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Correio Braziliense

Balé atrai adultos que driblam preconceito para se dedicar à dança

Dança clássica tem atraído homens e mulheres que driblam preconceito e limite físico para se arriscar em pliés e rodopios


postado em 18/05/2019 07:00

(foto: Raphoto/Divulgação)
(foto: Raphoto/Divulgação)

Sonhos não morrem com a infância. O desejo de criança pode ser a realização da vida adulta. Com a dança clássica não é diferente. O balé tem atraído novos adeptos. Foi assim com a bailarina Letícia Ribeiro, de 25 anos, que começou a dançar aos 18. “Era um sonho, mas eu não tinha condição financeira quando criança”, relata. A paixão era tanta que ela fez da arte profissão. “É muito bom porque você realiza o sonhos de outras pessoas”, relata a instrutora de balé.

Já a aluna de arquitetura e urbanismo da Universidade de Brasília (UnB) Ana Paula Santos, 20, não gostava de balé quando criança. A jovem viu a relação dela com essa dança se transformar 13 anos depois, quando se apaixonou pela modalidade. “Quando a gente é adulto, entende que a repetição (dos exercícios e dos passos de balé) é importante”, reflete a estudante.

“O balé é um desafio diário”, conta Ana Paula, que, antes dele, fez oito anos de dança do ventre e quatro de street dance. A vontade de se aprimorar foi o que a motivou. “Eu percebi que o balé é a base para as outras danças e me faz ter mais consciência corporal, de cada nervo, cada músculo do meu corpo se movendo”, resume.

A professora de balé Adriana Palowa concorda que a procura de adultos por essa modalidade tem crescido tanto nos últimos anos no Distrito Federal que “quase todas as escolas (de balé) no DF oferecem hoje em dia”. “Muitas pessoas que não tiveram oportunidade quando criança agora estão se permitindo”, explica a instrutora, que dá aulas há 32 anos.

Foi assim com Letícia e é com Rafael Benjamin, 23 anos. O doutorando em química da UnB adiou a estreia nos rodopios e pliés por causa do preconceito. “Eu tinha esse sonho (de fazer balé) desde criança, mas era uma dança considerada muito feminina. Acho que por isso meus pais não deixaram”, conta. Para ele, o preconceito não estava no tablado, mas em como os bailarinos eram vistos.

Aos 50 anos, a psicóloga Marta Gonçalves voltou a dançar há um ano e meio(foto: Arquivo Pessoal)
Aos 50 anos, a psicóloga Marta Gonçalves voltou a dançar há um ano e meio (foto: Arquivo Pessoal)

Não ao preconceito


Para os homens, a chegada da vida adulta pode dar a segurança necessária para driblar o preconceito — inclusive, segundo Murilo Campos, são eles quem mais procuram a atividade depois de adultos. “A gente (homens) não tem essa cultura de entrar para a escola de balé quando é criança, diferente das meninas”, relata o bailarino Murilo, 32 anos. Criado em Sousa — cidade no interior da Paraíba, a 438 quilômetros da capital João Pessoa —, o dançarino conta que nunca teve acesso ao teatro e à dança quando era criança.

Campos veio para Brasília, onde se formou em jornalismo em 2009. Porém, nunca se viu atuando na profissão. Foi então que ele resolveu buscar novos caminhos e começou as aulas de balé no ano seguinte. “A dança falou mais alto. Fui me alimentando de arte e acabei me apaixonando”, derrete-se. E o que era válvula de escape acabou se tornando profissão.

Hoje em dia, Murilo dá aulas de balé e de jazz em escolas do Distrito Federal e participa de projetos de dança, como o Dançando Athos (2019) e o Balé da Cidade de Brasília (2018). “Meu sonho é entrar numa companhia profissional. Dar aulas é meu ganha-pão, mas dançar profissionalmente é diferente”, almeja o professor, que dança desde os 24 anos.

A vontade de ir além, corrigir os erros e ganhar disposição também motiva Rafael Benjamin. “Apesar de ser uma dança muito bonita, com muita leveza, te dá muita consciência corporal”, afirma o estudante de doutorado. O químico destaca que não ter praticado balé na infância influencia no desempenho, mas não afeta o prazer em dançar. “A dança exige muita flexibilidade, muitos movimentos”, comenta. Ele ressalta que ter começado mais cedo ajudaria a superar as dificuldades, comenta.

(foto: Arquivo Pessoal)
(foto: Arquivo Pessoal)

Nunca é tarde


Não existe idade para dançar — ou para voltar aos palcos. A psicóloga Marta Gonçalves, 50, fez balé até os 13 e voltou a praticar há um ano e meio. “O balé sempre foi minha paixão e continua forte em mim”, revela. Mas, hoje em dia, as aulas têm sabor especial: a filha passou a ser companheira de sapatilhas. “É uma oportunidade de resgatar esse momento com ela. A gente está desfrutando desse prazer juntas”, orgulha-se.

É a mesma relação que a empresária Daniele Araújo, 37, tem com esse tipo de dança. O que começou como a retomada de uma atividade da infância e um incentivo para a filha só lhe trouxe benefícios. “Acho que só me proporciona coisas boas. Eu consigo me relacionar bem com as outras meninas da turma, mais novas do que eu”, analisa.

“Quando a gente volta, vê que é possível. É importante quebrar esse preconceito (em relação à idade)”, defende Marta. “A maioria das pessoas se acha velha e não é assim. Não precisa começar quando criança para ser bailarina profissional”, concorda Letícia.

Dar aulas para crianças e para adultos é diferente. Existem cuidados específicos, mas esse tipo de exercício continua aberto às mais diversas faixas etárias. “Todo o trabalho é muito meticuloso e cuidadoso. Cada adulto tem seu histórico, e você tem que respeitar os limites físicos, o biotipo...”, destaca Adriana. Atualmente, a instrutora faz parte de um projeto que dá aulas de balé para cerca de 130 alunos —  todos adultos.

A professora Maria Imaculada da Conceição, 59, sempre gostou de praticar atividades físicas. Quando adolescente, dançava jazz. Como docente de educação física, sempre esteve ligada à área. Porém, foi no início deste ano que ela viu na aposentadoria a chance de experimentar o balé. “Eu aposentei e falei: ‘quer saber? Eu vou fazer’”, diverte-se. “Eu fico mais leve, mais alto-astral...”, afirma, contente.

*Estagiária sob supervisão de Vinicius Nader
 
 

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