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Correio Braziliense

Especialistas explicam quais medidas são urgentes para a Saúde do DF

O Correio percorreu unidades de saúde do Distrito Federal e consultou especialistas para entender quais são as medidas mais importantes que podem ajudar a resolver problemas do setor. Infraestrutura, distribuição de insumos e profissionais são os principais desafios a serem superados


postado em 23/06/2019 08:00 / atualizado em 22/06/2019 21:57

Sala de espera no Hospital de Taguatinga: 63,5% da população do DF depende exclusivamente do sistema público(foto: Gustavo Moreno/CB/D.A Press)
Sala de espera no Hospital de Taguatinga: 63,5% da população do DF depende exclusivamente do sistema público (foto: Gustavo Moreno/CB/D.A Press)
Faltam profissionais e as filas de espera para atendimento são longas. A saúde do Distrito Federal encara os mesmos problemas há décadas, e as soluções ainda parecem distantes para os pacientes. A reportagem visitou algumas unidades de atendimento, nas quais ouviu as principais reclamações da população.

Para especialistas, a gestão ineficiente é a principal causa dos problemas observados no atendimento. A Secretaria de Saúde do DF informou que, com a nomeação de 81 profissionais para o Instituto de Gestão Estratégica de Saúde do Distrito Federal (leia Para saber mais) será possível remanejar servidores para as unidades hospitalares, principalmente para reabertura de leitos fechados. “A gestão também trabalha no fortalecimento do programa de assistência domiciliar em todos níveis e, consequentemente, com ênfase na desospitalização”, informou a pasta, em nota.

Quem depende do sistema define o tratamento recebido com uma palavra: descaso. Com a filha Giovanna Jesus, 19 anos, internada por seis dias no Hospital Regional da Asa Norte (Hran), a cuidadora Adriana Helena de Jesus, 50, encontrou uma realidade que se repete em outras unidades de saúde. Até conseguir atendimento para a jovem, foram mais de sete horas de espera. A suspeita na triagem era de que Giovanna estivesse com dengue. No entanto, exames apontaram uma infecção renal.

“O rapaz da triagem disse que era para voltarmos a Planaltina, onde moramos, para sermos atendidas nas tendas (de hidratação para pessoas com sintomas da dengue). Falei que ficaríamos, mas ele disse que o atendimento ia demorar”, contou Adriana, que chegou com a filha por volta das 10h ao hospital. Ela ainda relatou outros problemas como falta de macas, lençóis, cobertores e cadeiras para acompanhantes, além de um furto. “Não faltaram comida ou remédios, mas estrutura. Os banheiros estavam em péssimas condições, com portas quebradas e vasos entupidos”, detalhou a cuidadora.

Na terça-feira, o pronto-socorro do mesmo hospital estava com quase todas as cadeiras ocupadas e não havia escala de médico afixada para os pacientes. Alguns aguardavam quase 12 horas para serem atendidos. Moradora de Taguatinga, Weliany Carvalho da Silva, 47, foi à a unidade em busca de atendimento para ela e para a filha Anna Beatriz Silva Pires, 16. Hipertensa e diagnosticada com asma severa, a mãe estava com falta de ar e a adolescente apresentava sintomas de pneumonia. As duas chegaram por volta das 13h20 e, às 22h45, ainda não tinham sido atendidas.

Segundo a aposentada, uma servidora chegou a oferecer atestados de comparecimento para quem precisasse. “Ela disse que só tinha um médico atendendo e cerca de 50 pessoas acabaram indo embora. É um descaso o atendimento da rede pública”, completou Weliany, que pagava R$ 1,8 mil de plano de saúde, mas precisou cancelar o benefício por causa do valor. “Não pude continuar arcando com a despesa e vim para a rede pública, como cidadã que paga impostos. Mas não recebemos sequer uma previsão de atendimento”, acrescentou.


Demanda


Ao menos 63,5% da população do Distrito Federal depende exclusivamente do sistema público, por não ter acesso a plano de saúde, segundo dados da Pesquisa Distrital por Amostra de Domicílios (Pdad) 2018. A taxa deve ser maior, uma vez que, de 2015 para cá, houve aumento no número de pessoas que ingressaram na informalidade. Em abril daquele ano, o número de indivíduos trabalhando sem carteira assinada no DF era de, aproximadamente, 136 mil pessoas. Em abril último, esse número subiu 14,7%, alcançando 200 mil habitantes.

Apesar dos possíveis impactos das mudanças socioeconômicas, a especialista em gestão de saúde e professora do curso de saúde coletiva da Universidade de Brasília (UnB) Carla Pintas acredita que o aumento da demanda na atenção primária tem mais relação com a maior oferta de funcionários nas unidades básicas de saúde e à falta desses profissionais em hospitais. “O problema dos planos de saúde ainda é muito pequeno em relação à organização que a atenção primária começou a ter. Há desemprego entre a população e o mercado informal está crescendo, mas não sei se isso justifica o aumento”, avaliou Carla.

Ela considera que a maior parte dos problemas do setor não demanda soluções rápidas ou fáceis de serem executadas. No entanto, para começar a resolvê-los, é necessário recorrer a equipes técnicas, segundo Carla. “A atenção básica padece de abastecimento, insumos. Precisamos rever os processos de trabalho das unidades básicas, que carecem de atendimento emergencial. Até temos uma gestão hospitalar da saúde empoderada, com muitas ferramentas, propostas de atividades, instrumentos, e podíamos lançar mão disso, mas ainda esbarramos na deficiência de conhecer quanto se tem, quanto se gasta e as reais demandas por insumos”, comentou.

A especialista criticou ainda a transferência da responsabilidade sobre os casos de dengue para a gestão passada e destacou a falta de agentes comunitários de saúde (ACSs) para fazer a ponte entre o serviço e a população. A Política Nacional de Atenção Básica (Pnab), definida pelo Ministério da Saúde, recomenda que cada UBS conte com, ao menos, quatro equipes de Atenção Básica ou de Saúde da Família para atender a uma população de 2 mil até 3,5 mil pessoas.

O arranjo dessas faixas populacionais pode ser alterado pelo poder Executivo das respectivas unidades federativas levando em conta fatores como vulnerabilidades, riscos e dinâmica das comunidades. No DF, segundo a Secretaria de Saúde, há 530 equipes completas (com médico, enfermeiro, técnico ou auxiliar de enfermagem e ACS), o que corresponde a uma para cada 4,8 mil habitantes.

Para saber mais
Ampliação do modelo

A Câmara Legislativa aprovou a criação do Instituto Hospital de Base do Distrito Federal (IHBDF) em 20 de junho de 2017, na gestão de Rodrigo Rollemberg (PSB). Em 30 de janeiro de 2019, o governo de Ibaneis Rocha (MDB) trocou o nome do instituto e estendeu a gestão para outras unidades da rede pública. O Instituto de Gestão Estratégica de Saúde do Distrito Federal (Iges-DF), agora, é a entidade responsável por gerenciar, além do Hospital de Base, o Hospital Regional de Santa Maria (HRSM) e as seis unidades de pronto-atendimento (UPAs). A expansão foi aprovada pela Câmara Legislativa, em sessão extraordinária, com mudanças no projeto original, que previa a expansão do modelo para todos os hospitais do DF.

Três perguntas para 

Osnei Okumoto, 
secretário de Saúde do Distrito Federal

Onde está a raiz dos problemas da saúde do DF?
O que encontramos (de problemas) diz respeito à manutenção predial e aos equipamentos. Havia problemas no teto e de energia que tentamos restabelecer para absorver os equipamentos de alta tecnologia que temos para implantar. Encontramos grande falta de pessoal, de medicamentos e de insumos, que conseguimos restabelecer em grande quantidade. Há um grande problema na realização de exames na rede. A quantidade de exames que não foi executada, muitas vezes, não permitia a realização de cirurgias nem a alta de pacientes. Muitos precisavam do resultado para a conclusão do tratamento ou para retornarem para casa. Por outro lado, temos um grande número de pacientes hospitalizados que poderiam ser tratados em casa. Agora, conseguimos disponibilizar isso para as famílias com empresas que contratamos. Temos aproximadamente100 pacientes que devem deixar os hospitais nos próximos dias e serem tratados em casa com essas equipes.

Como resolvê-los?
É preciso mudar a forma de gestão colocada por meio das regulamentações de portarias e resoluções dentro da Secretaria de Saúde. Elas estão sendo revistas e modificadas para que desburocratizemos nossa gestão, tenhamos segurança no que estamos fazendo e, logicamente, possibilitemos mais agilidade (nos atendimentos). Outra coisa é a questão da informatização. Estamos no processo de aquisição de soluções de informática para que possamos integrar toda a rede, desde a atenção primária até a terciária, de tal forma que tenhamos domínio do que está acontecendo em tempo real dentro de nossa estrutura. Informatização é fundamental, bem como a parte de comunicação da secretaria com a população.

Haverá contratação de agentes comunitários de saúde?
Temos em torno de 1.050 agentes comunitários de saúde. A intenção é que tenhamos mais desses profissionais para que possamos fazer essa interlocução das equipes do Saúde da Família com a população. Eles têm a exigência de ser da região onde atuam, porque têm maior integração com a população, e isso facilitaria (obter) as informações necessárias. Há necessidade de contratação de mais profissionais para que possamos disponibilizá-los na atenção primária. Tivemos diminuição porque alguns foram forçados a sair como agentes de vigilância ambiental. Eles cuidavam mais da questão da dengue e foram deslocados como agentes comunitários de saúde. Pelo desvio de função, a Justiça pediu para que retornassem. Não foi da nossa gestão, mas fizemos a reintegração deles onde foram concursados e, logicamente, tivemos uma perda nessa maquiagem que existia anteriormente. O fortalecimento da estratégia do Saúde da Família é o que queremos e buscamos agora. Tínhamos a premência de fazer a expansão do instituto para as UPAs e para o hospital de Santa Maria. Chamaremos 2.420 profissionais, sendo que 619 estão trabalhando nas seis UPAs. Gradativamente, chamamos toda semana uma quantidade de profissionais. Devemos finalizar até agosto.



Atendimento de urgência

Lidar com uma emergência requer ânimo para quem recorre a hospitais e Unidades de Pronto-Atendimento (UPAs) do Distrito Federal. Na terça-feira, na do Núcleo Bandeirante, não havia nomes de médicos na escala das 19h às 7h, quando o Correio esteve no local. Havia só dois nomes de médicos, que figuravam no horário das 13h às 19h. Sem encontrar profissionais ou informações, muitos pacientes optam por voltar para casa sem atendimento.

Consultora de vendas e moradora do Riacho Fundo 2, Thais Silva, 39 anos, deixou a unidade às 21h50, após nove horas e meia de espera. Ela saiu do trabalho com crise de enxaqueca e aguardou até as 19h40, quando conseguiu ser atendida. Durante esse tempo, a paciente vomitou na recepção do pronto-socorro. “Comecei a filmar a situação às 15h, quando, finalmente, fiz a triagem, mas o atendimento só aconteceu à noite”, contou.

Thais acrescentou que ainda perdeu o dia de serviço. Isso porque o médico do último turno afirmou que não poderia dar um atestado referente ao horário da tarde. “Fui diagnosticada com sinusite e recebi uma dipirona na veia, cujo efeito só vai durar seis horas. Sequer me deram um encaminhamento para um neurologista, mesmo eu sendo paciente com crises de enxaqueca. Para tomar uma dipirona na veia, eu não precisaria estar aqui”, reclamou.

Na mesma data, na UPA de Ceilândia, pacientes reclamaram da demora para o atendimento e dos constantes redirecionamentos. “Viemos da UPA de Samambaia, passamos pelo HRC, fomos para uma das tendas (de hidratação para pessoas com sintomas da dengue), onde colheram meu sangue, e me mandaram para cá”, detalhou Vandeilma Pessoa, 40.

Com sintomas como dor de cabeça, vômito, falta de ar e dor nos rins, a moradora da região administrativa criticou o tratamento recebido. “As pessoas mal olham para o paciente. É um descaso com o ser humano. Sempre que venho é mais espera. E, agora, acham que tudo é dengue”, afirmou. “É preciso cobrar melhora no atendimento. Pagamos impostos. Nada disso é de graça”, completou Vandeilma.

Sem conseguir assistência em Vicente Pires, onde moram, a auxiliar administrativo Dayane Cordeiro Teles, 20, e o marido dela, o professor Lucas Brandão, 23, tiveram de se deslocar até a UPA de Samambaia. Lá, o atendimento estava restrito para pacientes em estado grave ou gravíssimo. Após espera de mais de três horas, e depois de confundirem as informações do prontuário de Lucas com as de outro paciente de mesmo nome, o jovem conseguiu passar por avaliação e ser medicado.

“Em Vicente Pires, disseram que não nos atenderiam, que teríamos de nos virar e que ‘ele não morreria mais’, por isso, não havia motivo para nos preocuparmos. Sequer medicaram ele. Aqui em Samambaia, só há um médico. Ele estava com febre de 39,8ºC, delirando e com tosse e dor no peito. A situação está precária. E sequer há previsão de alta para ele”, disse Dayane.

Justiça

A Organização Mundial da Saúde (OMS) não emite recomendações nem estabelece taxas ideais em relação ao número ideal de leitos, profissionais ou hospitais por grupos de habitantes. O mesmo vale para duração ideal das consultas médicas ou a quantidade de pacientes que devem ser atendidos por hora. Uma nota da entidade informa que estipular esses índices depende de fatores diversos, que divergem de região para região e de país para país. “Isso torna impossível, além de pouco válido, o estabelecimento de uma ‘cifra ideal’ a ser aplicada de maneira generalizada por todos os países do planeta”, afirma o documento.

Ainda assim, um estudo do Conselho Federal de Medicina (CFM) apontou que, de 2010 até 2018, 664 leitos de internação do Sistema Único de Saúde (SUS) foram fechados no DF. A maior queda foi observada nos leitos pediátricos, com 284 unidades fechadas. Em compensação, na rede particular, esse número subiu 20%.

Especialista em gestão pública e professor no Centro Universitário de Brasília (UniCeub), José Simões acredita que o problema da saúde do Distrito Federal está na manutenção de um status quo e de modelos que não funcionam bem. “É uma estrutura pesada, com muitos servidores e altos custos na folha de pagamentos, o que se reflete lá na frente, na falta de recursos”, avaliou José.

Ele comenta que a pressão de alguns grupos sobre o governo é um dos principais entraves para melhoras. “Isso tem sido um fator para o GDF patinar e não deslanchar. Não estou falando em privatizar. O Executivo tem tido dificuldades para implementar o que funciona em outros estados, com parcerias, instrumentos de OSs (organizações sociais). Isso tem dado resultado e é um modelo que precisa ser testado e acompanhado de perto”, ressaltou o professor.

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