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Correio Braziliense

Marcola ficará isolado nos dois primeiros meses que passará em Brasília

Governo do Distrito Federal é pego de surpresa com a transferência da cúpula da facção criminosa para o Presídio de Segurança Máxima de Brasília. Ibaneis Rocha telefonou para o ministro da Justiça, Sérgio Moro, pedindo nova mudança do grupo


postado em 23/03/2019 07:00

Comboio entra no Presídio de Segurança Máxima de Brasília: nove viaturas e helicópteros escoltaram Marcola e outros três líderes de facção do aeroporto até a cadeia(foto: Ed Alves/CB/D.A Press)
Comboio entra no Presídio de Segurança Máxima de Brasília: nove viaturas e helicópteros escoltaram Marcola e outros três líderes de facção do aeroporto até a cadeia (foto: Ed Alves/CB/D.A Press)
A sexta-feira em Brasília começou com a prisão de oito acusados de integrar o Primeiro Comando da Capital (PCC). A Polícia Civil anunciou a operação como um duro golpe no crime organizado no Distrito Federal. Mas, para a surpresa das forças de segurança brasilienses e até do governador, Ibaneis Rocha (MDB), na hora do almoço, desembarcou no Aeroporto Internacional Juscelino Kubitschek o líder máximo da facção, Marcos Willians Herbas Camacho, o Marcola, de 51 anos.

Condenado a 232 anos e 11 meses de prisão pelos crimes de formação de quadrilha, homicídio e tráfico de drogas, ele veio de Porto Velho (RO), onde estava desde fevereiro, após deixar o Presídio de Segurança Máxima de Presidente Venceslau (SP) por suspeita de um plano de fuga. Marcola ficará no Presídio Federal de Brasília, anexo ao Complexo Penitenciário da Papuda, em São Sebastião, por, a princípio, um ano — sendo os dois primeiros meses, isolado. A nova morada de Marcola está a 15km da Praça dos Três Poderes. Com ele, a capital da República passa a abrigar também seus familiares, amigos e advogados.

Com Marcola, vieram outros três integrantes da cúpula do PCC, que também estavam em Porto Velho. Eles chegaram a Brasília escoltados em aeronaves da Força Aérea Brasileira (FAB), às 13h15 de ontem. A operação envolveu a Força Nacional, a Polícia Federal, a Polícia Rodoviária Federal, além de agentes do Departamento Penitenciário Nacional (Depen) e da Secretaria de Operações Integradas (Seopi) do Ministério da Justiça e Segurança Pública. Com apoio de helicópteros, nove picapes da Polícia Federal fizeram a escolta dos presos do terminal aéreo para o presídio federal, abrindo caminho pelas vias. Eles entraram na unidade de segurança máxima às 14h19.

O Presídio de Segurança Máxima de Brasília abriga três lideranças do PCC desde 13 de fevereiro, incluindo um irmão de Marcola, Alejandro Juvenal Herbas Camacho Júnior, conhecido como Marcolinha. O trio foi transferido em uma operação da Polícia Federal que removeu 22 integrantes da cúpula da facção de Presidente Venceslau (SP) para outros presídios federais, no intuito de desarticular o bando. À época, Ibaneis Rocha afirmou que ia cobrar apoio do governo federal para reforçar a segurança no DF e evitar a disseminação do PCC na capital do país.


Investigações


Surgida em São Paulo, a facção controla presídios brasileiros e tem ramificações em países vizinhos, como o Paraguai. Há, ao menos, 18 anos, as forças de segurança pública do DF tentam evitar a instalação do PCC na Papuda. Nesse período, encontraram manuais da facção no presídio, prenderam integrantes do grupo e fizeram outras ações contra a sua operação. Investigadores descobriram que membros do grupo compraram casas, terrenos e lojas no DF e cidades goianas do Entorno, onde eles comandam o tráfico de drogas e outras atividades criminosas, como os roubos a caixas eletrônicos com explosões.

Marcola conhece a Papuda. Em 2001, ele foi transferido da Penitenciária Modulada de Ijuí (RS) para o sistema prisional do DF, cumprindo ordens do juiz da cidade gaúcha. A partir de então, começaram as investidas do PCC no Distrito Federal. À época, aos 33 anos, ele era considerado o segundo homem na hierarquia da organização e ficou sozinho em uma cela na área de segurança máxima. Dezoito anos depois, o agora líder máximo do PCC ficará sozinho novamente. Dessa vez ao lado da Papuda, em uma cela de 6 metros quadrados, com banheiro.
 

Marcos Willians Herbas Camacho, o Marcola, na Papuda, em 2001(foto: Jose Varella/CB/D.A Press - 18/6/01 )
Marcos Willians Herbas Camacho, o Marcola, na Papuda, em 2001 (foto: Jose Varella/CB/D.A Press - 18/6/01 )
 


“Inadmissível”


O retorno de Marcola tornou-se uma preocupação para os responsáveis pela segurança pública do DF. Tanto que Ibaneis Rocha repudiou a vinda dele e de outros três líderes do PCC para a capital. “Marcola não tem lugar em Brasília. É inadmissível aceitar a instalação do crime organizado na capital da República. Tenho que zelar pela população do DF”, escreveu o governador em sua conta no Twitter. Ele está em São Paulo, onde se reúne com representantes do setor produtivo, em busca de investimentos para Brasília.

Ibaneis telefonou para o ministro da Justiça e da Segurança Pública, Sérgio Moro, para pedir ajuda. Também gravou um vídeo em que externou a crítica. “Eu quero deixar bem claro o meu repúdio a essa atitude do ministro Moro (Sérgio Moro)”, frisou. “O local dessas pessoas (líderes do PCC) é bem longe das cidades, das capitais. Esses bandidos precisam de isolamento. Não é a 6km do Palácio do Planalto que nós vamos ter esse isolamento”, acrescentou.

Por meio de nota oficial, o Ministério da Justiça e da Segurança Pública informou que a vinda de Marcola e dos outros presos para Brasília “é parte dos protocolos de segurança pública relativa à alternância de abrigo dos detentos de alta periculosidade ou integrantes de organizações criminosas, entre as unidades prisionais federais.” Segundo o Governo Federal, a medida é estratégica para o isolamento de lideranças “e fundamental para o enfrentamento e o desmonte de organizações criminosas.” A pasta ainda frisou que a Força Nacional reforçará a proteção do perímetro das áreas que contornam a Penitenciária Federal de Brasília.

Mas o secretário de Segurança Pública do DF, Anderson Torres, diz que a permanência da Força Nacional ao redor do presídio de segurança pública é insuficiente. “Precisamos de aumento de recursos humanos, de armamento, de recursos de material e investir na segurança de São Sebastião”, afirmou. Ele também ressaltou a necessidade de se investir em inteligência das forças de segurança pública. “Em um momento de crise financeira, precisamos de apoio nessa área.”


“Atentado”


A seccional da Ordem dos Advogados do Brasil no DF (OAB-DF) enviou um ofício a instituições responsáveis pela segurança pública propondo a desativação do Presídio Federal de Brasília. “Do contrário, vários Marcolas vão continuar sendo transferidos para a capital que abriga os três poderes e representações diplomáticas de todo o mundo. As consequências de um atentado em Brasília seriam muito mais graves do que em outro local do país”, destacou o presidente da seccional, Délio Lins e Silva Júnior.

Como alternativa para reembolsar à União os investimentos aplicados na construção do presídio federal, a OAB-DF propôs ao Executivo local que abdique de R$ 40 milhões do Fundo Constitucional para que uma nova unidade seja construída em outra unidade da Federação. O prédio instalado no DF seria integrado ao Complexo da Papuda para receber presos da região. O secretário de Segurança Pública concorda. “Poderíamos usá-lo para colocar presos faccionados da Papuda, presos por corrupção ou os próprios federais que ficam em uma ala separada no Complexo Penitenciário da Papuda”, afirmou Anderson Torres.

Assaltos

Ele havia sido detido por roubos a bancos e a carros-fortes. Mas, mesmo na prisão, continuou no comando do mundo do crime, sendo condenado por formação de quadrilha, homicídio e tráfico de drogas.

"Marcola não tem lugar em Brasília. É inadmissível aceitar a instalação do crime 
organizado na capital da República. Tenho que zelar pela população do DF”

Ibaneis Rocha, governador do DF
 
 

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