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Correio Braziliense

Irmã de Rhuan retoma a vida ao lado do pai e diz sentir saudade da mãe

Morando com o pai e a madrasta, menina de 8 anos, que testemunhou os horrores vividos pelo garoto assassinado em Brasília, vai começar a frequentar a escola em agosto


postado em 17/07/2019 06:00 / atualizado em 17/07/2019 13:48

Rhuan Maycon foi esfaqueado, enquanto dormia, pela mãe, Rosana Auri, e pela companheira dela, Kacyla Priscyla(foto: Alexandre de Paula/CB/D.A Press)
Rhuan Maycon foi esfaqueado, enquanto dormia, pela mãe, Rosana Auri, e pela companheira dela, Kacyla Priscyla (foto: Alexandre de Paula/CB/D.A Press)
A sobrevivente de uma das maiores barbáries da história de Brasília retoma a vida aos poucos. Um mês e meio após a morte do irmão, Rhuan Maycon, 9 anos, em Samambaia, a irmã dele volta a brincar e a sorrir. Mas não fala do crime nem da violência em casa, apesar de saber de tudo o que aconteceu com o garoto, esfaqueado e esquartejado pela mãe e pela madrasta.

A rotina da menina de 8 anos começa a se parecer com a de qualquer garota da idade dela. Gosta de andar de bicicleta na rua, além de brincar com os pintinhos e o cachorro de estimação. Agora, quer um gato. “Disse que não dá para termos todos os animais, ou vamos ter que mudar para uma fazenda”, brinca o pai, de 29 anos.

A garota mora com o pai e a madrasta, de 27 anos, em uma casa na capital acreana, Rio Branco, desde 15 de junho. O Conselho Tutelar da cidade acompanha a família. Recentemente, conseguiu uma vaga para a menina em uma escola da rede pública. As aulas começam em agosto. Uma prova definirá se ela estudará no 3º ou 4º ano.

De acordo com a conselheira tutelar Valdisa Mendes da Costa Silva, responsável pelo acompanhamento do caso, não há registros da menina em nenhuma escola do país. “No entanto, ela nos disse que começou a cursar o 3º ano quando morou em Maceió. Então, achamos importante ela passar pelos testes na escola para descobrir com qual série ela é compatível”, explica.

Blindagem

A escolha da instituição foi cuidadosa, para preservar a menina. “Decidimos por uma escola distante da casa dela, para que a garota não tivesse que conviver com crianças que saibam sobre a história. Isso é para ela não passar por um novo trauma, sobretudo por ela ainda ser muito fechada para falar sobre o que aconteceu com o irmão de criação”, salienta Valdisa Silva.
 
A conselheira também se reuniu com o corpo pedagógico do colégio, para pedir cuidado e completo sigilo quanto à condição da garota. “É de extrema importância que, em um caso tão atípico, não haja interferências de fora e pessoas. Portanto, pedimos zelo dobrado da direção e dos professores, para que não ocorra a exposição” completa Valdisa.

Para o pai, o afastamento da filha do colégio por quatro anos não influenciou no crescimento intelectual dela. “Ela é muito inteligente, apaixonada pela leitura e escrita. O interesse dela a ajudou a não ficar para trás. Desde que falamos da escola, minha filha ficou muito animada”, relata o pai.

O sonho de retomar os estudos vem acompanhado da profissão que a criança pretende seguir. Ao contar para a família que deseja construir prédios quando crescer, descobriu o nome da carreira: “Expliquei que o caminho é ela se tornar uma engenheira civil, e ela adorou a ideia.”

Bicharada

A rotina na casa da garota não começa pelo café da manhã, pois ela não sente fome após acordar. Depois de escovar os dentes, ela se reúne com o cachorro, um pitbull, e os dois pintinhos de estimação. Ela ainda queria adotar um gato. “Ela entendeu que não é possível termos tantos animais no nosso espaço e que temos que cuidar dos que já temos”, afirma o pai.

Como a menina não pode ter outros bichos, se contenta em ver as mais variadas espécies pela televisão. “Minha filha não é muito apegada à TV, o que me deixa muito feliz. Mas, quando ela vai escolher o canal, sempre é de animais. Ela assiste a documentários, pois, assim, descobre sobre eles e a rotina que levam”, detalha o pai.

Quando se trata de leitura, o interesse dela é por gibis. “Ela gosta da Turma da Mônica, mas posso afirmar que, tudo o que se trata sobre gatos, a minha filha está lendo. Os felinos são a grande paixão dela. Ela tem um gosto grande pela leitura”, destaca o pai.

Outro passatempo é andar de bicicleta e brincar com as crianças que moram na rua dela e na igreja evangélica que frequenta com a madrasta e o pai. Ela também convive com a avó paterna, uma tia e uma prima, de 11 anos.

Criança sente falta da mãe 

A garota de 8 anos ainda tenta superar os traumas ocasionados pela criação dada pela mãe, Kacyla Priscyla Santiago Damasceno Pessoa, 28, e a madrasta, Rosana Auri da Silva Cândido, 27. Em meio à nova rotina em Rio Branco, ela também vive a fase de luto pelo assassinato do irmão de criação, Rhuan Maycon. A menina não conversa sobre o crime brutal e sofre com a saudade da mãe.

“Por causa da alienação parental que a minha filha sofreu, foi muito difícil nos primeiros dias me aproximar dela. Mas, aos poucos, ela começou a se aproximar. Mas, graças a Deus, ela tem uma ótima relação com a minha esposa, que tem ajudado muito nisso”, destaca o pai.

De acordo com a conselheira tutelar Valdisa Mendes da Costa Silva, a instituição deixou a menina se adaptar à família. “Notamos, na primeira visita, que ela fica um pouco desconfiada. Acho que isso ocorre por ela ter tido contato frequente com conselheiros e psicólogos no DF”, observa. “Por isso, o melhor nesta primeira fase é se adaptar ao pai. Ela tem uma ótima relação com a madrasta, que é muito atenciosa. Percebemos que um pouco do afastamento paterno se deve, sim, à criação recebida da mãe e da antiga madrasta”, pondera a conselheira.

Hoje, Valdisa Silva vai entregar o encaminhamento da criança a um psicólogo, no Centro de Referência Especializado de Assistência Social (Creas) do estado. “Como ela passou uma experiência extremamente traumática, ela precisa desse acompanhamento. Isso ajudará a menina a conseguir falar sobre o irmão e a entender as nuances de tudo o que passou. Será um dia de cada vez”, acrescenta.

A menina compreende como o assassinato do irmão de criação ocorreu e sobre a prisão da mãe, Kacyla e Rosana. Ainda assim, ela sente saudades da mãe e pergunta sobre quando poderá revê-la.

“Tem dias que ela senta comigo e pergunta se um dia vai poder ver a mãe de novo. Digo que ela vai passar um bom tempo presa, mas que elas vão se ver. Mas é claro que não temos nenhuma intenção de deixar que a minha filha tenha um convívio com a mãe dela novamente. Só esperamos ela ter idade suficiente para explicarmos tudo, inclusive, o motivo da decisão”, explica o pai. 

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