Publicidade

Correio Braziliense

Artigo: O próximo


postado em 19/04/2019 07:00

(foto: Fernando Lopes/CB/D.A Press)
(foto: Fernando Lopes/CB/D.A Press)
 
Se tem uma coisa que sempre me chamou atenção nas pessoas foi a contradição em que elas caíam em seus discursos. Nasci e fui criado dentro da Igreja Católica Apostólica Romana. Na teoria, um lugar onde aprende-se a amar e a respeitar o “irmão” acima de absolutamente qualquer coisa. O maior ensinamento de Cristo, o Messias seguido e adorado pelas religiões cristãs, é amar ao próximo como a si mesmo. Em tempos de Quaresma, os 40 dias em que Deus Filho passou no deserto, orando e jejuando, antes da Páscoa, os cristãos fazem uma série de “tarefas” que chamam de penitências. Alguns deixam de comer chocolate, outros, carne vermelha. Certas pessoas se abstêm de refrigerantes. Mas vejo poucos cristãos usando o tempo para refletir, pensar no amor e colocá-lo em prática.

Hoje, Sexta-feira da Paixão, é o dia em que Cristo é crucificado, segundo a fé católica. Se tem um dia de sofrimento desde a Quarta-feira de Cinzas, quando se inicia o maior período de solidão de Cristo, é hoje. E os cristãos tendem a reproduzir essa angústia na forma de jejum e oração. Nas paróquias, o sacrário — onde são guardadas as hóstias — fica vazio e a luz do altar é apagada, em um claro sinal de luto. É um rito triste, mas cheio de simbolismo. E a ideia é trazer esses significados todos para a vida real. Aprender com a dor do outro. Tentar praticar a empatia. Pensar na dor de outra pessoa, que não a sua.

Mas não. Não vejo isso acontecer a cada esquina, como supostamente ocorre dentro de igrejas. E o número de pessoas com Bíblia nas mãos é incompatível com a quantidade de cristãos se compadecendo do próximo. O que vejo é a Dra. Beatriz humilhar o Seu Zé da portaria. Vejo o Sr. Cláudio gritar com a Dona Raimunda na cozinha. Assisto ao número de feminicídios crescer. Os casos de homofobia. De racismo. Mas de amor ao próximo? Muito pouco, infelizmente. E se há tantas pessoas que se dizem cristãs, que seguem os ensinamentos do amor, por que não é esse o sentimento que prevalece nas ruas, nas escolas, nos ambientes de trabalho? Afinal, onde está a cristandade dos cristãos? Apenas nas palavras e dentro dos templos religiosos?

A Semana Santa está chegando ao fim. Hoje, o dia da morte do Cristo, desejo que cada um pense e repense nos sofrimentos Dele, é claro. Mas que reflita, também, nas dores do vizinho, do morador em situação de rua, das vítimas da violência. E que, se possível, faça algo para amenizar esse calvário tão penoso. Afinal, o Domingo de Páscoa se aproxima, e é lá que as esperanças se renovam e que o Deus vivo volta à vida após descer ao inferno e vencer a morte. Que possamos ressuscitar nossa humanidade junto Dele. E sermos pessoas melhores.

Os comentários não representam a opinião do jornal e são de responsabilidade do autor. As mensagens estão sujeitas a moderação prévia antes da publicação

Publicidade