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Correio Braziliense

Filas em busca de vagas escancaram desemprego recorde no DF e em Goiás

Supermercado em Valparaíso (GO) abre 300 vagas de emprego e mais de 5 mil pessoas fazem fila para concorrer às oportunidades. Muitos dormiram na rua com o objetivo de garantir a participação na entrevista


postado em 18/05/2019 07:00 / atualizado em 17/05/2019 21:56

Alguns concorrentes às vagas passaram mais de 24 horas esperando o início das entrevistas(foto: Ana Rayssa/CB/D.A Press)
Alguns concorrentes às vagas passaram mais de 24 horas esperando o início das entrevistas (foto: Ana Rayssa/CB/D.A Press)
Alexsander Assis, 20 anos, dormiu na rua pela sexta vez na vida. Todas, pelo mesmo motivo: tentar uma oportunidade de emprego. “Eu trouxe uma coberta, um lençol e a coragem. Todas as vezes passo fome e frio, mas preciso de um trabalho fixo para sustentar minha família”, desabafa o morador de Luziânia (GO). O jovem saiu de casa na quinta-feira, às 20h, para conseguir se apresentar na manhã do dia seguinte no setor de Recursos Humanos do Supermercado Vivendas, que construiu uma nova unidade no Parque Marajó, entre Valparaíso e Cidade Ocidental. A empresa buscava 300 candidatos para trabalhar no estabelecimento, com data prevista para inauguração em 7 de junho. Mais de 5 mil apareceram.

A primeira a chegar foi Juliana Silva, 25. Passou mais de 24 horas na fila com uma garrafa de suco, pacotes de biscoitos, um colchão e cinco cobertas. “Levei mais de uma, porque estava muito frio e eu sabia que tinha gente sem condições que também ia dormir na fila.” Desempregada há dois anos e estudante de um supletivo, ela foi chamada de louca por conhecidos, já que viraria a noite no meio da rua. Ter enfrentado situações em que ela não pôde ter o básico para os filhos foi o que pesou na decisão. “Sou mãe de uma criança de 9 anos e de um bebê de 1. Teve vez que eles ficaram doentes e nós não pudemos pagar os exames. Como no hospital público não conseguimos, até hoje não sabemos o que eles tinham.”

Moradora da Cidade Ocidental, Juliana vivia em Ceilândia até 2017, mas os aluguéis caros obrigaram a família a se mudar para o Entorno. Além dos dois filhos, a casa abriga a mãe, irmãos e o marido da jovem, único com carteira assinada. Realidade que mudou ontem, já que ela se tornou a primeira contratada do supermercado. “Os funcionários da empresa chegaram lá de manhã e chamaram os 10 primeiros, que estavam há mais tempo esperando. Aí, fizemos uma entrevista e logo depois já falaram que fomos contratados. Foi lindo, uma felicidade enorme! Minha mãe chorou de alegria”, celebra. Ela ainda não sabe se será operadora de caixa e se ou atuará nos serviços gerais, mas tem certeza de como vai usar o primeiro salário: “Vou pagar minhas contas que estavam atrasadas”.

Esperança

Cerca de 400 candidatos dormiram ao redor do supermercado, muitos usando até pedaços de madeira abandonados na rua como colchão. Alguns compartilhavam a marmita que levaram para passar as horas de espera. No manhã de ontem, quando começaram as entrevistas, a Polícia Militar  de Goiás calculou 4 mil pessoas. Por volta do meio-dia, horário de maior movimento, eram 5 mil à espera de oportunidades.

Munidos de bancos, colchões, guarda-chuvas e garrafas de café, muitos só comeram o lanche que a empresa serviu. Pães, frutas, leites e sucos vinham em caixas encomendadas pelo supermercado e despertavam os poucos sorrisos que apareciam nos rostos. Também foi comum ver quem tentava animar os candidatos exaustos. “Ânimo, galera! Está acabando”, gritou uma mulher.

“Como vieram muitas pessoas que não podemos contratar, cadastramos em bancos de vagas e ficamos de ligar caso apareça uma oportunidade em outra loja nossa, por exemplo”, explica Thiago Gomes, gerente administrativo do Supermercado Vivendas. O responsável pelo processo seletivo contou que a equipe de seleção também foi reforçada para atender a demanda, com cerca de 50 funcionários trabalhando até as 20h. Os empregos eram para áreas diversas, como de operador, repositor, padeiro, gerente, açougueiro, atendente e outros setores. Por isso, o salário também variava muito, indo do mínimo, de R$ 998, a cerca de R$ 1,2 mil.

“É difícil até para a gente ver uma fila assim, porque é ruim perceber que muitos precisam sustentar a família, mas não tiveram oportunidades de ter um ensino melhor, por exemplo, e não conseguem emprego. Isso mostra o tanto que é importante para um país investir em educação”, opina Thiago. Pessoas com ensino superior completo no currículo também tentavam uma vaga, como Carla Assunção, 45. Formada em biologia, ela está desempregada há três anos e acaba dependendo da remuneração de menor aprendiz do filho, de 18. “Quando perguntaram minha pretensão salarial eu não quis falar nenhuma, porque o importante agora é ter uma renda, por menor que seja.”

Matheus Henrique Costa, 22, também deseja um emprego fixo, independentemente do salário. “Posso ser caixa, estoquista, trabalhar na limpeza… Minha esposa trabalha em uma rede de fast-food e temos três filhos, então, as coisas estão bem difíceis”, comentou. O jovem chegou à fila às 5h de ontem e enfrentou o frio e a chuva com suas três crianças.

Outra barreira encarada por candidatos foi a distância. Houve quem saiu do Distrito Federal para a vaga em Valparaíso. “Eu moro em Santa Maria, mas quero uma oportunidade no DF ou em Goiás. O problema é que a passagem de ônibus de um estado para o outro é cara e as empresas, muitas vezes, não querem contratar um funcionário que reside longe por conta disso, já que eles precisam dar o auxílio-transporte”, lamentou Raquel Soares, 35.

* Estagiária sob supervisão de Mariana Niederauer

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