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Correio Braziliense

Confira o passo a passo da cirurgia de separação de gêmeas siamesas no DF

O procedimento começou na manhã de sábado e se estendeu até a madrugada de domingo


postado em 30/04/2019 06:00 / atualizado em 30/04/2019 17:38

(foto: Humberto Souza/ Divulgação/Hospital da Criança)
(foto: Humberto Souza/ Divulgação/Hospital da Criança)
O último fim de semana marcou a carreira de 50 profissionais da saúde envolvidos diretamente na cirurgia de separação de Mel e Lis. O procedimento começou na manhã de sábado e se estendeu até a madrugada de domingo. As crianças haviam passado pela primeira operação após o parto, em 26 de janeiro, para o implante de expansores cutâneos (veja infográfico).
 
Tudo foi minuciosamente preparado para a segunda operação das meninas. Além dos moldes em três dimensões, a equipe do Hospital da Criança de Brasília José de Alencar (HCB) adotou insumos médicos e uniformes de cores diferentes para identificar as pacientes. Em referência à flor-de-lis, o rosa marcava todos os itens — desde toucas e estetoscópios a adesivos em seringas de anestesia — associados a Lis. O amarelo, pela semelhança sonora com o nome de Mel, identificava materiais e profissionais relacionados a ela.

Depois de receberem anestesia geral, as meninas foram posicionadas de bruços, uma de frente para a outra, sobre um molde colocado em duas macas unidas durante a cirurgia. Após a separação, as macas foram afastadas e os trabalhos continuaram individualmente. Líder da enfermagem durante a cirurgia, Carlos Eduardo da Silva auxiliou no processo de escolha do time e falou sobre o comprometimento dos envolvidos. “Desde o início, sabíamos que seria um desafio. Muita gente estava de férias e veio para compor a equipe. Minha perspectiva é a mesma dois pais: quero que elas fiquem bem”, ressaltou.

A relação de afeto despertada pelas meninas em toda a equipe chamou a atenção. Alguns integrantes chegaram ao hospital por volta das 5h30 de sábado e saíram apenas depois das 2h30 de domingo, após o fim da cirurgia. Em recuperação na Unidade de Terapia Intensiva (UTI) do HCB até a tarde de ontem, elas respondem bem aos cuidados e seguem sob coma, induzido para auxiliar no descanso do cérebro.

“Estamos tendo um resultado bastante satisfatório até aqui e torcemos sempre pelo melhor”, destacou o cirurgião plástico Ricardo de Lauro, que atua na Ala de Queimados do Hospital Regional da Asa Norte (Hran).
 
(foto: Valdo Virgo/CB/D.A Press, com imagens cedidas por Artis Tecnologia)
(foto: Valdo Virgo/CB/D.A Press, com imagens cedidas por Artis Tecnologia)
  
 

Marco na medicina


No âmbito acadêmico, a operação das gêmeas foi comemorada por docentes da área médica. O cirurgião pediátrico Simônides da Silva Bacelar, da Faculdade de Medicina da Universidade de Brasília (UnB), destaca que o procedimento é considerado de extrema complexidade. “Esse tipo de operação é muito rara. Poucos casos aconteceram no Distrito Federal. Nessa, por exemplo, houve prognóstico positivo, já que não houve miscigenação do cérebro”, ressalta.

Com 39 anos de atuação no Hospital Universitário de Brasília (HUB), Simônides conta que viu apenas um caso de gêmeos siameses na unidade de saúde. “As crianças nasceram com a pélvis ligada, junto com o ânus, por isso, não foi possível realizar cirurgia para separação total, apenas parcial. Nesse caso, a vida dos pacientes corria riscos caso fizéssemos o procedimento”, relata.

Para o professor, ter esse tipo de cirurgia realizada na rede pública de saúde é uma conquista. “Esse caso é visto com bons olhos. Toda a equipe dos hospitais de Base e da Criança é forte. Essa cirurgia pode ser um exemplo para o país todo.”

Paulo Lassance, cirurgião pediátrico do Hospital Materno Infantil de Brasília (Hmib) e professor de medicina da Universidade Católica de Brasília (UCB), afirma que casos de gêmeos conjugados criam alvoroço por causa da complexidade. “Independentemente da conexão, é sempre um caso especial, importante e que envolve uma equipe multidisciplinar. Esse caso em específico, por estar associado ao crânio, é considerado uma das grandes malformações”, diz.

“Para nossa área, ter um caso desses na cidade, ainda mais de sucesso, é muito gratificante, ainda mais para o meio acadêmico. Também é importante ressaltar que não precisamos encaminhar o caso para fora do DF”, frisa. Paulo afirma que esse é o terceiro caso que vê de gêmeos siameses no DF. 

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