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Correio Braziliense

Fila em mercado revela drama do desemprego, que atinge 331 mil brasilienses

Na tentativa de obter trabalho em supermercado, centenas de pessoas aguardam horas para entregar currículo e disputar 47 vagas. Alta procura se repete no Distrito Federal e Entorno desde o início do ano


postado em 17/07/2019 06:00 / atualizado em 16/07/2019 23:47

Jilvanete é professora, tem pós-graduação, mas busca vaga no caixa(foto: Juliana Andrade/CB/D.A Press)
Jilvanete é professora, tem pós-graduação, mas busca vaga no caixa (foto: Juliana Andrade/CB/D.A Press)
O sol não havia surgido quando Marcos Ferreira, 22 anos, saiu de Luziânia, por volta das 3h30, na esperança de conseguir o primeiro emprego. O jovem, formado em administração, pegou um ônibus e atravessou Brasília para, às 5h30, alcançar a Asa Norte. Ao chegar à comercial da 209, endereço do Oba Hortifruti, deparou-se com uma fila que terminava no bloco seguinte. Além de Marcos, centenas de pessoas disputavam uma das 47 vagas oferecidas pelo estabelecimento. “Procuro emprego desde os 18 anos, e não é por falta de curso que eu não consigo, porque eu fiz vários. Eles (empresas) sempre exigem experiência, mas como vou conseguir experiência se ninguém me dá uma oportunidade?”, questionou.

No caso do Oba, as vagas são para todas as lojas do DF, que precisam de açougueiro, auxiliar de açougue, atendente de loja (exclusivo para deficientes), empacotador, operador de caixa e motorista. Leonardo dos Santos, 19, conta que, se conseguisse qualquer um dos cargos, ficaria feliz. Ele saiu de Sobradinho e passou horas à espera de ser recebido por um entrevistador do recursos humanos do supermercado. “Cheguei às 6h, e a fila estava no fim da quadra”, disse. O jovem trabalhava em uma padaria da Asa Sul, mas ficou desempregado há cinco meses, depois de cortes feitos na empresa. “O pessoal até chama para fazer entrevista, mas as vagas são poucas”, lamentou.

As entrevistas começaram às 8h30. Fernando Antônio Magalhães também chegou à Asa Norte cedo, às 6h. Às 11h, ele ainda aguardava para entregar o currículo. Casado e pai de três filhos, ele está desempregado há seis meses. “Eu recebi a minha última parcela do seguro-desemprego. Enviei currículo para todo lado, fiz algumas entrevistas, mas está complicado”, afirmou. O pai de família tem cerca de 10 anos de experiência no mercado com serviços de limpeza.
 
Fernando tenta um emprego há seis meses:
Fernando tenta um emprego há seis meses: "Está complicado" (foto: Ana Rayssa/CB/D.A Press)
 

Segundo a Pesquisa de Emprego e Desemprego (PED) mais recente da Companhia de Planejamento do Distrito Federal (Codeplan), há 331 mil pessoas sem trabalho no DF. Os dados são de maio. O cenário envolve gente de diferentes idades, cidades e formação. Jilvanete Fernandes, 54, é professora de português e literatura e pós-graduada em gestão e orientação educacional pedagógica. Sem conseguir um emprego na área de formação, ela estava na fila do supermercado para tentar uma vaga de operadora de caixa. “Estou há três anos desempregada. Está muito difícil. A escassez de emprego está muito grande”, afirmou.

Moradora do Valparaíso, Andreia da Cruz, 40, está desempregada há 9 meses. Mesmo estando no fim da fila, ela não pretendia desistir da disputa. “Eu mandei currículo para vários lugares, participei de muitos processos seletivos, mas eles nunca chamam. Fiz até um grupo nas redes sociais para compartilhar vagas de emprego”, frisou. A candidata torcia para ser selecionada para trabalhar como operadora de caixa, área em que ela tem experiência.

Repercussão

O economista Newton Marques afirma que o desemprego é um dos piores problemas da economia. Em Brasília, a situação fica mais expressiva por causa do corte de gastos no setor público, que acaba atingindo a população da capital. “Quando há um corte, as pessoas de mão de obra terceirizada ou de cargos de confiança acabam sendo atingidas, além dos servidores que deixam de consumir certos bens”, ressaltou. Segundo ele, quando há uma retração de gastos por parte da população que trabalha no setor público do DF, a falta de trabalho, em Brasília, é inevitável.

Para Newton, a situação não vai mudar enquanto a economia não se normalizar. “Se o governo fizer uma política econômica que consiga retomar a atividade econômica do país como um todo, as unidades da Federação, como o DF, terão uma repercussão positiva, e essa situação tenderá a se minimizar”, analisa.

Memória

Junho

Cerca de 200 pessoas acamparam em frente a um supermercado atacadista, em Samambaia, para participar de um processo seletivo. A empresa oferecia 170 vagas.

Maio

Ofertas de vagas reuniram 5 mil pessoas em um supermercado de Valparaíso (GO). O comércio tinha 300 vagas disponíveis.

Março

Em Planaltina, 2,5 mil pessoas amanheceram em frente a um restaurante de Planaltina. A fila chegou a cerca de 1km.

Janeiro

No Itapoã, centenas de pessoas formaram uma fila de 450m para entregar um currículo em um supermercado.

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