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Correio Braziliense

Safári urbano em Ceilândia mapeia pontos com problemas de acessibilidade

Ativistas de entidade do DF percorrem ruas, parques e estações para identificar barreiras de locomoção para pedestres e pessoas com deficiência. Os relatórios sobre a experiência serão encaminhados ao GDF


postado em 17/03/2019 08:00

Integrantes do grupo circularam com venda nos olhos, para constatar dificuldades enfrentadas por cegos(foto: Arthur Menescal/Esp. CB/D.A Press)
Integrantes do grupo circularam com venda nos olhos, para constatar dificuldades enfrentadas por cegos (foto: Arthur Menescal/Esp. CB/D.A Press)

Preocupado com a rotina dos pedestres, um grupo percorre as ruas do Distrito Federal para identificar problemas de acessibilidade, segurança e infraestrutura. Há dois anos, a Associação Andar a Pé — o Movimento da Gente começou a praticar o chamado safári urbano. Os ativistas vão a locais de grande circulação, como estações de metrô e terminais rodoviários, e simulam trajetos para apontar dificuldades. Em seguida, engenheiros e arquitetos da entidade encaminham sugestões de soluções ao Executivo.  
 
Na manhã de ontem, três grupos da entidade se reuniram nas estações de metrô Ceilândia Sul, Ceilândia Centro e no Terminal Rodoviário do Setor O. Eles percorreram a pé trechos próximos aos lugares e constataram diversos problemas de locomoção. O coordenador do projeto, Wilde Cardoso Gontijo Júnior, 57 anos, destaca que um dos objetivos da associação é a humanização das regiões. “Uma cidade com mais gente andando é mais adequada ao encontro de pessoas, à troca de conversas e à convivência”, ressalta.  
 
No Terminal Rodoviário do Setor O, por exemplo, o grupo encontrou diversos problemas nas ruas. Quem sai do local e tenta acessar a passarela da Estrutural, que liga Ceilândia a Águas Lindas de Goiás (GO), enfrenta empecilhos como falta de calçada, de sinalização e de iluminação. O trajeto é de chão batido e fica próximo a um terreno descampado, o que gera medo em quem passa por ali, principalmente à noite. Além disso, há falta de faixas para pedestres e um cadeirante dificilmente conseguiria passar por ali.  
 
Os representantes do grupo também vendam participantes do safári urbano, para simular as dificuldades de pessoas com deficiência. No fim do percurso, quem passou pela experiência apresenta um depoimento, que contribui para o relatório das dificuldades encontradas. “Nosso método é fazer com que as pessoas discutam como elas se sentem caminhando pela cidade. Sabemos que, com meios de locomoção acessíveis, todos passam a desfrutar dos espaços coletivamente”, afirma.  
 
Outro ponto monitorado pela entidade é a iniciativa privada. Os “fiscais” observam se os comerciantes respeitam as calçadas e se os lotes estão padronizados nas ruas. No Setor O, não é difícil encontrar lojas que invadem os espaços públicos. Durante o trajeto, foi possível ver um posto de gasolina que invadiu o espaço do pedestre e dezenas de estabelecimentos que se instalaram em cima das calçadas.  

Investimento 


No ano passado, o safári urbano também foi realizado no Plano Piloto. Wilde comenta que grupos percorreram as ruas do Setor Comercial Sul (SCS) e constataram uma série de problemas para os pedestres. “Apresentamos os relatórios ao Governo do Distrito Federal (GDF), no entanto, nunca tivemos retorno e eles também não tomaram providências”, lamenta. Nesta edição, o grupo conseguiu financiamento com o Fundo Social da Caixa. “Agora, além de pontuar os problemas, apresentaremos soluções”, frisou.  
 
O arquiteto Denys Mendes, 28 anos, participa do projeto e explica que, no fim do dia, todos os grupos que percorreram as cidades se reúnem e destacam os maiores problemas encontrados. Posteriormente, ele e mais três arquitetos vinculados à entidade vão se reunir e, com base no diagnóstico, vão elaborar soluções para as dificuldades encontradas por meio de mapas, plantas e produção de vídeos. “Em Ceilândia, notamos que existem pontos não muito acessíveis, postes no meio da calçada e não tem muito atrativo para os pedestres. Também notamos ausência de praças”, comenta.  
 
Além da acessibilidade, os envolvidos avaliam a distância das paradas de ônibus, a qualidade das calçadas, a presença de comércio, de ciclovias e de estacionamento para bicicletas. Iluminação e fluxo de veículos também entram para o relatório. Os grupos que percorrem as ruas são compostos de cinco a sete pessoas, que se reúnem no fim de cada trajeto para pontuar as adversidades encontradas.  
 
Para quem mora na cidade, a novidade foi celebrada. O borracheiro Wilson Silveira Soares, 45, reclama que a locomoção em Ceilândia é muito complicada. “O comércio cresceu e a circulação de pessoas também aumentou. Ninguém se atentou em construir mais locais para caminharmos”.
 
Wilson destaca que pessoas com deficiência encontram grande dificuldade para circular pela cidade. “O governo deveria ter mais atenção a isso. Tem trechos em que é impossível passar sobre uma cadeira de rodas”, diz. Para tentar se virar, o borracheiro realizou intervenções no próprio estabelecimento. “Construí uma rampa em frente à borracharia para facilitar a circulação.”
 
 

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