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Correio Braziliense

Amor e fé que levam fiéis ao realismo da Via-Sacra do Morro da Capelinha

1,4 mil voluntários participam da organização do evento, que ocorreu na Sexta-feira Santa, em Planaltina


postado em 19/04/2019 21:00 / atualizado em 20/04/2019 08:28

Encenação durou mais de quatro horas e teve participação de 900 atores(foto: Ed Alves/CB/D.A. Press)
Encenação durou mais de quatro horas e teve participação de 900 atores (foto: Ed Alves/CB/D.A. Press)


Por trás do espetáculo religioso, milhares de pessoas movidas pela fé se dedicam por meses para fazer a Via-Sacra do Morro da Capelinha, em Planaltina. Desde as primeiras horas da manhã os 1,4 mil voluntários já estavam de pé, preparando-se para fazer o evento. A equipe de costura se concentrava nos últimos ajustes e os maquiadores faziam parecer reais os machucados de Cristo e as feridas abertas de leprosos, mendigos e ladrões.
 
Centenas de voluntários também trabalhavam no apoio, fornecendo comida, fazendo a limpeza, indicando onde cada uma das 72 coordenações deveria se posicionar. Após uma oração coletiva, todos os participantes saíram em 15 ônibus, em direção ao Morro da Capelinha. Era hora de começar o espetáculo. Por mais de quatro horas, essas pessoas foram os responsáveis por fazer evento acontecer, arrastando mais de 100 mil fiéis, segundo a coordenação do evento. A Polícia Militar do Distrito Federal, porém, fala em 15 mil.

Olhares curiosos, guarda-chuvas, cadeiras, crianças sob os ombros dos pais tomaram o trajeto. A mistura do cansaço e emoção que traduz o inexplicável: o mistério da fé.
 
Apesar de reutilizar boa parte dos materiais, os voluntários pensam e elaboram novos detalhes para cada edição. O artesão e produtor de eventos Valteristar Maciel é responsável por fazer a coroa de Cristo, peça que é refeita todos os anos. Há mais de uma década,  é ele quem faz a coroa com as próprias mãos. 
 
São necessárias mais de oito horas para fazê-la e os últimos retoques são dados momentos antes de coroar "Jesus de Nazaré, o Rei dos judeus" — significado das letras gravadas em cima da cruz. "Participo do evento desde a adolescência. Hoje eu produzo o que fere a cabeça do Senhor. Antes, fui o anjo que abre o sepulcro do Deus ressuscitado. Esse é o mistério da nossa fé e tudo o que a gente faz é para ajudar a levar a verdade, evangelizar", diz, orgulhoso.
 
Ver galeria . 44 Fotos Ed Alves/CB/D.A Press
(foto: Ed Alves/CB/D.A Press )
 
 
A dona de casa Maria de Lurdes Maciel, 69, participou da coordenação da primeira edição da Via-Sacra. Ela interpretou Maria, a mãe de Jesus, oito vezes, e hoje coordena a equipe de costura. "Estar na presença de Deus dessa forma me ajudou a superar cada obstáculo e a criar meus filhos", conta. Como forma de agradecimento, a costureira se dedica ano após ano ao espetáculo nos bastidores. "É sempre um desafio. A gente acha que não vai dar tempo, mas mesmo na nossa fraqueza, Deus se faz presente e traz a força que só Ele tem", diz, emocionada.
 
Amor, realismo e fé são os três pilares que fazem com que o desejo de participar de cada edição passe de geração a geração. "Meu falecido pai, quem me apresentou essa forma de me aproximar de Cristo. Sinto muito orgulho em ver meus três filhos e minha esposa juntos aqui comigo", conta o técnico de instalação de antenas, Rogério Vasconcelos, 36. Segundo o primogênito João Vasconcelos, 18, o desejo de participar vai muito além da tradição. 'É por amor a Deus".
 
A família do empresário Gilliard da Silva, 37, também ajuda a fazer da Via-Sacra um grande espetáculo e um momento de evangelização. Além de participar todos os anos, Gilliard também sobe e desce descalço o Morro da Capelinha. "Nasci quase cego e minha mãe fez essa promessa, me levando no carrinho pela primeira vez. Então foram 37 penitências, sem falhar nenhum ano. Hoje enxergo tudo, principalmente o amor de Deus”. 
 
Gilliard interpretou pela quinta vez o centurião, soldado que açoita Jesus. “É uma reflexão todas as vezes que faço esse papel. Quantas vezes eu bati em Jesus de outra forma ao longo da rotina: murmurando, deixando de agradecer. É momento de pedir perdão e de colocar toda minha dedicação em prol do evangelho”, reflete. 
 
 
 
Apesar das encenações sempre narrarem a trajetória da condenação de Jesus até a crucificação, morte e ressurreição, todos os anos há um tema novo que permeia todo o espetáculo. Este ano, o pano de fundo foi Pedro, o apóstolo cuja missão é edificar a igreja. É também ele quem, em um momento de fraqueza, nega a Jesus três vezes e, depois, se arrepende. 
 
Participante ativo há quase quatro décadas, empresário Wanderley Jorge Moreira, 59, interpretou o personagem tema de 2019. “Recebi uma responsabilidade maior de evangelizar. Precisei me espiritualizar mais ainda para conseguir transmitir um pouco desse amor de Deus. Mas foi Ele quem agiu por mim”, afirma.
 
Após a morte e retirada do corpo de Jesus da cruz, a coordenação do evento foi quem manteve o público unido por aproximadamente 30 minutos, enquanto Marcelo Augusto (ator que interpretou Jesus) trocava o figurino para realizar um dos momentos mais esperados da noite: a ressurreição. Às 21 hora, no alto do Morro da Capelinha, Jesus vivo fez muitas pessoas se emocionarem. “Ninguém nos ama como Ele nos ama. Foi por mim e por cada um de nós que ele se fez homem e se submeteu à morte de cruz. Foi pra nos salvar”, explica o padre Xavier. 

Ao final da celebração, os corpos cansados de cada um dos voluntários não escondiam o semblante de emoção e satisfação por contribuir para mais uma edição da encenação religiosa que é considerada a maior do Brasil e é patrimônio cultural imaterial do DF. “Realmente valeu a pena. Tocamos vários corações e apresentamos o evangelho para quem precisa”, finaliza Marcelo Augusto. 

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