Publicidade

Correio Braziliense

Conheça Maycon Calasancio, primeiro professor surdo de balé de Brasília

Neste ano ele ganhou duas companhias que deram corpo a um projeto que une a arte com a língua brasileira de sinais


postado em 10/03/2019 08:00 / atualizado em 09/03/2019 21:51

Janaina Ferreira de Almeida (top colorido) , Maycon Marques Calasancio e Aline Lima de Moura (top preto)(foto: Marcelo Ferreira/CB/D.A Press)
Janaina Ferreira de Almeida (top colorido) , Maycon Marques Calasancio e Aline Lima de Moura (top preto) (foto: Marcelo Ferreira/CB/D.A Press)

Surdo de nascença, Maycon Calasancio é apaixonado por música e dança. O jovem de 28 anos sempre desafiou as limitações, tanto que se tornou o único professor de balé deficiente auditivo de Brasília. Mas como a canção de Raul Seixas diz que “sonho que se sonha junto é realidade”, neste ano ele ganhou duas companhias que deram corpo a um projeto que une a arte com a língua brasileira de sinais.

Maycon, Aline Moura, 21, e Janaína Almeida, 22, criaram o grupo Senserit 3, que tem como proposta unir dança contemporânea com libras. “Nós misturamos poesia em língua de sinais. Ou seja, queremos que a dança se torne acessível tanto para os sujeitos ouvintes quanto para os surdos”, conta Aline. A pedagoga e bailarina é fluente em libras, assim como Janaína. As duas conheceram Maycon em uma oficina ministrada por ele, no ano passado. Desde lá, passaram a admirar a história do jovem.

O professor Maycon conheceu essa arte na infância e viu nela uma forma de perder a timidez. “Quando eu tinha uns 7 anos, lembro-me que minha família gostava de dançar forró. Mas eu era uma criança muito tímida. Então comecei a ficar perto da caixa de som nas festas e sentir o ritmo que saía delas. Assim, comecei a perceber que, com a dança, o sujeito surdo consegue absorver e sentir as coisas com mais facilidade.”


Janaína também começou a ter gosto pelos palcos cedo, mas o que mudou tudo para ela foi descobrir que poderia fazer a diferença juntando os seus conhecimentos em libras. A estudante de pedagogia fez um curso sobre a língua na igreja em que frequenta e começou a usar o que aprendeu diariamente: “Sempre estou com pessoas surdas, como meu namorado e amigos que fiz”, explica. Certos dias, Aline também usa mais libras do que o português falado. A segunda língua é tão influente na sua vida que o Trabalho de Conclusão de Curso (TCC) que fez teve como tema reflexões pedagógicas da dança e dos sujeitos surdos.

(foto: Marcelo Ferreira/CB/D.A Press)
(foto: Marcelo Ferreira/CB/D.A Press)
 

Conquista

Para colocar o projeto em prática, o trio conseguiu um espaço gratuito destinado aos ensaios em Taguatinga. Então começaram a trabalhar duro, com encontros três vezes por semana, elaborando coreografias que permitem o diálogo entre corpo e libras. “Como nosso objetivo é valorizar a cultura surda, não falamos em português nem durante os exercícios. Nossas conversas acontecem em língua de sinais, para que a identidade deles seja respeitada”, relata Aline.
Desde o alongamento, cada ensaio é uma experiência diferente de sentimentos, movimentos e expressões. Maycon explica: “Combinamos os sinais que dialogam com os sentidos da coreografia. Trabalhamos muito as temáticas em volta da surdez, como a acessibilidade e a luta social. Expressamos na dança o que nós passamos, o que significa nossa vida”, desabafa. Assim, o trio, que se juntou como grupo de balé neste ano, está conquistando seu espaço.

Os dançarinos foram chamados para realizar uma performance, prevista para hoje, às 16h, no Centro Cultural Banco do Brasil (CCBB), dentro da exposição 50 anos de realismo, que também conta com pinturas, esculturas, vídeos, instalações interativas de mais de 30 artistas contemporâneos. Os detalhes da primeira apresentação ainda são surpresa, mas eles adiantam que essa não é uma arte exclusiva para pessoas sem deficiências auditivas.

“A gente pensa que surdo e música não têm nada a ver. Mas o ritmo também está dentro da gente. Podemos, por exemplo, sentir o ritmo do nosso coração e começarmos uma coreografia”, ensina Janaína. A estudante conta, ainda, que viu muitas crianças surdas serem excluídas de  atividades que envolvem o som dentro de espaços como as escolas, mas que há possibilidades de inclusão. “A dança é realmente uma área muito complicada para eles, mas existem músicas adaptadas, com batidas mais fortes, para que os surdos sintam a vibração no corpo.”

Além das apresentações em exposições e eventos, o grupo pretende  levar o projeto de dança às escolas. Para eles, trabalhar a inclusão de pessoas com deficiência na infância é essencial, e a música pode ser uma ótima aliada até mesmo para o autoconhecimento dos menores. “A bailarina Maria Fux diz que o mundo do silêncio existe e ele é experienciado pelos indivíduos surdos na sua forma mais profunda, porque eles podem sentir o ritmo da própria respiração, da própria circulação sanguínea... de uma forma que ouvintes não conseguem. Assim, eles conseguem transformar seu próprio movimento em dança”, diz Aline.

Os comentários não representam a opinião do jornal e são de responsabilidade do autor. As mensagens estão sujeitas a moderação prévia antes da publicação

Publicidade