uma instituição de caridade. “Tenho um problema no joelho e não posso fazer muito esforço, por isso, não consigo trabalhar sempre. Quando dá, ajudo a descarregar caminhões ou a carregar coisas para as pessoas e ganho um trocado”, conta.

Diego tem três netos, mas nem sempre consegue vê-los. As visitas também não acontecem. Apesar dos problemas de saúde e da idade, ele garante que nunca passou por um médico. “Estou tentando pela primeira vez me consultar. Quero conseguir minha aposentadoria e voltar para o Ceará. Não tenho pai, nem mãe, mas tenho parentes lá. Meu sonho é trabalhar na roça”, confessa.

Sem televisão ou qualquer distração, ele passa a maior parte do dia na feira da região administrativa onde mora. Sempre tenta conseguir algum bico, mas quando as dores nos joelhos estão muito fortes, fica em casa. Correndo atrás da aposentadoria, ele ainda tem mais um problema para lidar com a burocracia exigida para adquirir o benefício: a falta de dinheiro para custear as passagens de ônibus para o posto do INSS.

Investimento

No DF, algumas instituições conseguem dar assistência necessária para os idosos, mas vivem no limite devido à falta de recursos e sempre contam com doações e trabalho de voluntários. Geralmente, são essas entidades que dão entrada na aposentadoria dos idosos (muitos nem sabem que têm direito) e conseguem custear a estadia deles, atendimento médico e alimentação. No entanto, há filas de espera para que as casas aceitem novos moradores.

O professor Einstein de Camargos, da Faculdade de Medicina e médico do centro de medicina do idoso do Hospital Universitário de Brasília (HUB), alerta que a estrutura de assistência aos idosos precisa mudar no Brasil. “Em outros países existem auxílios sociais para que essas pessoas paguem instituições de acolhimento. Isso seria interessante no Brasil, porque muitas estão em situação de abandono. Além disso, fora do país, eles conseguem desenvolver atividades sociais e estar em contato com a população, o que é muito importante”, destaca.

O especialista reforça que o abandono acontece de diversas formas. “Esses casos, geralmente, são provocados quando o idoso tem algum problema dentro de casa. Também há situações em que a família tem uma estrutura ruim ou não possui condições financeiras para arcar os gastos da pessoa. Muitas vezes, a história de vida é que determina o abandono”, comenta.

Para o estudioso, não há como uma situação de abandono ser positiva. Segundo Einstein de Camargos, nos casos mais comuns, ocorrem a piora da depressão, queixas de dores muito mais frequentes, o que ocasiona até maior uso de medicamentos. Outro problema é a falta de assistência médica. “Precisamos de profissionais visitando semanalmente instituições. Essas pessoas precisam de acompanhamento e fornecimento de remédio. Geralmente, esse trabalho é feito por serviço voluntário”, diz.

A “melhor idade”

Alcançar a chamada “melhor idade” é para muitos um desafio. Com o passar dos anos, a saudade de amigos e de parentes que já se foram, da profissão exercida na juventude ou mesmo da aparência e da saúde de outrora pesam sobre os ombros de idosos que, aos poucos, perdem a vontade de se socializar. Para tentar reverter essa situação, foi criada a Universidade do Envelhecer (UniSer), um projeto de extensão da Universidade de Brasília (UnB). O objetivo é, a partir da educação, fazer com que as pessoas vivam a velhice com qualidade de vida, reconhecendo direitos e deveres.
 
Voltado para alunos a partir de 45 anos, formou mais de 300 pessoas como educadores sociais e políticos em gerontologia. No currículo, os assuntos são diversos: dança, artesanato, inglês e muitas palestras mostrando como os idosos podem ser independentes, aprendendo sobre direitos e deveres. As aulas são gratuitas. Existem unidades da UniSer em Taguatinga, Samambaia, Candangolândia, Estrutural e no campus da UnB na Asa Norte.

Para saber mais

Providências cabíveis
Criado em 1º de outubro de 2003, o Estatuto do Idoso (Lei Federal nº 10.741) estabelece os direitos assegurados aos brasileiros acima de 60 anos. Entre os 118 artigos, determina-se que qualquer pessoa deve comunicar ao Ministério Público, para as providências cabíveis, situações de abandono moral ou material por parte dos familiares.

Configurado como abandono de incapaz, é considerado crime, e a pena é de seis meses a três anos de prisão. Caso a vítima tenha sido agredida, a pena pode ser aumentada para até cinco anos. Se a pessoa em questão morrer, a punição sobe para 12 anos. Por se tratar de um idoso, o juiz pode, ainda, aumentar a reclusão em um terço, alcançando os 16 anos.
 
328,3 mil
Idosos vivem no Distrito Federal

33,8%
Dos idosos do DF têm entre 60 e 64 anos
 

Você sabia?

De acordo com a Organização Mundial da Saúde (OMS), idoso é todo indivíduo com 60 anos ou mais. Essa idade mínima pode variar segundo as condições de cada país e suas políticas públicas. 
 
*Os nomes nessa reportagem foram alterados para preservar a identidade dos idosos 
 

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