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Correio Braziliense

Líder do PCC preso no DF, Marcola ficará isolado por mais 14 dias

Líder do Primeiro Comando da Capital vai ficar no Regime Disciplinar Diferenciado por ao menos mais 14 dias, quase incomunicável. Direção do presídio garante não haver risco de fuga, rebelião ou ataques orquestrados


postado em 28/03/2019 06:00 / atualizado em 27/03/2019 23:23

Policiais armados com metralhadoras e fuzis monitoram os detentos no solo e em quatro torres de segurança, onde atiradores de elite ficam permanentemente a postos (foto: Ed Alves/CB/D.A Press )
Policiais armados com metralhadoras e fuzis monitoram os detentos no solo e em quatro torres de segurança, onde atiradores de elite ficam permanentemente a postos (foto: Ed Alves/CB/D.A Press )

 

Isolado em uma cela de 14 metros quadrados, sem TV ou rádio nem direito a banho de sol. São oferecidas seis refeições por dia. As visitas de familiares estão proibidas. A única visão do mundo externo é por meio de uma fresta na parte mais alta do cubículo, por onde entram fachos da luz solar. Essa é a condição imposta a Marcos Willians Herbas Camacho, o Marcola, líder do Primeiro Comando da Capital (PCC), na Penitenciária Federal de Brasília. Desde que vieram de Rondônia, na sexta-feira, ele e outros três integrantes da cúpula da facção estão no Regime Disciplinar Diferenciado (RDD).

A princípio, o quarteto vai ficar 20 dias no RDD, mas o período pode ser prorrogado. Marcola é classificado como um interno “doutrinado”. Obedece aos comandos, cumpre as regras e não apresenta nenhuma resistência. Mas, mesmo se deixar o RDD, não poderá ter conversas reservadas. Todos os encontros dos detentos, seja com advogados, seja com parentes, são feitos em um parlatório e as conversas são gravadas. As visitas acontecem semanalmente e duram três horas.

Corredor de um dos quatro pavilhões da Penitenciária Federal de Brasília: complexo abriga sete integrantes da cúpula do PCC (foto: Ed Alves/CB/D.A Press )
Corredor de um dos quatro pavilhões da Penitenciária Federal de Brasília: complexo abriga sete integrantes da cúpula do PCC (foto: Ed Alves/CB/D.A Press )
 
Inaugurada em outubro e com capacidade para 208 vagas, a Penitenciária Federal de Brasília é destinada a líderes de organizações criminosas, presos de alta periculosidade que não integram o crime organizado e delatores. Desde fevereiro, ela recebeu sete líderes do PCC, incluindo Alejandro Juvenal Herbas Camacho Júnior, o Marcolinha, irmão do número 1 da facção. Alegando questão de segurança, nenhum responsável informa a quantidade de internos nem de agentes federais a serviço no complexo.

(foto: Ed Alves/CB/D.A Press )
(foto: Ed Alves/CB/D.A Press )
 

Vigilância

Em meio às críticas do GDF pela transferência do líder do PCC para Brasília, o Ministério da Justiça e Segurança Pública abriu as portas da Penitenciária Federal para a imprensa, ontem de manhã. Os repórteres puderam constatar o esquema de vigilância e as condições do presídio. Mas ninguém pôde entrevistar qualquer detento.

Na visita guiada, todos tiveram de passar por três detectores de metal, assim como qualquer pessoa que acessa o presídio. No portal principal, o primeiro identificador busca objetos metálicos maiores e aparentes. Antes de entrar no prédio, o visitante passa por um segundo pórtico, um scanner corporal. Ao se aproximar dos blocos onde estão os presos, há a terceira e última vistoria para identificar objetos pequenos.

Interno fica sozinho, em cela de 6m², sem disjuntores nem tomadas: uniforme, pasta de dente, desodorante, repelente, sabão líquido, sabonete (foto: Ed Alves/CB/D.A Press )
Interno fica sozinho, em cela de 6m², sem disjuntores nem tomadas: uniforme, pasta de dente, desodorante, repelente, sabão líquido, sabonete (foto: Ed Alves/CB/D.A Press )
 
Quem não está em RDD tem duas horas por dia de banho de sol. É o único momento do dia que eles têm contato físico e visual. O limite é de até 13 pessoas no pátio, mas guardas só permitem a comunicação de até três presos juntos. Outros policiais monitoram os detentos em quatro torres de segurança, acompanhados de atiradores de elite.

(foto: Ed Alves/CB/D.A Press )
(foto: Ed Alves/CB/D.A Press )
 
Nas celas comuns, com 6m² cada e onde fica só um detento, há cama em concreto armado, duas prateleiras que servem para os internos fazerem refeições e apoiarem produtos de higiene, além de uma pia e uma bica por onde tomam banho aquecido, controlado por agentes. Não há disjuntores nem tomadas. As paredes não podem ser riscadas. Os internos recebem um kit com uniforme, de cor azul-clara, pasta de dente, desodorante, repelente, sabão líquido, sabonete, um par de chinelos e outro de tênis. A luz é ligada às 7h e desligada às 22h.

A única atividade permitida no recinto é a leitura. Mas, mesmo assim, os presos não vão à biblioteca. Os agentes entregam a eles uma lista de possíveis livros. Os internos escolhem, e os títulos mantidos na penitenciária são entregues a eles. Antes, porém, passam por uma vistoria, assim como no ato da entrega. Entre os exemplares há o do clássico Crime e Castigo, de Fiódor Dostoiévsk.

Perfil

Mais de 300 anos de condenação


Condenado a mais de 300 anos de prisão pelos crimes de formação de quadrilha, roubo, tráfico de drogas e homicídio,  Marcos Willians Herbas Camacho, o Marcola, é o líder do Primeiro Comando da Capital (PCC). Ele fundou a facção com Idemir Carlos Ambrósio, o Sombra, na Custódia de Taubaté, em São Paulo. O objetivo da organização era o combate a abusos do sistema prisional paulista e vingar a morte dos 111 presos mortos no Carandiru.

Órfão aos 9 anos, Marcos Willians andava pelas ruas de São Paulo roubando carteiras e aparelhos de rádio. Aos 18 anos, foi preso por roubo a banco e trancafiado no Complexo do Carandiru, onde se juntou aos primeiros integrantes do grupo que estava no começo, mas se tornaria um negócio do crime, alcançando praticamente todos os estado. À frente da maior facção criminosa do país, Marcola organizou o domínio dos presídios paulistas, que reúnem 231 mil detentos, maior contingente de pessoas reclusas no Brasil.

No entanto, Marcola sempre rebateu as afirmações de que comanda o PCC. “Não existe um ditador. Embora a imprensa fale, romanticamente, que existe um cara, o líder do crime. Existem pessoas esclarecidas dentro da prisão, que com isso angariam a confiança de outros presos”, declarou o condenado, em audiência pública na CPI do Tráfico de Armas, em 2006.

Essa é a segunda passagem de Marcola por Brasília. Em 2001, ele desembarcou na capital vindo da Penitenciária Modulada de Ijuí (RS). Na Papuda, mesmo isolado, Marcola escolheu aliados de confiança e criou um braço do PCC, denominado Paz, Liberdade e Direito (PLD). Em 18 de outubro de 2001, explodiu a última rebelião no sistema carcerário brasiliense. Desde então, as polícias do DF tentam impedir a instalação de uma célula do PCC no presídio candango.


Povo fala

(foto: Fabiola Testi/Esp. CB/D.A Press)
(foto: Fabiola Testi/Esp. CB/D.A Press)

“A partir do momento que a capital federal constrói um presídio, sou a favor de trazer os criminosos pra Brasília. Brasília tem bastante segurança pra comportar um bandido desse porte.” 

José de Macedo Filho, motorista, morador de Ceilândia
 
(foto: Fabiola Testi/Esp. CB/D.A Press )
(foto: Fabiola Testi/Esp. CB/D.A Press )

“A gente precisa dar nossa contribuição para o sistema penitenciário. Apesar de ser um criminoso de alta periculosidade, Brasília tem estrutura pra receber o Marcola.” 

Elinaldo Paes da Conceição, economista, moradora de Águas Claras
 
(foto: Fabiola Testi/Esp. CB/D.A Press )
(foto: Fabiola Testi/Esp. CB/D.A Press )

“Tudo depende da segurança. No momento, os encarregados precisam ter cautela, independentemente do criminoso. Tenho certeza de que o presídio do DF é qualificado para abrigar criminosos do PCC”. 

Erivaldo da Silva Cunha, auxiliar de escritório, morador de Taguatinga Norte
 
(foto: Fabiola Testi/Esp. CB/D.A Press )
(foto: Fabiola Testi/Esp. CB/D.A Press )

“O verdadeiro impacto vai ser para Porto Velho, de onde ele saiu. Na época que houve transferência de bandidos do Rio Grande do Sul, os índices de homicídios lá, ligados ao PCC, diminuíram.” 

Nei Fernando Marques, procurador estadual, morador de Águas Claras.

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