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Correio Braziliense

Animais resgatados de circo tentam superar sequelas no Zoo

Mesmo depois de terem sido resgatados em uma apreensão realizada pelo Ibama, em agosto de 2008, as experiências vividas por trás das lonas não foram apagadas com o tempo


postado em 11/03/2019 06:00 / atualizado em 11/03/2019 11:58

Ver galeria . 5 Fotos Marcelo Ferreira/CB/D.A Press
(foto: Marcelo Ferreira/CB/D.A Press )


Em dia de sol e calor na capital federal, cada um aproveita como pode. O elefante Chocolate se refresca com um banho e, de quebra, ainda aproveita a massagem com a pressão da torneira. O rinoceronte Thor até decidiu sair do quarto com isolamento acústico para pegar um bronzeado. Mas, antes, rolou o corpo na poça de lama, que serve como um protetor solar. Já o hipopótamo fêmea Iully veio para a sombra ganhar comida na ‘boquinha’. No entanto, mais de 10 anos atrás, esses três animais de origem africana enfrentavam uma realidade muito diferente da que atualmente vivem no Zoológico de Brasília. Pertencentes ao grupo Le Cirque, sofriam maus-tratos e eram submetidos a condições precárias para fazer a alegria da criançada no picadeiro.

Mesmo depois de terem sido resgatados em uma apreensão realizada pelo Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama), em agosto de 2008, as experiências vividas por trás das lonas não foram apagadas com o tempo. Marcas físicas e comportamentais ainda fazem parte do dia a dia desses animais.

(foto: Hipopótamo fêmea Iully em 2008 à direita, desnutrida e arredia. À esquerda, o animal em 2019)
(foto: Hipopótamo fêmea Iully em 2008 à direita, desnutrida e arredia. À esquerda, o animal em 2019)

 
O hipopótamo fêmea Iully, por exemplo, precisa ficar separada das outras três fêmeas do zoológico. Arisca, ela mantém apenas o contato visual com Catarina, Bárbara e Chumbinha, o que, segundo o chefe dos mamíferos do Zoológico de Brasília, Filipe Reis, não é comum da espécie, acostumada a viver em grandes grupos. “Essa agressividade pode ser reflexo das agressões vividas no circo”, diz. Iully vivia em um tanque pequeno,no qual era impossibilitada de girar 180 graus. “Ela praticamente só nadava nas próprias fezes e chegou subnutrida. Toda essa limitação de espaço e alimentação pode ser o motivo pelo qual ela é a menor dos hipopótamos fêmeas”, observa Filipe.

A memória de elefante não deixa Chocolate esquecer a dança que aprendeu para fazer as apresentações. Volta e meia é possível flagrá-lo arrastando as patas para frente e para trás, repetidas vezes. O que pode parecer inofensivo, na verdade, reflete um treinamento baseado em punições. “É comum usarem o bulllhook, uma espécie de gancho afiado, que machuca o bicho. Ou então o colocam em um piso quente, obrigando-o a levantar as patas para não se queimar. Ao associar a dor a uma música, o animal acaba aprendendo e, no palco, só de ouvir a canção, reproduz a dança”, explica Filipe Reis.

À esquerda o Elefante Chocolate em 2008, na época do resgate. À direita, uma foto atual, em 2019
À esquerda o Elefante Chocolate em 2008, na época do resgate. À direita, uma foto atual, em 2019


Apesar do comportamento ser cada vez mais raro, os cuidadores acreditam que não será possível eliminá-lo. Além disso, Chocolate chegou ao local magro, sem o marfim — espécie de dentes externos dos elefantes — e com vários abscessos. As feridas ainda aparecem com frequência e requerem atenção especial dos veterinários.

Assim como Chocolate, o rinoceronte Thor veio doente. Uma espécie de conjuntivite crônica tomava conta de um dos olhos do animal, causando muita dor e incômodo. Além disso, estava com o escore corporal de 1,5. O índice, que varia de 1 a 5, mede o quanto o animal está magro ou gordo, sendo que o ideal é 2,5. Atualmente, Thor ainda precisa de constantes cuidados para tratar os olhos, já que não há cura para a doença. Com alimentação e exercícios necessários, o rinoceronte atingiu o peso ideal.

(foto: Rinoceronte Thor em 2008 e depois, em 2019)
(foto: Rinoceronte Thor em 2008 e depois, em 2019)


Na mesma apreensão, uma lhama também acabou ficando no Zoológico de Brasília. Ela chegou com uma ferida aberta no ventre, que, mesmo depois de quatro anos sendo tratada, nunca se fechou. O mamífero acabou morrendo em decorrência da ferida. Quem também fez parte do grupo de animais resgatados de circos foi o leão Dengo. Ele veio transferido do Zoológico de Niterói (RJ) em 2011. Tinha Aids felina e artrose. Morreu aos 16 anos em decorrência das doenças, cinco anos depois de ser transferido para a capital.
 
 
 
Para quem presenciou a condição em que esses animais chegavam, o sentimento é de desespero. A atual diretora de Medicina Veterinária, Betânia Pereira, que na época acompanhou a chegada dos animais do Le Cirque, afirma que a preparação para recebê-los parecia uma ‘operação de guerra’. “Nenhum zoológico estava preparado para isso. Foram construídos recintos de emergência, mudaram técnicos de setor. É entristecedor ver chegando animais apáticos, muito magros, totalmente debilitados e desnutridos. Só para se ter uma ideia, os elefantes bebiam a própria urina. Nas fezes dos animais foram encontrados plásticos e casacos. Vê-los sendo cuidados e nutridos da maneira correta é o que nos consola.”

Legislação

Apesar de muitos estados possuírem leis locais que proíbem o uso de animais como forma de entretenimento, ainda não há uma legislação única que sirva para todo o Brasil. O Distrito Federal é uma dessas unidades federativas que proíbe a utilização de animais em circos ou apresentações semelhantes, embasada na Lei 6113, vigente desde 2018.

A dinâmica itinerante do circo acabou por facilitar a fiscalização por parte do Ibama porque, segundo o coordenador das operações de fiscalização do órgão, Roberto Cabral, os circos tiveram que começar a evitar as atividades nesses estados, o que diminui a possibilidade de lucrar com os animais.

“Embora não exista uma lei específica de proibição dos animais em circos, há a lei de crimes ambientais que nos auxiliam. O artigo 32 versa sobre maus-tratos, e o artigo 31 determina que qualquer introdução de animais silvestres exóticos no país depende de autorização do órgão ambiental competente. Utilizando esses dois dispositivos e ainda a questão sanitária e a questão de segurança pública e dos animais, o Ibama procedeu à fiscalização nos circos que utilizavam animais e, com isso, acabou resultando na apreensão dos animais”, detalha Cabral. Como resultado, hoje, no Brasil, não existem registros recentes de animais em circo. No entanto, denúncias de qualquer indício da prática podem ser feitas pela Linha Verde, no número: 0800-618080.0

Ibama possibilitou resgate

Foram apreendidos mais de 20 animais, dentre eles quatro elefantes, uma zebra, um hipopótamo, dois chimpanzés, um babuíno, um rinoceronte branco e um camelo. Todos os animais foram destinados a zoológicos. A ação que deu causa à apreensão foi impetrada pelo Ibama, que após receber uma denúncia feita pela ONG ProAnima (Associação Protetora dos Animais), constatou as condições de maus-tratos após uma vistoria no local onde o Le Cirque estava instalado à época. 

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