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Correio Braziliense

No Dia do Gari, profissionais do DF mostram orgulho pelo ofício

Na celebração do Dia do Gari, saiba um pouco mais dos sonhos e das dificuldades dessas pessoas que deixam a cidade limpa


postado em 17/05/2019 06:00 / atualizado em 18/05/2019 00:00

Fredson (agachado à esquerda), Adilson (agachado à direita), José Airton (E); Grazielly (C), Maria de Fátima (camisa verde) e Tamires(foto: Fredson (agachado à esquerda), Adilson (agachado à direita), José Airton (E); Grazielly (C), Maria de Fátima (camisa verde) e Tamires)
Fredson (agachado à esquerda), Adilson (agachado à direita), José Airton (E); Grazielly (C), Maria de Fátima (camisa verde) e Tamires (foto: Fredson (agachado à esquerda), Adilson (agachado à direita), José Airton (E); Grazielly (C), Maria de Fátima (camisa verde) e Tamires)

Só uma pessoa que se sente invisível em meio às demais é capaz de dizer o quanto um bom-dia pode fazer a diferença. O Dia do Gari, comemorado ontem, é a data em que esses profissionais pedem mais reflexão sobre essa questão. Por baixo do uniforme laranja, Antônios, Josés, Joanas e Marias convivem com uma realidade em que, por vezes, conquistam reconhecimento, mas também enfrentam bastante preconceito. Para o futuro, a expectativa deles — que somam mais de 4 mil contratados no Distrito Federal —, é de que a educação prevaleça e que o orgulho que têm do ofício retorne em forma de respeito.

“Nunca imaginei que estaria varrendo minha rua. Ainda mais passar um colega meu e me ver. Eu ficava com vergonha quando comecei. Algumas pessoas sequer me cumprimentavam, faziam de conta que eu não existia. É como se nos vissem como o próprio lixo. Mas gari também é gente, ser humano.” O relato é de Fredson Fernandes da Silva, 40 anos, que passou a encarar a profissão de outra forma desde que começou no ofício, em 2017, na Valor Ambiental.

A rotina de Fredson começa às 15h. Depois de assinar a folha de ponto, ele é levado até o local onde trabalhará até as 22h, com uma hora de pausa para refeição. Hoje, o emprego é a fonte de sustento para ele, a mulher e as duas filhas, de 12 e 4 anos. “Não tenho mais vergonha, trabalho todo dia de cabeça erguida. É uma profissão para eu poder ganhar o pão de cada dia. Somos pagos para deixar a cidade limpa. E, se as pessoas colaborassem um pouco, seria bem mais fácil”, completou.

O brasiliense estudou até o segundo ano do ensino fundamental e trabalhou a maior parte da vida como pedreiro. A profissão de gari permitiu que ele voltasse a sonhar. Entre os planos, está se mudar para Ibotirama (BA), onde os pais moram, com o restante da família. “Meu maior sonho é ver minhas filhas estudarem, mantê-las para não faltar comida e fazer um pé-de-meia e ir para a Bahia, viver minha vida tranquila lá, porque aqui é meio puxado. Quero ir para ficar perto de meus pais”, contou.

Apreensão


Tamires de Paiva Veras, 26, também compartilha do sonho de garantir um futuro com educação para as filhas, de 11, 9 e 3 anos. Antes de começar na carreira de gari, em 2015, ela havia trabalhado como balconista e autônoma, mas estava desempregada e morava na casa da mãe com as crianças. A contratação foi um momento maravilhoso, segundo ela, que não pensou duas vezes antes de aceitar a oportunidade. Desde então, conseguiu conquistar casa e carro próprios.

O progresso, no entanto, não veio sem esforço. Moradora do Sol Nascente, Tamires acorda todos os dias às 5h para se preparar. Em uma dessas ocasiões, poucas horas depois de chegar ao local onde ela e outros nove garis trabalhariam capinando, dois criminosos renderam o grupo e levaram oito celulares. Fora o episódio, a rotina, que vai de segunda a sábado, ainda conta com momentos de desrespeito por parte de pedestres e motoristas. “Fazemos o máximo para deixar a cidade limpa. Gostaria que todo mundo se conscientizasse a jogar o lixo na lixeira, não na rua. É preciso que as pessoas tenham mais educação”, cobra.

Na função de gari há quase dois anos, Adilson Pereira de Souza, 51, conta que chegou a ser discriminado algumas vezes enquanto trabalhava. Apesar disso, a memória não guarda apenas os momentos ruins. “No aniversário de Ceilândia do ano passado, algumas crianças nos viram e falaram ‘Mãe, olha os bombeiros!’. A mãe respondeu que não éramos bombeiros, mas varredores de rua. E eles disseram ‘Que legal! Quando crescer, quero ser varredor de rua também’”, recorda-se Adilson. “Somos reconhecidos pelas crianças. Elas passam, dão tchau, mandam beijos. Crianças são puras e verdadeiras”, completa.

Motivação


O trabalho de seis dias por semana, às vezes sob forte sol e com muitos quilômetros percorridos, não garante altos salários para quem atua na profissão. Mesmo assim, os garis do DF operam em frentes variadas: frisagem (capina), pintura de meio-fio, catação de lixo, remoção manual de resíduos e coletas em caminhões. Com isso, os riscos tornam-se parte da rotina. “Mesmo que você sinalize a área com o cone, há muitos carros (passando pelas vias). Um pequeno descuido pode provocar um acidente e causar uma tragédia. É preciso estar sempre atento”, recomenda José Airton França, 51, morador de Águas Lindas (GO) e na função há três anos.

Para monitorar não apenas o ofício, mas a exposição a riscos e o devido uso de uniforme, a fiscal Maria de Fátima Dias, 50, acompanha o trabalho de 19 garis em Ceilândia. No mesmo posto desde 2011, ela conta que presenciou momentos desagradáveis ao longo dos anos. “Na Feira (Central de Ceilândia), muitos comerciantes limpam as lojas e jogam o lixo para fora, sem estarem ensacados, depois de os garis terem varrido tudo. Essas pessoas trabalham com lixo, mas não são lixo. Estão atrás do uniforme e são seres humanos como qualquer outro. É preciso mais atitude da sociedade”, critica Maria de Fátima.

Para reagir aos preconceitos sofridos pelos colegas de trabalho, Maria de Fátima criou os concursos de Miss e Mister Gari, em 2015. “Decidi mostrar que os garis também são gente, são capazes de entrar em uma passarela e de se saírem bem”, destaca.

Incentivo

A quinta edição do concurso de Miss Gari e a segunda do Mister Gari acontece amanhã, a partir das 19h, no JK Shopping, em Taguatinga. A competição contou com 220 candidatos inscritos. Eles passaram por uma seleção na qual os próprios colegas escolheram os 50 finalistas para cada categoria: 30 mulheres e 20 homens. No evento deste sábado, um corpo de jurados escolherá os três primeiros lugares de cada grupo e os finalistas das categorias masculina e feminina, separadamente, premiarão os escolhidos como Miss e Mister Simpatia da noite.
 
 

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