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Correio Braziliense

Em diversos pontos do DF, entretenimento é garantido com jogos tradicionais

Brasilienses preenchem as tardes e noites da cidade com boas histórias e risadas com os amigos em partidas de cartas ou de tabuleiro


postado em 25/04/2019 06:00 / atualizado em 25/04/2019 15:32

Semanalmente, grupo de amigos jogam partidas de truco (foto: Barbara Cabral/Esp. CB/D.A Press )
Semanalmente, grupo de amigos jogam partidas de truco (foto: Barbara Cabral/Esp. CB/D.A Press )


Raciocínio rápido, muita atenção e boa memória. Os jogos tradicionais, como truco, dominó e gamão, exigem um pouco de cada um desses elementos e reúnem, nos bares, cafés e praças de Brasília uma série de admiradores. Muitos jogam por anos. Outros, começaram agora e ainda estão aprendendo. Nesses eventos, gerações de grandes jogadores e de novatos se reúnem para trocas de histórias, experiências e boas risadas.

Parte dessas vivências podem ser guardadas numa pequena maleta preta. Ao abri-la, um tabuleiro formado por triângulos coloridos, alguns dados e peças redondas de duas cores aparecem. Os objetos fazem parte do gamão. Jogado entre dois adversários, o principal objetivo desse divertimento milenar é retirar as peças do tabuleiro antes do oponente. Funciona assim: os números que saíram nos dados simbolizam as casas (triângulos) que serão andadas. Um jogador move no sentido horário as peças e o outro, no anti-horário. É preciso ter uma estratégia lógico-matemática para alcançar o objetivo.

Na Asa Sul, em um café na Quadra 205, cerca de 16 amigos se encontram todas as segundas-feiras para jogar o gamão. “Isso aqui é sagrado”, comenta o desenhista industrial e jogador de gamão por 40 anos Murilo Santos Lobato, 65 anos. O grupo começou há 20 anos e já chegou a receber mais de 30 jogadores por noite. Cada partida dura, em média, 15 minutos, mas as reuniões começam às 20h e duram, às vezes, até as 3h. “É um jogo de ciência, se a pessoa começa a jogar hoje, daqui a um ano ela pode ganhar a primeira partida. Até lá, é aprendizado. Não é sorte ou a falta dela, é conhecimento”, destaca Murilo.

Uma outra integrante das noites de gamão é a aposentada Vera Moraes, 62. Aprendeu o jogo com o marido quando ainda eram namorados e, hoje, com 32 anos de casados, é ela quem vai para as partidas. Ganhadora de um torneio nacional em Mangaratiba (RJ) e entrevistada por Ana Maria Braga, da TV Globo, após vencer grandes jogadores, a aposentada afirma que sua maior força é a ousadia. “O jogo de gamão tem a sorte, assim como todos os jogos de dados. Mas não é ela que predomina, o principal são as estratégias de grandes referências do gamão, que podemos observar ao participar de torneios. No meu caso, eu sou muito impulsiva. Gosto de ousar em jogadas perigosas”, afirma.

Jogadores de gamão se reúnem em café na Asa Sul (foto: Arthur Menescal/Esp. CB/D.A Press )
Jogadores de gamão se reúnem em café na Asa Sul (foto: Arthur Menescal/Esp. CB/D.A Press )


Técnica 

Ousadia é o que não falta no truco. Conhecido por ser uma partida de blefe e de muitas estratégias e gritaria, o jogo de cartas é realizado por duas duplas adversárias, na qual o objetivo é jogar a carta mais alta durante as partidas. Truco é a palavra usada para desafiar o oponente. As maiores cartas do jogo são o quatro de paus, o sete de copas, o ás de espadas e o sete de ouros, conhecidos como manilhas.

No entanto, no bar do seu Eupídio, em Ceilândia, o truco é jogado de uma maneira diferente. Com a utilização de sinais sendo passados por meio do contato das mãos, sem disfarce, e as maiores cartas do jogo sempre sendo diferentes, esse tipo de truco é o praticado nos campeonatos realizados na cidade. Nesse jogo, o baralho é dividido ao meio, e todas as cartas são utilizadas. A que fica virada na mesa é a carta chave, e define as manilhas do jogo.

Segundo o comerciante Carlos Russi Fernandes, 34, morador de Vicente Pires e presidente do time Arsenal e do Zap Capital, o jogo funciona dessa maneira para evitar possíveis fraudes. “Esse truco é mais técnico, dá margem para menos blefe”, observa o jogador.

Para o integrante do Areg e também do Zap Capital Marcos Roney Xavier Franco, 46 — campeão do torneio brasiliense em 2016 e vice em 2017 —, o segredo para vencer em muitas partidas é a percepção de todas as movimentações do jogo. “A estratégia é a atenção. A partir da primeira carta jogada, é preciso entender o motivo dessa jogada, entender qual o desenho de jogo do adversário, analisar cada movimento”, afirma. Este ano, o Zap da Capital está em segundo lugar na classificação geral do Campeonato Anapolino de truco, um dos mais disputados do país.

Mas, além de toda a competição, o mais importante para os jogadores é a amizade e a diversão que essas reuniões proporcionam. “Sempre que juntar quatro truqueiros em algum lugar, acaba em brincadeira e muita história boa para contar”, resume Carlos Fernandes.

Faça chuva ou sol

As tardes de Miguel Oliveira, 82 anos, são sagradas. Todos os dias, o aposentado se reúne com os amigos para o clássico dominó, na Quadra 30 do Guará 2. Conhecida como terno branco, a atividade é um passatempo para o grupo. “Não estamos fazendo trabalho nenhum, então, nos reunimos aqui para brincar”, relata.

A regra do jogo é clássica: não há aposta. Quando o jogador não tem a peça, ele passa a vez. Sai a dupla que perde as quatro rodadas. Miguel comenta que, quando chega um novo integrante, ele é acolhido. A melhor estratégia, segundo ele, é um bom parceiro. “Saber fazer uma boa leitura do jogo, contar as peças, isso é essencial.” Para o grupo, não há tempo ruim. “Faça chuva ou sol, o importante é a diversão”, acrescenta o jogador.

O aposentado e advogado Sebastião Dourado, 65, conta que a relação com o jogo começou há 20 anos, no Sesc da 504 Sul, numa recreação após o almoço. “Eu estudava na UDF e, ao sair da faculdade, íamos para o Sesc jogar algumas partidas. Foi lá que aprendi o jogo.”

Atualmente, Dourado é presidente da Federação Brasiliense de Dominó e diretor da Federação Brasileira de Dominó. Ele relembra que, durante uma competição na Costa Rica, os jogadores foram saudados pela tripulação da companhia aérea. “Eles anunciaram a comissão brasileira de dominó que ia representar o Brasil no país. Isso é muito gratificante”, exalta.
 
 
* Estagiários sob supervisão de Mariana Niederauer 

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