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Correio Braziliense

Artesãs da Torre de TV produzem polvos de crochê para bebês prematuros

Brinquedos ajudam crianças a enfrentar o período nas unidades de tratamento intensivo neonatais da cidade


postado em 15/03/2019 06:00

Márcia Elizabeth, idealizadora do projeto: por mês, as voluntárias confeccionam 200 unidades(foto: Marcelo Ferreira/CB/D.A Press)
Márcia Elizabeth, idealizadora do projeto: por mês, as voluntárias confeccionam 200 unidades (foto: Marcelo Ferreira/CB/D.A Press)
Produzido com linhas, mas feito de amor. No nó de cada ponto, o sentimento de que ali também ficou amarrada toda a energia positiva desejada para um ser que sequer está no mundo, mas que, quando chegar, precisará lutar para sobreviver. Com o objetivo de trazer calma e sensação de proteção, voluntários confeccionam polvos de crochê que são doados a recém-nascidos prematuros em hospitais de todo o Distrito Federal. O projeto Polvo de Amor, liderado por artesãs da Feira da Torre de TV, ajudou mais de 4 mil crianças, trazendo uma companhia ao isolamento das incubadoras quando o contato humano não é possível.

“Ver o seu filho ali, cheio de aparelhos e sem poder chegar perto gera um sentimento de total impotência”, desabafa a publicitária Bianca Romão. Momentos depois do parto, Benício Bianchi Romão foi direto para a UTI Neonatal e, no quarto dia de vida, chegou a ter uma parada cardíaca. Apesar do contexto de extrema angústia, foi graças a Benício que o projeto nasceu, em abril de 2017.

À época, a avó do menino, desesperada para conseguir acalentar o neto, foi à Torre de TV procurar alguém que confeccionasse um polvinho. Achou a artesã Márcia Elizabeth da Silva, 58 anos, que crochetava bichinhos. De moluscos, no entanto, ela não entendia nada. “Não sabia nem como fazia, para o que servia. Mas sabe quando você sente a dor do outro? Aquilo me tocou, e eu fui tentar ajudar”, explica Márcia.

Ela decidiu ir atrás de informações e descobriu que o pedido era inspirado em uma ação social praticada desde 2013, na Dinamarca. Tomou como base os padrões dos pioneiros e, em menos de 24 horas, doou o primeiro polvinho. Assim como Benício, outros 12 bebês se encontravam na mesma situação. “Como que eu ia deixá-los sem essa ajuda? Fui procurar gente para me ajudar e nunca mais parei”, conta a idealizadora.

Nos hospitais, a notícia de que os pequenos pacientes estavam ganhando companhia se espalhou. Com a demanda, vieram novos voluntários. Atualmente, mais de 60 pessoas, artesãos ou não, participam ativamente do projeto e produzem, por mês, 500 polvinhos.

Uma dessas voluntárias é a professora aposentada Evaneide Diamantino de Morais que, quando tinha 30 anos, sentiu na pele o medo de perder o filho, que nasceu de 32 semanas, com 1,8kg. “É dolorido, muito difícil. Vendo hoje pelo outro lado, percebemos como o polvo acaba sendo um conforto para a própria mãe, ao ver o filho bem”, afirma. Evaneide é uma das crocheteiras que realiza, também, a oficina para ensinar as mães a fazer crochê profissional, uma das ramificações do projeto. “A prática é terapêutica, acalma e ainda oferece um ofício, já que muitas delas são carentes”, conta. Sempre de 15 em 15 dias, às segundas-feiras, das 15h às 17h30, são realizadas oficinas nas maternidades.
 
 

Amor distribuído

Para a artesã e líder cultural Maria Socorro Madeira, os benefícios de ser voluntária não se aplicam somente às mães e aos filhos. “Quem ganha com tudo isso somos nós. É uma oportunidade poder mentalizar tanta energia boa e retransmitir pelo nosso trabalho, colocando nossas impressões, estilos, em cada um dos bichinhos.” Por esse motivo, nenhum deles é igual. Cada um passa por várias mãos e, aos poucos, a cabecinha, as oito patinhas, o rostinho e os acessórios formam a companhia que será entregue às menores das mãozinhas. Os macios tentáculos ajudam a evitar que os bebês puxem os fios e sondas, enquanto o corpinho serve como travesseiro, fazendo com que os pequenos se sintam abraçados.

Atualmente, o Polvo de Amor é o maior projeto de doação a prematuros do DF e praticamente todos os hospitais fazem contato com os responsáveis para solicitar novas demandas, incluindo unidades particulares. “Nosso compromisso é com o recém-nascido prematuro. Não importa onde esteja, a luta pela vida será a mesma e é nisso que pensamos”, garante Márcia Elizabeth.

No entanto, a iniciativa ainda não conseguiu empresários interessados em apadrinhar o projeto para ajudar com os custos dos materiais. É por meio de doações que ele se mantém. Muitas vezes, os próprios artesãos rifam peças próprias, como redes, colchas e roupas a fim de arrecadar mais novelos, já que são necessárias, por mês, 200 unidades para dar conta da demanda.

Quem quiser ajudar o projeto poderá fazer de duas formas: é possível doar linha 100% algodão ou ajudar na confecção dos polvinhos. Para aprender, é só participar das oficinas, que ocorrem todo terceiro sábado do mês, na Torre de TV. Para quem acha que não dá conta do recado, Márcia garante: “Não importa a idade e nem precisa ter experiência. Basta vir de coração aberto para que, no fim, essa força do amor consiga manter outro coraçãozinho batendo”.
 

Cuidados

Os moluscos são produzidos com linha 100% algodão e há dois tamanhos disponíveis: os maiorzinhos são para os bebês que vieram ao mundo com 32 semanas. Os que nasceram antes disso recebem os polvos menores. O bichinho de linha é individual e esterilizado pelo hospital, antes de ser entregue ao bebê. A cada cinco dias, o procedimento é refeito para que não haja contaminação. Ou seja, o paciente que precisar ficar mais do que esse período precisa receber duas doações.

Participe

Oficina de confecção de Polvo de Amor
16 de março, das 10h às 16h, ou todo terceiro sábado do mês Feira Artesanal da Torre de TV — SDC, Eixo Monumental Entrada Franca

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