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Correio Braziliense

Cidade-modelo? Modernidade de Brasília não é refletida em infraestrutura

Apesar de nova, Brasília enfrenta problemas semelhantes aos de cidades com séculos de existência


postado em 16/06/2019 08:00 / atualizado em 17/06/2019 17:35

O ciclista Juan Lucas Alves sofreu acidente e se feriu ao cair de bicicleta em um bueiro sem tampa(foto: Vinicius Cardoso Vieira/CB/D.A Press)
O ciclista Juan Lucas Alves sofreu acidente e se feriu ao cair de bicicleta em um bueiro sem tampa (foto: Vinicius Cardoso Vieira/CB/D.A Press)
Planejada, moderna e com 59 anos, Brasília foi um sonho que se tornou real. Mesmo considerada um modelo para arquitetos e urbanistas de todo o mundo, a menina dos olhos de JK enfrenta problemas de metrópoles com séculos de existência. A acessibilidade é um deles. As falhas na infraestrutura de uma capital nova e cosmopolita se descortinam a partir do momento em que grupos populacionais ficam privados do direito de ir e vir.

Ao menos uma vez por mês, Eduardo Sousa George, 31 anos, enfrenta esse obstáculo, especialmente com o transporte coletivo. Quase sempre há problemas com as plataformas elétricas para cadeirantes. “Tem motorista que passa e avisa que não está funcionando. Às vezes, entro na rampa, mas ela não sobe, o que dificulta meu acesso na cadeira de rodas. Nesse caso, a alternativa que me resta é esperar outro ônibus”, conta o morador da Asa Norte.

O transporte por aplicativo, alternativa ao serviço público, nem sempre oferece uma solução. Alguns carros, segundo Eduardo, não acomodam a cadeira de rodas. “Apesar de ela ser desmontável, há veículos pequenos, que não têm espaço.” O jornalista conta com a ajuda de um amigo que o busca em casa, acompanha no trabalho e, no fim do dia, o deixa na parada de ônibus. O trajeto não é dos mais fáceis. “Enfrento alguns obstáculos desde a parada até a minha casa. Há pedras na via, buracos na calçada e faltam rampas”, comenta.

A cidade sofre ainda com o desgaste na infraestrutura de outros pontos. Na Rodoviária do Plano Piloto, por exemplo, por onde circulam cerca de 700 mil pessoas todos os dias, escadas rolantes estão constantemente quebradas e elevadores, fora de serviço. Engenheira civil e mãe de Ney Neto, 1 ano, Anna Paula Porfirio Furtado, 26, nem sempre acha fácil atravessar o terminal com o filho em um carrinho de bebê. A superlotação e as áreas bloqueadas por tapumes das obras dificultam ainda mais a passagem. “Quando o elevador não funciona, preciso descer as escadas com o carrinho em um braço e o bebê, no outro. Tenho problemas de coluna e nem sempre alguém ajuda”, lamenta a jovem.

Moradora da Cidade Ocidental, Anna Paula, que costuma pegar o BRT, reclama do desnível entre a plataforma e o piso dos ônibus. “Fica difícil segurar o filho e fechar o carrinho. Ele é pesado e, se você não segura na mão da criança, ela pode correr para o meio da pista”, ressalta. “É um problema geral. Ando muito pela Asa Sul, e não é porque estamos no Plano Piloto que a acessibilidade é melhor”, compara.

Medidas

Outras regiões de Brasília também preocupam. As passagens subterrâneas, criadas para dar segurança aos pedestres que atravessam o Eixo Rodoviário, são alvo de reclamações há anos. As rampas íngremes, a falta de iluminação e o pavimento irregular tornam a travessia um desafio, principalmente para ciclistas, cadeirantes, idosos e pessoas com mobilidade reduzida ou problemas de visão.

(foto: Thiago Fagundes/CB/D.A Press)
(foto: Thiago Fagundes/CB/D.A Press)
Para o arquiteto Geraldo Nogueira Batista, 80, os problemas da capital federal datam da concepção do projeto. “É uma cidade que foi preparada pensando em uma cultura rodoviária. As calçadas não são compatíveis com a acessibilidade. Não é uma falha do plano ou dos autores, mas algo que reflete um momento em que a indústria automobilística estava em crescimento”, avalia o morador da Asa Sul.

Embora não enfrente dificuldades de locomoção, Geraldo considera que algumas medidas são necessárias para facilitar o vaivém de quem tem limitações físicas. “Há alguns impedimentos, devido ao fato de ser uma cidade tombada, mas é possível adotar saídas, como elevar o nível das travessias de pedestres; reduzir a largura das faixas de rolamento para aumentar a das calçadas; e diminuir a velocidade máxima permitida no Eixo Rodoviário”, sugere.

Na ciclovias que cortam as asas Sul e Norte, além da Esplanada dos Ministérios, a falta de manutenção atrapalha. Estudante de arquitetura e ciclista, Juan Lucas Alves, 22, conta que, para transitar na parte sul da cidade, a opção é dividir a calçada com pedestres. “De toda forma, é difícil, porque, se você anda na pista, os carros não respeitam. Na calçada, é perigoso por causa dos pedestres. Mas essa é a opção que sobra”, pondera.

Há seis anos, o universitário sofreu um acidente. Enquanto pedalava em uma ciclovia, ele passou por um bueiro sem tampa e caiu. “Saí da estação do metrô e só reparei o buraco a poucos metros de distância. Não consegui frear a tempo. Rachei um dente e cortei o queixo”, recorda-se. Após o ocorrido, ele ficou dois anos sem andar em uma bike. Hoje, cobra soluções. “É importante terminar a via da Asa Norte, além de fazer sempre a manutenção das faixas e calçadas.”

Três perguntas para 

Pastor Willy González Taco — professor do Programa de Pós-Graduação em Transportes do Departamento de Engenharia Civil e Ambiental da Universidade de Brasília (UnB)

O que é preciso melhorar quando o assunto é acessibilidade no DF?
 
A participação coletiva. Chamar instituições de pessoas com deficiência e ouvir as demandas delas, além de promover audiências públicas nas regiões administrativas, identificar os problemas com a comunidade e chamar as universidades para apresentar uma solução. Temos as melhores normas em relação a isso, mas é preciso mais ação.

Quais ações devem ser adotadas para a criação de políticas públicas?
 
Levantar dificuldades; estabelecer cronogramas; executar trabalhos; articular com todos os envolvidos para apresentar soluções; trazer a universidade para participar; envolver a imprensa para cobrar o que ocorre; e, por último, fiscalizar.

Que outra saída importante vale destacar?
 
A questão das novas tecnologias para ajudar a apresentar problemas. Na África do Sul e na França, por exemplo, usam essa medida para solucionar transtornos. A partir de aplicativos, a população apresenta o problema e acompanha o processo de reforma, o que torna o processo colaborativo, uma fiscalização comunitária.


 

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