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Correio Braziliense

Greve atinge escolas e o transporte, com prejuízos ao comércio do DF

Diversas categorias cruzam os braços contra a reforma da Previdência e afetam serviços como o comércio, que registrou prejuízos. Não houve maiores incidentes, mas professores e alunos organizaram manifestações e bloqueio de rodovias


postado em 15/06/2019 07:00

Cerca de 3 mil professores fizeram um protesto em frente ao Palácio do Buriti: resistência à proposta de reforma previdenciária(foto: Ed Alves/CB/D.A Press)
Cerca de 3 mil professores fizeram um protesto em frente ao Palácio do Buriti: resistência à proposta de reforma previdenciária (foto: Ed Alves/CB/D.A Press)
Paradas de ônibus vazias, mais carros nas ruas e trabalhadores divididos entre a dificuldade de ir ao serviço e o protesto de não sair de casa. A greve geral fez com que o Distrito Federal vivesse um dia atípico nesta sexta-feira (14/6). Marcada por centrais sindicais em todo o país, a manifestação afetou, principalmente, o transporte coletivo, o funcionamento das escolas, de bancos e de comércios da capital. O ato teve como bandeiras críticas à reforma da Previdência e ao contingenciamento de gastos em instituições públicas de ensino.

Nas ruas, o brasiliense teve dificuldades para encontrar ônibus, mesmo com a decisão do Tribunal Regional do Trabalho da 10ª Região (TRT-10), que considerou ilegais as paralisações dos rodoviários (leia Para saber mais). A copeira Sheila Luiza Barbosa, 45 anos, precisou pegar dois tipos de transporte para sair do Gama e chegar à Rodoviária do Plano Piloto. “Fui para o Pedregal e, de lá, peguei um ônibus do Entorno que vinha do Lago Azul e estou sem saber como vou chegar à L2 Norte”, contou. A mulher disse, ainda, que outra preocupação era com a volta para casa. “Saio do serviço às 21h30 e não sei como vou embora.”
 
Os ônibus das empresas particulares do DF ficaram parados nas garagens(foto: Ed Alves/CB/D.A Press)
Os ônibus das empresas particulares do DF ficaram parados nas garagens (foto: Ed Alves/CB/D.A Press)
 
 
Muitos moradores não tomaram posição contra ou a favor da greve, mas não enxergaram alternativa a não ser encarar o transporte alternativo, como ônibus e vans piratas, além de carros do sistema de aplicativos. Domingos Ribeiro, 73, mora em Ceilândia e trabalha no Setor de Indústria e Abastecimento (SIA). “Soube da greve ontem mesmo, aí, para não chegar atrasado, saí de casa às 5h. Mas como não tinha ônibus e não conheço ninguém que pudesse dar carona, peguei um transporte do Entorno, fui para o centro de Taguatinga e fiquei duas horas esperando um outro ônibus. Nem que ele seja pirata, eu vou, porque, se não, perco um dia de salário, e isso eu não posso”, afirma.

Diferentemente do esperado, a população quase não recorreu ao metrô. Em Ceilândia, maior cidade do DF, o fluxo de pessoas nas estações foi bem abaixo do normal, mesmo com 22 trens circulando no primeiro horário de pico do dia, número acima do determinado pela Justiça. “Nós estamos em greve, mas cumprimos a determinação de ter 75% dos trabalhadores do metrô atuando. Porém, quando chegamos aqui, nos surpreendemos com a pouca quantidade de passageiros”, disse um funcionário que não quis se identificar. Ele apoia as paralisações: “Greve sempre prejudica alguém mesmo, mas só estamos lutando pelos nossos direitos”, opinou.
 
Veículos piratas aproveitaram a falta de transporte público para circular na cidade(foto: Ed Alves/CB/D.A Press)
Veículos piratas aproveitaram a falta de transporte público para circular na cidade (foto: Ed Alves/CB/D.A Press)
 
 
Também houve quem discordasse do movimento, como Francisco Dionísio, 42, morador do Guará. O vendedor sentiu o impacto das paralisações durante toda a sexta-feira. “Trabalho no mesmo lugar há três anos e, hoje, está sendo um dos piores dias de movimento. Tranquei a loja para ir ao banco e também estava fechado. Isso, para mim, é péssimo. Não consegui pagar uma conta que precisava ser quitada hoje (nesta sexta-feira — 14/6) nem ter minha renda das vendas”, lamentou.

Serviços do Departamento de Trânsito (Detran) também foram afetados. Cerca de 70% da categoria aderiu à greve. O sindicato informou que apenas atendimentos de emergência, como em casos de acidentes, funcionaram na totalidade. Quem tinha vistoria agendada para ontem deverá procurar o serviço, no mesmo local e horário, entre 17 e 28 de junho, sem multa.

O governador Ibaneis Rocha pronunciou-se sobre a paralisação. Ele disse que acompanhou os efeitos do movimento a partir de informações repassadas pelos secretários. “Respeito o direito à greve e acho que a manifestação é legítima. Mas, à medida que houver prejuízos à população, vamos tomar providências”, disse.
 
"Se a greve continuar, não vai melhorar para a gente. Ninguém que depende de ônibus vai sair de casa para enfrentar o caos sem o transporte só para bater perna", Izamara Bispo, gerente de loja de Taguatinga (foto: Ed Alves/CB/D.A Press)
 

Lojas vazias

Entre os setores mais afetados com as paralisações está o comércio. A falta de ônibus atrapalhou os funcionários e os consumidores a chegarem às lojas. O presidente do Instituto Fecomércio, Francisco Maia Farias, afirmou que, apesar de não ter números referentes ao dia, houve uma baixa considerável nas vendas. “Como as pessoas precisam de ônibus, deixam de trabalhar. Com isso, as lojas têm menos pessoas para atender, e o número de clientes também cai”, explicou.

Restaurantes e bares são os mais prejudicados, confirmou Francisco. “Se um cozinheiro ou chefe de cozinha falta, por exemplo, já imaginou? Quem vai substituir assim, em cima da hora? Como resolver? O restaurante não funciona e pode até abaixar as portas. Isso causa um prejuízo enorme. Fora outros tipos de comércio, que também foram prejudicados”, contou.

A gerente de uma loja de bijuterias no centro de Taguatinga Izamara Bispo, 37, contou que em dias de paralisação, as vendas caem em torno de 70%. Geralmente, o estabelecimento, que fica em uma das avenidas mais movimentadas do DF, lota desde a hora que abre, às 8h30. No entanto, a realidade ontem foi diferente. “Se a greve continuar, não vai melhorar para a gente. Ninguém que depende de ônibus vai sair de casa para enfrentar o caos sem o transporte só para bater perna”, ressaltou.

Uma loja de roupas também teve prejuízo. A falta de ônibus acarretou na falta de metade dos atendentes. “A gente tem aqui seis vendedores. Hoje, contamos apenas com três. A nossa demanda é muito grande, e os que vieram estão fazendo de tudo. Sou gerente e precisei ficar no caixa. Não está sendo fácil”, revelou a funcionária, que não quis se identificar.

Educação

Segundo a Secretaria de Educação, 188 de 637 escolas públicas tiveram paralisação total, ou seja, 29,51%. Outras 288 pararam parcialmente. Nas demais 161 houve aula normal. O órgão informou que as aulas serão repostas ainda no primeiro semestre letivo de 2019. As datas serão definidas pelas direções. As instituições de ensino particulares mantiveram as atividades.

Enquanto isso, professores se reuniram em uma assembleia em frente ao Palácio do Buriti para votar as reivindicações da categoria. A estimativa do sindicato foi de um público de 3 mil pessoas. Estudantes também se manifestaram contra o contingenciamento de verba da educação e a reforma da Previdência. Um grupo de 40 alunos bloqueou o Km 12 da BR-070, às 9h. Eles carregaram faixas e bandeiras e ocuparam a L2 Norte, na altura da Universidade de Brasília (UnB), até as 10h, de acordo com a Polícia Rodoviária Federal (PRF).

Para saber mais

Duas decisões da Justiça do DF consideraram ilegais as paralisações de ontem dos rodoviários e dos metroviários. O Tribunal Regional do Trabalho da 10ª Região deferiu um pedido das empresas de ônibus Piracicabana, Marechal, Pioneira e São José e proibiu a greve dos rodoviários, estipulando uma multa de até R$ 100 mil para o descumprimento. Porém, o Sindicato dos Rodoviários aderiu ao movimento e paralisou de forma quase total. Na outra determinação, o Tribunal de Justiça do Distrito Federal e dos Territórios (TJDFT) lançou uma decisão interlocutória contra as manifestações, abrangendo, além dos rodoviários, os metroviários. Nesse caso, foi estabelecida multa de até R$ 250 mil caso 40% da frota não estivesse operando normalmente. O metrô, no entanto, já cumpria uma liminar do TRT que solicitou o funcionamento de 75% da frota em horário de pico e continuou a obedecer ao termo.

Dia parado

Veja quais categorias pararam na sexta-feira

» Bancários

» Professores da rede pública de ensino

» Rodoviários

» Servidores do Detran

» Metroviários

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