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Correio Braziliense

Crime bárbaro no Paranoá é o sétimo feminicídio registrado este ano no DF

No domingo, uma mulher foi assassinada na frente do filho pelo ex-companheiro, que depois se suicidou


postado em 01/04/2019 06:00 / atualizado em 01/04/2019 10:04

O crime foi cometido na sala da casa onde a mulher morava, no Paranoá(foto: Alexandre de Paula/CB/D.A Press)
O crime foi cometido na sala da casa onde a mulher morava, no Paranoá (foto: Alexandre de Paula/CB/D.A Press)
O Distrito Federal registrou, no domingo (31/3), o sétimo caso de feminicídio de 2019. No Paranoá, um homem, insatisfeito com o término de um relacionamento de dois anos, matou a mulher na frente de um dos filhos do casal, de 1 ano, e se suicidou logo depois. Familiares se dizem surpresos com o crime, mas, de acordo com a Polícia Civil, todos os detalhes sugerem que a ação foi premeditada e motivada por ciúmes. A vítima, Isabella Borges, tinha 25 anos e trabalhou até o ano passado como professora. 

O autor do crime era ainda mais novo: Mateus Galheno, 22, trabalhava como vigilante noturno em uma lanchonete da região. O relacionamento dos dois, que moraram juntos por dois anos, acabou cerca de um mês atrás. A razão foi justamente a agressividade de Matheus que, segundo depoimento de familiares à Polícia Civil, passou a demonstrar muita irritação depois do nascimento dos filhos (um casal de gêmeos).

Em uma das últimas brigas, Matheus agrediu o menino, que ficou com um vergão no braço. Depois do desentendimento, Isabella decidiu se separar. Ainda assim, mantinha proximidade com o ex-companheiro. Matheus cuidava das crianças durante o dia e levava Isabella para um estágio, no Plano Piloto. Por isso, era comum que continuasse a visitar a casa onde morava antes.

Matheus Galheno e Isabella Borges com os filhos, de 1 ano(foto: PCDF/Divulgação)
Matheus Galheno e Isabella Borges com os filhos, de 1 ano (foto: PCDF/Divulgação)
Na última quinta-feira (28/3), um episódio trouxe a agressividade de Matheus novamente à tona. Ele viu Isabella ao lado de outro homem (com quem ela havia  iniciado um relacionamento), começou a xingá-la e gravou um vídeo. Enviou as imagens e uma série de ofensas para a irmã mais velha da vítima, Rosana, dona da casa onde moravam. Na manhã de ontem, Matheus foi recebido pela própria Isabella na residência, no Paranoá. “Era normal ele ir até lá visitar as crianças ou buscá-las”, conta a delegada Jane Klébia, da 6ª Delegacia de Polícia (Paranoá).

Os outros familiares ainda dormiam enquanto os dois conversavam na sala. Com uma pistola calibre .38 nas mãos, ele começou a ameaçar a ex-mulher na frente do casal de gêmeos. A irmã mais velha da vítima contou à polícia que ouviu gritos: “Ele vai me matar na frente dos meus filhos”, dizia Isabella, em desespero. Matheus pediu que tirassem as crianças dali. A irmã conseguiu levar um deles —  o menino — para dentro. Isabella, no entanto, não quis largar a menina. “Como ele pediu para tirar as crianças, ela pensou que, se ficasse com a filha, ele não teria coragem de matá-la”, explica a delegada.

De dentro da casa, os irmãos de Isabella tentaram acionar a polícia, mas não houve tempo suficiente. Mesmo com a filha nos braços da ex-mulher, Matheus atirou em um dos olhos de Isabella. Depois, disparou contra a própria cabeça. Ele foi levado pelo Corpo de Bombeiros para o Hospital Regional do Paranoá, mas não resistiu. Como o autor do crime está morto, as investigações têm o objetivo de identificar a origem da arma e se alguém ajudou Matheus.

Ele é filho de um policial militar reformado e não tinha antecedentes criminais. A delegada Jane Klébia descarta que a arma usada possa ter vindo do pai. A delegada destaca a importância de que, em caso de violência doméstica, as vítimas denunciem aos primeiros sinais de agressividade. “As pessoas nunca acham que vai chegar a esse ponto. O feminicídio é um crime que não é possível de ser previsto pela polícia e depende de conscientização para diminuir.”

A aposentada Maria das Neves Silva, 72, mora ao lado da casa onde o crime foi praticado. Ela conta que, ao longo da semana, ouviu diversas brigas. “Eram dois meninos novos, então achávamos que era discussão normal de casal”, explica. Ontem, chegou a ouvir os pedidos de socorro. “Não pensei que fosse algo grave e, hoje, a violência é tão comum que a gente às vezes ignora.” Maria e outros vizinhos e conhecidos contam que Isabella era uma menina tranquila, bem-vista por todos. “Ela era uma pessoa dócil, educada, muito trabalhadora”, diz o auxiliar de enfermagem Humberto Pereira dos Santos, 33, outro vizinho.
 

Tentativa de assassinato

Diogo Ramos de Jesus, 31 anos, não aceitava o fim do relacionamento com Adriana Cardoso Paiva, 36, e jogou solvente na ex-companheira no Setor Habitacional Taquari. Segundo a Polícia Militar, o suspeito foi até a casa da vítima e jogou o produto químico nela. Adriana foi resgatada pelo Corpo de Bombeiros e encaminhada para o Hospital de Base, em estado grave. Ela teve queimaduras de segundo e terceiro graus no rosto, no tórax, nos seios, no braço, nas pernas e no couro cabeludo. Diogo foi localizado a poucos quilômetros do local do assassinato e preso em flagrante. Ele não teve ferimentos e confessou o crime.

Balanço de segurança pública

Entre 2015 e 2018, 68 feminicídios foram cometidos no Distrito Federal, de acordo com balanço da Secretaria de Segurança Pública. Os números, divulgados na última semana revelam que, dos 68 autores desse tipo de crime, 11 cometeram suicídio e 18 foram condenados. Segundo o estudo, a média de idade deles é de 38,5 anos, sendo que o mais velho tinha 80 anos. Em 20% dos casos, as mulheres estavam sob medida protetiva. Quase 30% estavam em processo de separação, e 42,6% eram agredidas de maneira recorrente. Segundo a pesquisa, apenas 27,9% das vítimas tinham registrado queixas por agressões. Enquanto isso, 54,4% dos assassinos acumulavam antecedentes criminais.

É preciso um debate sério


(foto: Arquivo pessoal)
(foto: Arquivo pessoal)
"A sociedade brasileira precisa encarar a discussão sobre feminicídio como um debate público sério. Os casos são cada vez mais violentos e recorrentes. Precisamos de campanhas que discutam o tema, precisamos falar sobre medidas protetivas, sobre a estrutura das delegacias. Há algum tempo, ocorre uma precarização de políticas públicas de enfrentamento da violência contra a mulher. É preciso falar sobre isso nas escolas, ter uma proposta de educação não sexista. Hoje, há um discurso de intolerância que é contra esse debate. Se não podemos sequer falar disso nas escolas, que perspectiva temos de enfrentar esse problema?"

Jolúzia Batista, socióloga do Centro Feminista de Estudos e Assessoria (Cfemea)




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