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Correio Braziliense

Secretário de segurança começa a receber nomes para comando da PM

Resistência da comandante em estender o atendimento do hospital da PM para as demais forças é apontada como a gota d'água para a troca nos principais cargos da corporação. Próximo chefe da PM deve ter perfil mais alinhado com o secretário de Segurança


postado em 07/08/2019 06:02 / atualizado em 07/08/2019 09:20

A coronel Sheyla Sampaio foi a primeira mulher a assumir o principal cargo da Polícia Militar do Distrito Federal: ''fiel às leis e às suas obrigações''(foto: Wallace Martins/Esp. CB/D.A Press)
A coronel Sheyla Sampaio foi a primeira mulher a assumir o principal cargo da Polícia Militar do Distrito Federal: ''fiel às leis e às suas obrigações'' (foto: Wallace Martins/Esp. CB/D.A Press)
A exoneração da primeira comandante mulher da Polícia Militar e do chefe da Casa Militar gerou instabilidade na segurança pública do Distrito Federal. Entre as razões para demitir a coronel Sheyla Sampaio, o governador Ibaneis Rocha (MDB) citou a perda de autoridade dela e as dificuldades para comandar a tropa. Além disso, um dos principais motivos para a saída da oficial tem relação com o projeto de transformar o Centro Médico da PM em Hospital da Segurança Pública. Próximo da então número 1 da PM, o chefe da Casa Militar, tenente-coronel Marcus Paulo Koboldt, também perdeu o cargo.

À frente da PM, Sheyla se mostrou contrária à decisão de fazer da policlínica da corporação um hospital para atendimento médico de todas as forças de segurança do DF: militares, civis e bombeiros. Em junho, Ibaneis decidiu delegar à Secretaria de Segurança Pública as providências para a implementação da unidade de saúde, o que gerou questionamentos da coronel, que seguiu o que pensa a maioria dos integrantes da força.

Enquanto integrante do governo, a postura da coronel gerou insatisfação do secretário de Segurança Pública, Anderson Torres. “Houve uma questão de desalinho. Não acho a Sheyla má pessoa ou vejo faltas graves por parte dela. O governador entendeu que era hora de mudar e fez a mudança”, justificou o chefe da pasta.
 
Além de transformar a unidade de saúde da PM em um hospital que atenda a todas as forças de segurança, as principais propostas do governador para a área de segurança pública envolvem a ampliação da gestão compartilhada das escolas com a Polícia Militar, a reformulação do atendimento à população pelo 190 e a transferência do Centro de Operações da Polícia Militar do DF (Copom) para o Centro Integrado de Operações de Brasília (Ciob), como é feito em grandes operações e protestos.

Ao Correio, o governador detalhou que algumas atitudes da coronel afetaram a gestão de Anderson Torres. “Não tenho nenhum problema direto com ela, mas os coronéis estavam se rebelando, não respeitavam o secretário. Sempre disse que não queria uma rainha da Inglaterra na Secretaria de Segurança. O novo comando será escolhido pelo Anderson, sem a minha interferência, porque, da próxima vez, vou cobrá-lo diretamente”, explicou.

Ibaneis defendeu o secretário de Segurança Pública e destacou que ele tem “muita competência e precisa comandar”. Também explicou que, desde que assumiu o governo, tenta colocar em funcionamento o Hospital da Segurança Pública. “Mas tem resistência de alguns coronéis”, justificou.

Orgulho

A exoneração da comandante da Polícia Militar começou a repercutir pela manhã, quando Sheyla participou de uma solenidade no Colégio Tiradentes. Fontes da segurança pública notaram comportamento diferente da então responsável pela PM. Ela teria chegado atrasada e não manteve o comportamento adotado em eventos passados. Por causa disso, houve a desconfiança de que Sheyla previa a exoneração.

Logo após o encontro, o secretário de Segurança Pública a convocou, além do tenente-coronel Marcus Paulo Koboldt, para uma reunião e comunicou as exonerações de ambos, publicadas nesta terça-feira (6/8) em edição extra do Diário Oficial do DF. A saída de Koboldt teria sido motivada pela proximidade com a ex-comandante da corporação. Os dois compuseram a mesma turma de formação, e ele assumiu o lugar do coronel Júlio César de Oliveira, então chefe da Casa Militar, exonerado em abril. A indicação dele teria partido da própria comandante-geral à época, coronel Sheyla, pelo vínculo de amizade.

A intenção, agora, é de que a indicação do novo chefe da Casa Militar fique restrita a uma escolha do Palácio do Buriti, enquanto a indicação para o comando da PM tenha a participação da Secretaria de Segurança Pública. Os nomes serão definidos nos próximos dias, mas nesta terça-feira (6/8) o secretário de Segurança Pública esteve reunido com Ibaneis no Palácio do Buriti. “Fui consultá-lo e pedir permissão para começar a conversar com alguns cotados e saber se eles estão alinhados com a proposta do governo”, adiantou Anderson.

Em nota, a coronel Sheyla Sampaio informou que o comando exige “postura firme e inabalável” e destacou a “grandeza de um militar em manter-se fiel às leis e às suas obrigações”. Ela também enfatizou o orgulho de ter prezado pela defesa da corporação e de ter sido a primeira mulher à frente da instituição militar.

Para saber mais

Pioneira na PM

Antes de se tornar a primeira mulher a comandar a Polícia Militar do DF, a coronel Sheyla Sampaio chefiava o Policiamento Regional Sul II, responsável por Núcleo Bandeirante, Recanto das Emas e Riacho Fundo 1 e 2. Ela está na corporação há 27 anos, e, desde 1994, faz parte do grupo de oficiais. A coronel decidiu entrar para a PM aos 18 anos. Então matriculada no curso de educação física da Universidade de Brasília (UnB), iniciou os estudos para o concurso. Àquela época, a rotina incluía faculdade e aulas particulares que ministrava para alunos do ensino fundamental. Mesmo assim, foi aprovada em primeiro lugar nas três fases da prova. Passou a ser conhecida como Zero Um, apelido ainda hoje utilizado pelos colegas de turma e pela mãe, a aposentada Dalzira Soares de Souza, 74 anos. A PM foi o primeiro e único emprego da coronel Sheyla. Entre as operações que comandou estão as do carnaval de 2014, 2015 e 2016; a do Réveillon de 2013 para 2014; a Copa do Mundo de 2014; as Olimpíadas de 2016; e o primeiro turno das eleições deste ano.
 
Militares reagem

O Fórum das Associações Representativas dos Policiais Militares e dos Bombeiros Militares do DF emitiu nota em que questiona a mudança da unidade de saúde da PM e considera a atitude do governo perseguição à PM e ao Corpo de Bombeiros. O coordenador do Fórum que assina o texto, coronel Mauro Manoel Brambilla, escreveu que o secretário não tem respaldo para determinar que a PM “abdique do seu hospital para atender a um capricho intempestivo, pois melhorar a saúde dos nossos policias e seus dependentes não será possível se não houver incremento de investimentos maciços no setor.” A entidade também questionou a mudança da unidade de saúde sem alterar a legislação. Brambilla acrescentou que os militares vão acionar a Justiça local e federal, o Ministério Público, o Tribunal de Contas e o Legislativo. “O nosso compromisso com a sociedade não nos permite ações impensadas e radicais, mas entendemos que o GDF está nos impelindo a tomarmos atitudes extremadas para legitimar uma perseguição revestida de legalidade contra nós.” 

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