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Correio Braziliense

Usuários sofrem com a falta de elevadores e escadas rolantes na Rodoviária

Com escadas rolantes e elevadores sem funcionar há quatro meses, o maior terminal de ônibus do DF submete pedestres a uma rotina de constrangimento. Quem mais sofre são as pessoas com dificuldades de locomoção, que precisam de ajuda para subir e descer


postado em 03/08/2019 07:00

Eliete e o filho Lucas dependem de ajuda para andar pela rodoviária(foto: Vinicius Cardoso Vieira/Esp. CB/D.A Press)
Eliete e o filho Lucas dependem de ajuda para andar pela rodoviária (foto: Vinicius Cardoso Vieira/Esp. CB/D.A Press)
Humilhação, constrangimento, indignação. Essas são alguns dos adjetivos usados por alguns dos usuários da Rodoviária do Plano Piloto, que reclama da dificuldade em se locomover pelo maior terminal de ônibus do Distrito Federal. Não bastassem a grande quantidade de ambulantes, os puxadinhos das bancas e os defeitos no piso, as escadas rolantes e os elevadores que ligam  o mezanino e as plataformas inferior e superior estão estragados há ao menos quatro meses, sem previsão de conserto. A falta de manutenção afeta a rotina das mais de 700 mil pessoas que diariamente circulam pela construção. Pior ainda para quem tem mobilidade reduzida.

Em dois dias, o Correio flagrou o drama de quem precisa de ajuda para subir ou descer nos três pavimentos da rodoviária. Com o filho Lucas Neves, de 17 anos, na cadeira de rodas, a dona de casa Eliete de França, 41, resumiu em uma palavra o sentimento ao se deparar com escadas e elevadores parados. “Humilhação. Esta é a segunda vez na semana que passamos por aqui e precisamos da ajuda de outras pessoas. Além da dificuldade de locomoção dele, ainda tenho de ficar de olho em como as pessoas o carregam, porque, por alguma falha, podem escorregar e ele cair. É doído e sofrido para nós”, desabafou a mãe.

Quando a reportagem chegou ao terminal, Lucas era carregado escada abaixo por três homens. Preocupada, Eliete seguia atrás, sem desgrudar os olhos do filho. Enquanto a dona de casa arrumava o filho, os estranhos que, naquele momento foram os anjos da guarda de mãe e filho, se foram em meio à multidão.

Para chegar à plataforma superior, Sandra Martins, 36, recorreu a três policiais militares. Aos 8 anos, ela foi atropelada em frente ao Conic. O acidente resultou na deformidade das duas pernas dela. A esquerda está quase recuperada, mas o membro direito ainda precisa de tala. Na quarta-feira, a moradora do P Norte, em Ceilândia, se deparou com os dois blocos de escada, mas não quis arriscar e voltou para casa. No outro dia, conseguiu o apoio dos PMs. Ao chegar no topo, cansaço e constrangimento. “Toda vez que subo aqui, preciso de um lugar, uma cadeira para descansar as pernas. Às vezes, peço ajuda, mas nem sempre as pessoas estão dispostas. Ainda bem que não preciso estar aqui todos os dias, senão seria uma luta diária”, disse Sandra.

Com apenas 1% da visão, a massoterapeuta Zozimeire dos Santos, 53, passa pelo drama diariamente, na rodoviária. Moradora de São Sebastião, ela trabalha em uma clínica ao lado do Conjunto Nacional. Ao descer de um andar a outro no terminal, uma mão segura a bengala para guiar-se, a outra se apoia no corrimão da escada rolante estragada. “Não vou pedir demais, que tudo funcione. Mas qual a dificuldade de uma única escada funcionar? E não penso apenas em mim, mas também nos idosos, nas pessoas com deficiência física. O governo precisa fazer algo urgente”, reivindica.

Fissuras

De frente para o Congresso Nacional, a Rodoviária do Plano Piloto foi inaugurada em setembro de 1960. A estrutura é a mesma desde a construção. O primeiro grande reparo começou em 10 de julho último, após a edificação apresentar fissuras estruturais e risco de desabamento.

Para o professor Frederico Flósculo, do Departamento de Projeto, Expressão e Representação em Arquitetura e Urbanismo da Universidade de Brasília (UnB), nunca faltou dinheiro para acessibilidade no Distrito Federal, mas o recurso não chegou ao espaço público. “A situação da Rodoviária é inaceitável e gravíssima. Aquelas escadas rolantes são do tempo de Lucio Costa (autor do projeto arquitetônico do terminal), dos anos 1960. Na época, poucas cidades do mundo tinham o recurso. Brasília e Nova York eram algumas delas. Mas nunca recebeu a manutenção merecida”, observa.

O especialista diz que a solução seria a construção de rampas pelo terminal. “Passou o tempo disso acontecer. Brasília era para ser uma cidade com mais rampas artísticas, que liguem a plataforma inferior à superior. Além de tudo, é um investimento que economiza energia. Ela só é usada no período de construção. Ou seja, vai facilitar a vida de todos quando essa medida for adotada”, pondera o professor.

Administrador da Rodoviária, Josué Martins de Oliveira afirmou que o governo está elaborando um contrato emergencial para consertar as escadas e os elevadores. Caso seja aprovado pela Novacap, a manutenção deve iniciar nas próximas semanas. “Não estamos inertes, estamos preocupados e trabalhando para que isso seja feito, mas tem os trâmites burocráticos”, disse, sem falar em prazos.

Josué alegou que, quando ele assumiu o terminal, em 20 de março, só um elevador e uma escada rolante funcionavam. Além disso, com a extinção do Transporte Urbano do Distrito Federal (DFTrans), que tinha posto na Rodoviária do Plano Piloto, o contrato com a empresa que fazia a manutenção das escadas e dos elevadores terminou. “Tentamos a prorrogação do contrato, mas a empresa não quis. Tudo depende de licitação, mas com o contrato emergencial acontece mais rápido”, comentou Josué.

Para o administrador da Rodoviária, a presença de usuários de drogas no terminal resulta em vandalismo e depredação do espaço público. Ele teme que os aparelhos sejam destruídos novamente logo após consertados. “Arrancaram os cabos de aço dos elevadores, a fiação, a placa eletrônica, e ainda estamos sem vigilância, porque o contrato também acabou. Mas a população precisa ser atendida”, contou o responsável pelo terminal.

Obra custa R$ 1,19 milhão

A obra emergencial, coordenada pela Novacap, visa reforçar a edificação, que apresentou fissuras estruturais. Segundo o órgão, a reforma deve durar três meses, ao custo de R$ 1,19 milhão. Durante os trabalhos, a plataforma superior ficará interditada. Os carros que vêm no sentido norte-sul, entre o Conjunto Nacional e o Conic, são desviados para a outra via, que funciona em mão-dupla com quem vem no sentido sul-norte. A circulação de veículos pesados está restrita.

700 mil: Quantidade aproximada de pessoas que passam pela Rodoviária diariamente.

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