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Correio Braziliense

Feminicídio: mulher tenta proteger irmã e acaba morta pelo cunhado, no Gama

Crime aconteceu no domingo de Páscoa e é o nono caso de feminicídio no DF este ano. O acusado foi preso em flagrante e teve prisão preventiva decretada nesta segunda-feira


postado em 22/04/2019 12:34 / atualizado em 22/04/2019 20:24

O prédio onde o crime aconteceu (E) e a casa onde Eliane morava(foto: Caroline Cintra/Esp.CB/D.A Press)
O prédio onde o crime aconteceu (E) e a casa onde Eliane morava (foto: Caroline Cintra/Esp.CB/D.A Press)
Enquanto muitos descansavam depois do domingo de Páscoa (21/4), uma tragédia acontecia no Setor Leste do Gama, aumentando as estatísticas de feminicídio no Distrito Federal. Por volta das 23h40, ao tentar defender a irmã de um ataque, Eliane Maria Sousa, 49 anos, acabou morta a facadas. O acusado é o cunhado dela, o açougueiro Josué Pereira da Silva Filho, 47.

Eliane tentava proteger a irmã quando foi atingida pelos golpes de faca(foto: Divulgação / PCDF)
Eliane tentava proteger a irmã quando foi atingida pelos golpes de faca (foto: Divulgação / PCDF)
Segundo familiares disseram ao Correio, uma sobrinha de 12 anos chegou à casa de Eliane assustada . Ela disse à tia que a mãe estava sendo agredida e pediu ajuda. Eliana foi então até o apartamento da irmã para defendê-la e acabou sendo ela a vítima.

Ao delegado-coordenador de plantão da 20ª Delegacia de Polícia (Gama), Vander Braga, a irmã de Eliane disse que estava em casa com os dois filhos, de 12 e de 17 anos, e o companheiro. Segundo ela, o acusado estava bebendo e passou a ficar agressivo, como era costume nessas ocasiões. 

Depois que ele pegou uma faca, a filha de 12 anos correu para a casa da tia para pedir ajuda. Ainda segundo o relato da irmã da vítima, assim que chegou, Eliane viu o casal discutindo e Josué com a faca na mão. Ela ficou entre os dois e acabou atingida no peito. Um sobrinho da vítima, de 26 anos, chegou no local do crime e conseguiu conter o agressor, que saiu correndo. Na rua, populares lincharam Josué, que ficou completamente machucado. 
 
Eliane é a nona vítima de feminicídio em 2019 no Distrito Federal. O velório será amanhã (23/4), a partir das 9h, no cemitério do Gama. O sepultamento está marcado para às 11h30.

"Muito gente boa"

A Polícia Militar foi chamada e prendeu Josué em flagrante. A ocorrência foi registrada na 20ª Delegacia de Polícia (Gama). Como ele estava ferido, foi levado ao HRG, onde permanecia internado na manhã desta segunda-feira (22/4). Depois voltou para a delegacia, onde prestou mais um depimento.
 
Na rua, amigos e vizinhos lembram de Eliane como uma pessoa tranquila e que se dava bem com todos. "Ela era muito gente boa. Crescemos juntos aqui na rua. Sempre moramos aqui. Foi uma surpresa para todos nós essa situação", disse um amigo da vítima, que não quis se identificar.

Sobre o agressor, os vizinhos disseram ser, na maior parte das vezes, uma boa pessoa, mas contaram que ele já havia agredido a mulher antes. "Ela chegou a registrar boletim de ocorrência outras vezes, mas ele respondia em liberdade", completou o amigo.
 

Prisão preventiva

Em audiência de custódia do Tribunal do Júri e Vara dos Delitos de Trânsito do Gama, o juiz Gustavo Fernandes Sales converteu a prisão do acusado em preventiva, sem prazo para ser encerrada. Assim, ele deve responder pelo crime detido. Na decisão, o magistrado ressaltou o histórico de violência doméstica e familiar para reforçar a necessidade da prisão. 

"Quanto às circunstâncias concretas, observo que há elementos de informação no sentido de que o autor teria feito uso de uma faca, em frente a testemunhas, o que demonstra a ousadia e o destemor do autuado, o desrespeito flagrante pelas leis e pela vida alheia, bem como a sensação aparente de impunidade", destacou Sales. 
 
O juiz também concedeu medida protetiva para todas as vítimas, o que inclui a proibição de aproximação do acusado a menos de 200 metros e qualquer tipo de contato. 

Três perguntas para

Jeane Cristina de Sá, psicóloga e idealizadora do projeto Suporte, que atende mulheres em situação de risco e violência

Qual é o perfil das vítimas atendidas no DF?
É bem misto. No projeto, por exemplo, atendemos mulheres que vêm desde as classes mas baixas até aquelas que são servidoras públicas. O que podemos afirmar é que a classe econômica não é a causa.

Por que esses crimes ainda acontecem?
Porque não há um tratamento do agressor. Nas medidas protetivas, dizem que as mulheres serão reinseridas. E os homens? Eles também precisam de tratamento. Estamos em uma sociedade machista, onde as pessoas ainda perguntam "Por que a mulher não saiu desse relacionamento?" ao invés de se perguntarem "Por que esse homem a agrediu?".

Existem causas para esses crimes?
Essas mulheres vêm de relacionamentos abusivos, e eles são evitáveis. Poderíamos evitar muitas mortes. As mulheres não conseguem ver que estão nessas relações e acabam se envolvendo. Geralmente, são relacionamentos que começam rápido. Logo, o casal vai morar junto, pois, muitas vezes, o homem não aceita o fato de a mulher ser independente, ganhar mais. Eles se sentem ameaçados e fazem isso. Hoje, conhecem a pessoa; amanhã, namoram; e, logo depois, estão morando juntos. Não pode ser assim.

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