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Correio Braziliense

10,8% dos remédios estão em falta nas Farmácias de Alto Custo do DF

Farmácias de Alto Custo fornecem gratuitamente medicamentos essenciais para manter a qualidade de vida de centenas de brasilienses. Atualmente, 10,8% dos remédios fornecidos estão em falta nas prateleiras do DF


postado em 28/04/2019 08:00 / atualizado em 27/04/2019 20:52

Os medicamentos são distribuídos em três pontos do Distrito Federal(foto: Carlos Vieira/CB/D.A Press)
Os medicamentos são distribuídos em três pontos do Distrito Federal (foto: Carlos Vieira/CB/D.A Press)
Há três meses, o aposentado Wilson Gonçalves, 62 anos, não encontra o remédio de que precisa na Farmácia de Alto Custo. Ele convalesce de uma cirurgia de coração e, sem as cápsulas de Glicopirrônio, tem dificuldade de respirar. A ex-mulher dele tem asma e faz uso do mesmo composto. “Se for comprar tudo, soma uns R$ 800 por mês. Não adianta falar com ninguém, porque não dão nem previsão de quando vai ter”, reclama. Wilson não é o único a enfrentar o problema. Dos 240 medicamentos diferentes fornecidos nos três pontos de distribuição do Distrito Federal (Asa Sul, Ceilândia e Gama), 26 estão em falta.

Segundo a Secretaria de Saúde, o Glicopirrônio foi comprado neste mês e a pasta aguarda a entrega. Em nota oficial, o GDF declarou que o órgão trabalha para reabastecer todos os itens em falta. “Para isso, existem processos de compra em aberto, aguardando a finalização ou a entrega do insumo. Em alguns casos, o processo pode demorar devido a fatores como fracasso na licitação ou desinteresse de um fornecedor. Quando isso ocorre, o processo é reiniciado”, diz o texto.

Wilson mora no Riacho Fundo 1, mas o ponto mais próximo para ele pegar a medicação é o Gama — cerca de 25km de distância. Assim como ele, muitos outros moradores do DF e do Entorno fazem longas viagens em busca do serviço. Atualmente, 30 mil pacientes estão cadastrados, de acordo com a secretaria. Diariamente, a lista de itens em estoque é atualizada no Portal da Transparência da pasta, usada por muitos para evitar viagens perdidas. Mas isso nem sempre resolve.

Na última quarta-feira, a servidora pública Elva Rodrigues, 53, saiu de mãos vazias da farmácia na estação de metrô da 102 Sul. Ela tem espondilite anquilosante, um tipo de artrite que causa fortes dores nas articulações, especialmente na coluna. A cada dois meses, precisa tomar quatro doses injetáveis de um remédio chamado Infliximabe. Cada ampola custa, em média, R$ 20 mil. “Sem ele, eu fico travada na cama. Dói tanto que eu preciso tomar morfina”, descreve.

Ela mora em Planaltina e não tem opção senão continuar buscando o medicamento. “Por enquanto, está tudo bem. Eu só vou precisar tomar de novo em junho e essa é a primeira vez que isso acontece. A medicação nunca falta. Na terça-feira à tarde, eu olhei no site e tinha, mas cheguei aqui e já havia acabado.” As ampolas são fornecidas tanto pelo GDF quanto pelo Ministério da Saúde.

A secretaria explicou que o estoque deles está regular. No entanto, a fórmula para a patologia de Elva só é fornecida pelo ministério. O nome é o mesmo, mas as marcas são diferentes. “Por esse motivo, não é possível que um paciente com essa doença utilize o composto fornecido pela SES, pois o fim do insumo é para outras patologias. O Ministério da Saúde informou que a previsão é que na próxima semana o estoque seja regularizado”, disse a pasta, em nota.

O Ministério da Saúde informou que está regularizando a entrega do Infliximabe e que o atraso ocorreu por um problema com o fornecedor. O órgão não detalhou que tipo de problema. “Ao todo, serão enviados ao Distrito Federal, 1.562 frascos do medicamento, e a previsão de entrega é na próxima semana.”

Alívio
Eliene conseguiu pegar a medicação para o filho, que tem esquizofrenia(foto: Ana Rayssa/Esp. CB/D.A Press)
Eliene conseguiu pegar a medicação para o filho, que tem esquizofrenia (foto: Ana Rayssa/Esp. CB/D.A Press)

Eliene Santana tirou um peso das costas quando conseguiu pegar os remédios para o filho de 21 anos, diagnosticado com esquizofrenia. A mãe de 42 anos conta que, no mês anterior, o estoque da farmácia do Gama não tinha o que ela precisava, o que acontece de tempos em tempos. “Eu parei de trabalhar há três anos e passei a viver dedicada a cuidar dele. Quando isso acontece, a gente precisa recorrer a amigos e familiares para comprar as caixas que custam entre R$ 250 e R$ 300”, relata.

Por dois dias, no entanto, o jovem ficou sem a medicação. Com isso, ele não descansa e fica agressivo. “É uma luta. Faz dois dias que ele não dorme. Quando não está medicado, fica violento. Ele inclusive responde a um processo por ter me agredido. Outras vezes, some de casa”, narra.

Como ele faz uso contínuo dos remédios, Eliene precisa, a cada três meses, renovar o cadastro nas farmácias. “Essa é outra luta, porque a gente precisa de laudo médico. Vamos aos CAPS (Centro de Atendimento Psicossocial) e não tem médico. Quando consegue a receita, não tem no estoque e ficamos nesse ciclo burocrático.”

Longas filas de espera

Outro problema enfrentado pelos pacientes são as longas filas de espera. Quem vai buscar as medicações deve estar preparado para aguardar horas. Na quarta-feira, a sala de espera da farmácia na Praça do Cidadão, em Ceilândia, estava quente e lotada. Para evitar o calor, alguns esperavam do lado de fora. O aposentado Mendesá Melo, 59, chegou às 10h. Três horas mais tarde, ainda esperava para pegar os comprimidos que o ajudam a controlar o colesterol.

Para ele, o número de servidores não é suficiente. “Eu moro na Asa Norte e pego dois transportes para chegar aqui. Deveria ter mais atendentes ou pelo menos poderiam distribuir alguns desses remédios para as farmácias populares”, reclama. “Mesmo sendo difícil, eu faço questão de vir pegar. Pagamos muitos impostos, fornecer esse serviço é o mínimo que eles devem fazer”, pondera.

Para quem trabalha, é preciso usar o dia de folga para pegar os medicamentos. A técnica em enfermagem Helena Rosa, 55, saiu às 11h da clínica onde atende porque sabia que levaria tempo até resolver as pendências na farmácia. “Se eu usar só a hora de almoço, nunca é suficiente”, reclama. O pai dela tem 78 anos e precisa de comprimidos para controlar o colesterol. “Meu pai é idoso e tem problema de visão. Moramos em Vicente Pires, para ele dirigir até Ceilândia e ainda esperar por horas, é inviável. Só tem eu para fazer isso por ele”, relata. “Essas farmácias precisam ser descentralizadas. Só quem trabalha aqui e quem precisa do serviço sabe o que está acontecendo”, reclama Helena.

Apoio

Assim como ela, muitos outros encaram a tarefa de enfrentar as filas a favor de quem não tem condições. Isalene Moraes, 54, vai todo mês à Praça do Cidadão buscar as medicações para o reumatismo do pai, de 82 anos. “Eu não trabalho e posso vir por ele, mas tem muito idoso ou pessoas que não têm ninguém, que não têm escolha, e ficam aqui. Muitas vezes, são pessoas que não sabem usar a internet para ver se o estoque está em dia e ficam aqui por horas à toa”, lamenta. “São poucos funcionários e a fila não anda. Às vezes, acontece confusão por causa disso.”

Apesar dos relatos, a Secretaria de Saúde nega deficit de profissionais. “Pode ocorrer demora no atendimento em dias em que a procura for maior, pois o atendimento é individualizado e, algumas vezes, o sistema do Ministério da Saúde apresenta instabilidade. Como houve um feriado prolongado na semana passada e as farmácias não funcionam sábado e domingo, a procura esta semana aumentou”, esclareceu.

Como se cadastrar

Veja como receber gratuitamente os medicamentos de alto custo

Agendamento
Primeiro, é preciso fazer cadastro do usuário. Esse procedimento é realizado exclusivamente por agendamento pelo Disk-Saúde, no telefone 160, opção 3, para residentes do DF, e 0800 644 0160, para usuários não residentes do DF.

Efetivação
Após o agendamento, o paciente ou responsável deve chegar à unidade com pelo menos 15 minutos de antecedência em relação ao horário marcado, levando documentos pessoais, cartão do SUS (Sistema Único de Saúde) e documentos relacionados ao fornecimento dos medicamentos. No site da Secretaria de Saúde, está a lista de itens necessários.

Retirada
É preciso apresentar documento de identificação com foto e a receita original. Para medicamentos termossensíveis, o paciente deve levar o recipiente térmico com gelo.

Renovação
Para quem precisa de mediação contínua, é preciso renovação a cada três meses. Um representante pode fazer isso, além da retirada — basta declaração autorizadora anexada às cópias dos documentos pessoais da pessoa que representará o paciente.

Serviço
O atendimento é feito nas unidades, de segunda a sexta-feira, entre as 8h e as 17h. Veja os endereços:

Farmácia Ambulatorial Especializada da Asa Sul
Estação 102 Sul do Metrô, Subsolo
Telefones: 3322-9498 / 4042-6774

Farmácia Ambulatorial Especializada de Ceilândia
EQNM 18/20, blocos A e C — 
Praça do Cidadão
Telefone: (61) 4042-6773

Farmácia Ambulatorial Especializada do Gama
Praça 1, s/n – Setor Leste
Telefone: 4042-6771
 

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