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Mais de 200 pessoas caem em golpe de venda de veículos na internet

Somente neste ano, foram registrados 49 casos da ação estelionatária. A Polícia Civil acredita que os crimes sejam cometidos por quadrilhas especializadas

Um golpe de venda de veículos on-line fez mais de 200 vítimas no Distrito Federal nos últimos dois anos. Só em 2019, pelo menos 49 pessoas caíram na ação criminosa, que consiste em enganar tanto o verdadeiro dono do produto anunciado quanto os potenciais compradores. O estelionatário assume o papel de intermediário na negociação e articula um encontro entre as vítimas. Antes, por telefone, o criminoso conta histórias diferentes tanto para o proprietário quanto para o comprador. Não há estimativa do tamanho do prejuízo, segundo a Polícia Civil.
Os primeiros registros do golpe começaram em 2017. Em todos os casos, os bandidos agiram por meio do site de vendas OLX, segundo informações da Divisão de Falsificação e Defraudação (Difraudes), ligada à Coordenação de Repressão aos Crimes Contra o Consumidor, a Ordem Tributária e a Fraudes (Corf).
Na última quinta-feira (7/3), um empresário de 56 anos foi enganado pelo estelionatário durante a compra de um Jeep Renegade no valor de R$ 65 mil. "Falei com o anunciante, que se identificou como Carlos Eduardo. Ele disse que o carro estava com um suposto sobrinho, em uma concessionária do Sia, e que articularia uma visita minha", conta.
Às 10h30, o empresário e o suposto sobrinho, que, na verdade, era o dono do carro, se encontraram. "No WhatsApp, Carlos disse para não falarmos de preço, alegando que o familiar também estava interessado no carro, mas que ele queria pagar em parcelas longas." Então, o estelionatário falou ao empresário que precisava quitar dívidas e, por isso, daria preferência à proposta dele, já que tinha oferecido um sinal de R$ 20 mil.
"O homem confirmou ser sobrinho do criminoso e, por isso, não desconfiei de nada. Fechei negócio e fiz o depósito." Mal sabia o empresário que o suposto parente também tinha caído na ação do estelionatário. Para o dono do veículo, um advogado, o bandido alegou que ia comprar o carro para abater uma antiga dívida com o empresário. "No mesmo dia, o dono do Jeep me ligou desconfiado de que se tratava de um golpe. Ele disse que o estelionatário pediu para que ele dissesse que eram parentes. Na mesma hora, liguei para o gerente do meu banco."
Ao rastrear o depósito, o empresário identificou que o dinheiro tinha ido para a conta de uma jovem de 19 anos, moradora de Ribeirão Preto (SP). Como a transferência ocorreu à noite, o criminoso sacou pequenas quantias em caixas eletrônicos e não pôde movimentar todo o montante. A vítima conseguiu recuperar quase R$ 18 mil. Ele e o dono do Jeep registraram o boletim policial.
"Com o boletim de ocorrência, o meu gerente entrou em contato com o banco da cidade paulista, pedindo o bloqueio da senha da jovem. Assim, congelamos o dinheiro e recuperei quase tudo. No entanto, ainda não estou satisfeito, pois saí no prejuízo", lamenta.

Quadrilhas especializadas

A delegada Isabel Davilla, da Difraudes, garante que qualquer pessoa pode cair nesse tipo de golpe, que tem crescido em todo o país. "Acreditamos que se tratam de quadrilhas especializadas, pois é uma ação bem articulada, que não levanta suspeita inicial nas vítimas", sinaliza.
A ação criminosa é minuciosa. "Primeiro, o estelionatário fala com o dono do veículo, se mostra interessado e pede mais fotos. Em seguida, cria o segundo anúncio e engana os compradores. Quando uma pessoa o procura para saber do carro ou da moto, ele passa o material adquirido com os proprietários. Depois, articula que a pessoa interessada no bem veja o produto", detalha.
Para evitar que as vítimas falem sobre a venda durante o encontro, o estelionatário inventa novas mentiras. Aos proprietários, o criminoso diz que irá adquirir o veículo para quitar dívida com a pessoa que irá ver o carro ou a moto. Para o comprador, que o bem está com um familiar. Com as desculpas, a delegada destaca que o bandido afirma que "não é preciso tratar do preço, pois é ele o responsável por essa parte."
As investigações acerca do golpe estão no começo e, portanto, ninguém foi identificado ou preso pelos crimes. Mas a apuração dos agentes indica que há a participação de criminosos de outros estados, que possivelmente contam com a ajuda de estelionatários do Distrito Federal.
Isabel orienta que, para não cair no golpe, a primeira coisa a fazer é conversar com quem está com o produto. Se há intermediário, desconfie. "Deve-se falar pessoalmente, pois a prática de negociação se perdeu com a modernidade da internet. Se o veículo anunciado está com preço baixo e a pessoa alega urgência na venda, não acredite. E o principal: jamais dê um sinal, sobretudo se a conta é de fora do DF. Faça o pagamento pessoalmente, quando for pegar o bem", salienta.
Ainda, a delegada também destaca que se há anúncio duplicado, há golpe. "Nesses casos, a fraude é certa e é preciso notificar a plataforma responsável pelas publicações. Outra coisa importante é que o dono do produto não deve mandar fotos, mas sim, marcar um encontro com o possível comprador. Isso evita que os estelionatários tenham material para realizar o golpe", aconselha Isabel Davilla.

Em nota, a OLX garante condenar as ações criminosas que ocorrem no site, pois "vai contra as regras da empresa." Ainda, frisa que a plataforma tem um botão de denúncia em todos os anúncios. Assim, qualquer pessoa pode expor práticas irregulares e conteúdos indevidos. "Identificada a irregularidade, a OLX conta com uma equipe especializada que atua sobre as denúncias, deletando os anúncios e banindo o mau usuário da plataforma", destaca o texto.