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Correio Braziliense

Homem que invadiu secretaria: 'O Estado não me respeita como professor'

O professor teria dito a frase no momento em que era conduzido ao Hospital de Base, após o possível surto em tentativa de invasão à sede da Educação do DF; ele, que já tinha histórico de ameaças, foi afastado da função


postado em 16/03/2019 07:00 / atualizado em 16/03/2019 12:00

Policiais militares tiveram trabalho para conter o professor: em sua página no Facebook, ele defende e flexibilização do porte de armas (foto: Ana Rayssa/Esp. CB/D.A Press )
Policiais militares tiveram trabalho para conter o professor: em sua página no Facebook, ele defende e flexibilização do porte de armas (foto: Ana Rayssa/Esp. CB/D.A Press )
O professor de música de 53 anos detido na tarde de ontem após tentar entrar armado no gabinete do secretário de Educação do Distrito Federal, Rafael Parente, deverá se apresentar em juízo depois de deixar o hospital. Uma ocorrência de flagrante de porte de arma branca foi registrada na 5ª Delegacia de Polícia (Área Central), onde ele assinou um Termo de Compromisso de Comparecimento à Justiça. Em seguida, o servidor público foi levado ao Hospital de Base por uma equipe do Serviço de Atendimento Móvel de Urgência (Samu). Ele estaria tendo um surto.

A confusão começou às 12h, quando o professor entrou no Edifício Phenícia, no Setor Bancário Norte, onde fica uma das sedes da Secretaria de Educação. Funcionários desconfiaram do comportamento do homem, ao ver o cabo de uma besta — espécie de arco para disparar setas, mesma arma usada por um dos autores do massacre em Suzano (SP), na última quarta-feira — à mostra na mochila dele. Conhecido no prédio comercial, o servidor teve a entrada liberada na portaria e conseguiu chegar à antessala que leva ao escritório de Parente, no 12º andar, mas foi contido por um segurança, que acionou a Polícia Militar. Além da arma, encontraram uma faca de caça com o professor. O secretário não estava no prédio no momento do incidente.

A corporação informou que o homem resistiu à prisão. Além das armas, os militares encontraram um exemplar do livro A República, de Platão, na mochila do suspeito. “Por sorte, estávamos passando em frente ao prédio e, em um minuto, chegamos ao andar (onde estava o suspeito). Tivemos de usar de força para contê-lo, revistá-lo e imobilizá-lo. Ele afirmou que a EMB (Escola de Música de Brasília) está acabada e que queria mostrar para o secretário o que havia levado. Falou que só sairia de lá depois de conversar com ele (Rafael Parente). Possivelmente, queria mostrar as armas”, detalhou o sargento Ado Sousa, que participou da prisão.

O homem afirmou aos policiais que estava de licença médica e tomava remédios controlados. A informação, no entanto, não foi confirmada. O Correio apurou que o professor ficou afastado por todo o segundo semestre de 2018 da Escola de Música e havia voltado a dar aulas na última segunda-feira. Após ser liberado da 5ªDP, foi atendido por uma equipe médica e avaliado por uma psicóloga, ele foi levado de ambulância para o Hospital de Base. Novamente, o servidor resistiu e foi contido por militares. Amarrado à maca, gritou que não queria ir à unidade de saúde e, sim, à Secretaria de Educação. Por não ser atendido, repetia: “O Estado não me respeita como professor!”.


Reincidência


Esta não foi a primeira vez em que o professor esteve no prédio da pasta para reclamar sobre a EMB. “Ele veio outras vezes e sempre falava coisas subjetivas sobre as condições da escola. Queria falar com o secretário e procurou a Ouvidoria para fazer a reclamação”, contou um funcionário.

O secretário-adjunto de Educação, Mauro Oliveira, afirmou se tratar de um caso pontual. “A preocupação com ele (o suposto agressor) é grande, pois é professor e servidor. Acolhemos ele e a família para ajudar da melhor forma possível. Ele é um servidor; então, temos esse papel também”, observou. Mauro disse que a segurança do edifício será reforçada e que ainda não obteve informações sobre o histórico de saúde do servidor, uma vez que os dados são sigilosos. “Os policiais relataram apenas que ele estava, emocionalmente, muito abalado e nervoso”, completou Mauro.

No Twitter, Rafael Parente afirmou que o professor foi afastado da função, por meio de uma determinação do governador em exercício, Paco Britto (Avante), que também ordenou a abertura de um processo administrativo contra o servidor, integrante do quadro da Secretaria de Educação desde 1994. Graduado em música pela Universidade de Brasília (UnB) em 1987, ele também é músico concursado da Secretaria de Cultura e integrava o corpo da Orquestra Sinfônica do Teatro Nacional Claudio Santoro como violinista titular. No entanto, estava afastado havia dois anos por problemas de saúde.

Antes de se tornar professor da Escola de Música, ele foi aluno da instituição. Colegas dele relataram que há histórico de doenças de caráter psicológico envolvendo familiares do professor. No Facebook, o professor publicou imagens e textos defendendo a flexibilização do uso de armas e criticando a instituição de ensino.

Uma ex-aluna contou que as instabilidades emocionais dele se refletiam em sala de aula. “Ele era um professor brilhante, uma pessoa boa, mas esse desequilíbrio dele se manifestava de forma bem clara. Ele fez várias ameaças explícitas, inclusive ao maestro (Cláudio) Cohen. Chegou, inclusive, a gravar um vídeo e postar nas redes sociais passando uma faca no pescoço”. Segundo a ex-aluna, esta seria a mesma faca encontrada ontem pela PMDF.

Armas encontradas na mochila do docente, que também ameaça colegas(foto: Ana Rayssa/Esp. CB/D.A Press )
Armas encontradas na mochila do docente, que também ameaça colegas (foto: Ana Rayssa/Esp. CB/D.A Press )


Preocupação


Ao saberem da notícia, integrantes da orquestra demonstraram preocupação não só pelo colega de trabalho, mas pela integridade física de cada um. Regente principal do grupo, o maestro Cláudio Cohen afirmou que o problema é antigo. “É um colega de longa data que vinha apresentando distúrbios de temperamento e uma dificuldade muito grande de trabalhar em conjunto. Todos sempre tiveram muito carinho e atenção por ele; então, a notícia nos entristece”, comentou.

Mas o maestro afirmou se sentir aliviado. “Se fosse em um ensaio ou em uma apresentação, talvez um segurança não tivesse impedido um provável ataque. Por isso, medidas protetivas para os músicos e para o público estão sendo tomadas”, garantiu Cohen, que entrou em contato com o Secretário de Cultura, Adão Cândido, para tratar do caso.

O Correio preserva o nome do docente por se tratar de um possível caso clínico.

“Por sorte, estávamos passando em frente ao prédio e, em um minuto, chegamos ao andar (onde estava o suspeito). Tivemos de usar de força para contê-lo, revistá-lo e imobilizá-lo”
Ado Sousa, sargento da PM


Ameaças em colégios 


Ainda ontem, o secretário de Educação, Rafael Parente, afirmou que a pasta tem registrado casos de ameaças feitas por estudantes em escolas da rede pública. Segundo ele, quatro casos estão sob investigação. Estudantes estariam “fazendo ameaças e deixando recados escritos e nos banheiros” das instituições. Para não atrapalhar as investigações, Parente não deu mais detalhes. “É fato que estamos registrando alguns casos de ameaças de alunos. A Secretaria de Segurança e toda a inteligência do Governo do Distrito Federal estão em ação, dentro de algumas escolas e à paisana”, acrescentou.

A Polícia Militar também recebeu uma denúncia sobre uma escola na qual uma suástica foi desenhada em um quadro de avisos. Abaixo da imagem, uma mensagem alerta para um massacre previsto para 20 de março. O Batalhão Escolar realizará varreduras na unidade escolar, segundo a corporação. A Secretaria de Educação informou ainda que todos os professores passam por um trabalho preventivo de capacitação para aprenderem a lidar com situações de bullying, violência e mediação de conflitos. A pasta também prevê a criação de um pacote de medidas para tratar da macroviolência das escolas.

Colaborou Fernando Jordão

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