Cidades

Artigo: O próximo

Anderson Costolli
postado em 19/04/2019 07:00
Ilustração de cruz com rostos de pessoas
Se tem uma coisa que sempre me chamou atenção nas pessoas foi a contradição em que elas caíam em seus discursos. Nasci e fui criado dentro da Igreja Católica Apostólica Romana. Na teoria, um lugar onde aprende-se a amar e a respeitar o ;irmão; acima de absolutamente qualquer coisa. O maior ensinamento de Cristo, o Messias seguido e adorado pelas religiões cristãs, é amar ao próximo como a si mesmo. Em tempos de Quaresma, os 40 dias em que Deus Filho passou no deserto, orando e jejuando, antes da Páscoa, os cristãos fazem uma série de ;tarefas; que chamam de penitências. Alguns deixam de comer chocolate, outros, carne vermelha. Certas pessoas se abstêm de refrigerantes. Mas vejo poucos cristãos usando o tempo para refletir, pensar no amor e colocá-lo em prática.

Hoje, Sexta-feira da Paixão, é o dia em que Cristo é crucificado, segundo a fé católica. Se tem um dia de sofrimento desde a Quarta-feira de Cinzas, quando se inicia o maior período de solidão de Cristo, é hoje. E os cristãos tendem a reproduzir essa angústia na forma de jejum e oração. Nas paróquias, o sacrário ; onde são guardadas as hóstias ; fica vazio e a luz do altar é apagada, em um claro sinal de luto. É um rito triste, mas cheio de simbolismo. E a ideia é trazer esses significados todos para a vida real. Aprender com a dor do outro. Tentar praticar a empatia. Pensar na dor de outra pessoa, que não a sua.

Mas não. Não vejo isso acontecer a cada esquina, como supostamente ocorre dentro de igrejas. E o número de pessoas com Bíblia nas mãos é incompatível com a quantidade de cristãos se compadecendo do próximo. O que vejo é a Dra. Beatriz humilhar o Seu Zé da portaria. Vejo o Sr. Cláudio gritar com a Dona Raimunda na cozinha. Assisto ao número de feminicídios crescer. Os casos de homofobia. De racismo. Mas de amor ao próximo? Muito pouco, infelizmente. E se há tantas pessoas que se dizem cristãs, que seguem os ensinamentos do amor, por que não é esse o sentimento que prevalece nas ruas, nas escolas, nos ambientes de trabalho? Afinal, onde está a cristandade dos cristãos? Apenas nas palavras e dentro dos templos religiosos?

A Semana Santa está chegando ao fim. Hoje, o dia da morte do Cristo, desejo que cada um pense e repense nos sofrimentos Dele, é claro. Mas que reflita, também, nas dores do vizinho, do morador em situação de rua, das vítimas da violência. E que, se possível, faça algo para amenizar esse calvário tão penoso. Afinal, o Domingo de Páscoa se aproxima, e é lá que as esperanças se renovam e que o Deus vivo volta à vida após descer ao inferno e vencer a morte. Que possamos ressuscitar nossa humanidade junto Dele. E sermos pessoas melhores.

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